terça-feira, 10 de maio de 2022
MAM Rio apresenta a primeira edição do “Super Sábado”
Redação do Diário Carioca
6 de maio de 2022
No próximo sábado (14), o MAM Rio apresenta a primeira edição do “Super Sábado”, dia dedicado a uma programação diversa e gratuita nos espaços do museu. A partir das 10h, o público já pode encontrar nos jardins do MAM a feira gastronômica do projeto Junta Local, e a oficina de acrobacia aérea circense, aberta para todas as idades.
Às 14h30, na Cinemateca, será exibida nova sessão de Pequenos Cinéfilos, desta vez pensando formas de construir identidade e coletividade a partir da perspectiva negra, com dois curta-metragens.
O projeto Selvagem também integra a programação, com a realização de uma roda de conversa, às 15h, que articula conhecimentos a partir de perspectivas indígenas – acadêmicas, científicas e tradicionais – com Ailton Krenak, Cristine Takuá, Muniz Sodré e Thelma Villas Boas.
Por fim, a exposição Terra em Tempos segue em cartaz de 10h às 18h, com 270 fotos feitas por nomes como Walter Firmo, Iole de Freitas e Sebastião Salgado.
SERVIÇO:
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro
Tel: (21) 3883-5600
Instagram: @mam.rio
Mais informações: https://www.mam.rio/
Horários:
Quintas e sextas, das 13h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Ingressos:
Contribuição sugerida, com opção de acesso gratuito
Valores sugeridos:
Adultos: R$ 20
FONTE: https://diariocarioca.com/cenario/giro-carioca/noticia/2022/05/06/mam-rio-apresenta-a-primeira-edicao-do-super-sabado/10310368.html
segunda-feira, 2 de maio de 2022
Pedro Bial se encontra com o líder indígena Ailton Krenak às margens do Rio Doce
Vídeos do episódio de 'Conversa com Bial' de terça-feira, 19 de abril de 2022 - Gshow
https://gshow.globo.com/programas/conversa-com-bial/episodio/2022/04/20/videos-do-episodio-de-conversa-com-bial-de-terca-feira-19-de-abril-de-2022.ghtml
Krenak: "Todo mundo deve se armar com título de eleitor e dar um basta nessa direita ignorante"
No BDF Entrevista desta semana, ativista fala ainda sobre o Marco Temporal: "excrescência jurídica"
José Eduardo Bernardes
12 de Abril de 2022 às 08:09
OBS: PODCAST NO SITE DE REFERÊNCIA:
https://www.brasildefato.com.br/2022/04/12/krenak-todo-mundo-deve-se-armar-com-titulo-de-eleitor-e-dar-um-basta-nessa-direita-ignorante
A invasão colonial do Brasil no século XVI não foi superada, segundo Ailton Krenak, liderança indígena da bacia do Rio Doce e ativista ambiental. “Nós não podemos continuar reformando constituições dentro de um corpo de um Estado colonial. O estado colonial foi fundado pelos espanhóis e portugueses. O que você mudar ali dentro, o jogo já está feito, entendeu?”, diz.
Convidado desta semana no BDF Entrevista, Krenak afirma que as armadilhas do estado colonial ainda assombram a República, e uma delas está ligada à sistemática expulsão de indígenas de suas terras ancestrais. Para além dos projetos de legalização do garimpo que tramitam na Câmara Federal, a decisão que o Supremo colocará novamente em votação no meio do ano sobre o Marco Temporal é uma das mais assustadoras, segundo o ativista, que define a medida como uma "excrescência jurídica".
Relembre: Ailton Krenak: “A mineração não tem dignidade, se pudesse continuaria escravizando”
“Eles largaram no texto da Constituição um rabicho para que alguém enfiasse lá esse Marco Temporal. Ela consegue colar no capítulo dos direitos dos índios, onde está a obrigação da União em reconhecer e demarcar as terras indígenas. A União transformou isso numa decisão imperial, se os índios podem ou não ter aquela terra”, avalia.
O Marco Temporal estabelece que só poderão ser demarcadas e reconhecidas as terras indígenas ocupadas legalmente até 1988, data da promulgação da Constituição do Brasil. “O artigo 231 da Constituição Brasileira é definitivo. Ele diz que a União e o Estado brasileiro devem reconhecer as terras indígenas. Quer dizer, é um ato de reconhecimento à ocupação histórica tradicional dos povos indígenas. Não cabe nenhuma discussão sobre isso”, afirma Krenak.
Para avaliar a tese que se tornará jurisprudência para demais casos, o Supremo julga o processo de demarcação da Terra Indígena Ibirama, em Santa Catarina, habitada pelos povos Xokleng, Kaingang e Guarani e que teve sua posse questionada por cerca de 300 agricultores dos municípios José Boiteux, Vitor Meireles, Itaiópolis e Doutor Pedrinho. A ação ganhou apoio da Procuradoria-geral do Estado de Santa Catarina (PGE-SC), que ingressou como parte interessada.
O julgamento foi interrompido em setembro de 2021, após um pedido de vistas do ministro Alexandre de Moraes. Naquele momento, a votação estava empatada em 1 a 1: um voto a favor, proferido pelo ministro Kássio Nunes Marques, indicado de Jair Bolsonaro (PL) à corte; e outro contrário, do ministro Edson Fachin.
Krenak reflete ainda sobre a cooptação de lideranças indígenas pelo bolsonarismo, que, para ele, remonta há muitos anos: ao projeto desenvolvimentista brasileiro baseado no consumo e à maneira como a sociedade está distante de exercer plenamente sua cidadania.
“Até a campanha eleitoral deste ano: as pessoas parecem que estão olhando uma coisa que está acontecendo em outro país. Todos esses jovens de 17 anos, eles deveriam estar assim, mobilizados demais para tirar o título de eleitor. Principalmente nos lugares pobres do nosso país, nos segmentos mais pobres, mais excluídos, as favelas, as quebradas", afirma.
“Todo mundo tinha que se armar com o título de eleitor e dar um basta, do ponto de vista eleitoral, tão redundante, que não deixasse dúvida a essa direita ignorante de que ela está errada. A gente tinha que tentar fazer isso pela via do que chamam de democracia, para a gente testar nossa capacidade de mobilização”, complementa.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: O Marco Temporal segue em debate no Supremo Tribunal Federal e deve ser votado no meio do ano. É um processo que se arrasta há bastante tempo já, entre matérias no Congresso e na Corte. Qual o impacto de reconhecer apenas as terras indígenas ocupadas até a Constituição de 1988?
Ailton Krenak: É uma ofensa ao princípio da nossa Constituição, porque o artigo 231 da Constituição Brasileira é definitivo. Ele diz que a União e o Estado brasileiro devem reconhecer as terras indígenas. Quer dizer, é um ato de reconhecimento à ocupação histórica tradicional dos povos indígenas. Não cabe nenhuma discussão sobre isso.
Eles largaram no texto da Constituição um rabicho para que alguém enfiasse lá esse Marco Temporal, é uma excrescência jurídica. Só que ele consegue colar no capítulo dos direitos dos índios, onde está a obrigação da União em reconhecer e demarcar as terras indígenas. A União transformou isso numa decisão imperial, se os índios podem ou não ter aquela terra.
Não é essa a questão que a Constituição põe. A Constituição determina que é para demarcar. Seria mais ou menos como se alguém determinasse a um sujeito que ele deve levar um balde de água até o jardim e, no meio do caminho, o cara querer discutir se o balde deve estar cheio ou pelo meio, entendeu?
Falando justamente sobre a Constituinte, o senhor teve um papel fundamental naquele processo que culminou na Constituição de 1988, que no papel é super avançada. Naquela época, o senhor se pintou durante um discurso histórico no Congresso Nacional. É verdade que, para entrar no Congresso, o senhor precisou recolher trajes sociais com parceiros, assessores do Congresso, porque eles não permitiram a tua entrada?
É bom lembrar que na década de 1980 a sociedade brasileira tinha outra configuração. A gente estava saindo de uma ditadura e você tinha, mesmo, o povo na rua. Eu fiz uma fala dentro do Congresso Constituinte apoiado por 120 mil assinaturas de brasileiros, espalhados pelo país inteiro.
Era uma emenda popular, eu estava ali com um mandato amplo, então eu pude falar durante alguns minutos, defendendo o capítulo dos direitos indígenas na nossa Constituição. De certa maneira, formulando aquilo que veio a ser os nossos direitos, mas que já era produto de uma articulação muito grande de diferentes segmentos, inclusive de sindicatos de trabalhadores rurais.
A Federação dos Trabalhadores na Agricultura, os metalúrgicos do ABC participavam dessas negociações. A OAB, a CNBB [também]. Quer dizer, era um amplo movimento social em que eu era o sujeito que, naquele momento, tinha que entrar lá e pegar o leão. Tem gente que acha que eu tinha um mandato parlamentar. Eu não fui eleito deputado, eu tinha uma representação atribuída pelo movimento social para fazer uma intervenção e foi o que eu fiz.
Eu levava o segredo no bolso, um potinho com aquela tinta preta, que eu passei no rosto.
É claro que eu cheguei lá de camiseta e calça jeans e os caras falaram: “você não vai entrar aqui, desse jeito. Você tem que estar a caráter, você tem que estar com traje adequado”. E eu, lógico, fui ver que o traje adequado era um terno. Eu tinha que ter um terno, usar paletó e gravata. Então eu fui nos gabinetes dos deputados que eu conhecia na época. Eu não me esqueço que o Domingos Leonelli me arrumou o paletó; o Márcio Santilli, a gravata; o gabinete do Fábio Feldmann me arrumou mais algum acessório e eu me pus naquela condição de parlamentar e pude ser admitido no recinto.
E claro, eu levava o segredo no bolso, um potinho com aquela tinta preta, que eu passei no rosto. Eu sabia que não adiantava eu chegar lá e, em 10 minutos, espernear e convencer 500 parlamentares a aprovar o direito dos índios na Constituição, porque a luta política naquela época era muito aberta e o racismo, o preconceito, eram muito explícitos.
Eu pensei: “bom, não adianta. Por mais incrível que seja meu discurso aqui, os caras não vão me escutar”. Foi daí que nasceu aquele gesto que hoje é chamado de performance. Dez anos depois me disseram: “você fez uma performance”. Eu não tinha a menor ideia disso e eu acho que, nem no contexto da cultura brasileira, a ideia de alguém fazer uma performance ainda não era uma coisa tão comum.
A gente não tinha internet, que nasceu 20 anos depois. É muito interessante lembrar tudo isso. Pessoas das novas gerações podem pensar que eu estava fazendo uma selfie de lá de dentro do Parlamento. Não, o negócio lá era duro. Era você encarar mesmo, argumentar e ser ouvido. Não tinha nenhum jeito de você apelar para quem estava fora daquele salão, não tinha opinião pública que você mobilizava.
E felizmente, pelo engajamento e pelo profundo envolvimento com a temática, eu tinha todos os elementos para argumentar com aquela porção de latifundiários que estava lá. Porque o centrão, esse centrão de sempre, estava lá com a maioria na Assembleia Nacional Constituinte e constrangeu o debate, coisas como deixar uma isca nos direitos sociais, para que eles, no futuro, pudessem dar um tombo na questão do trabalho, na questão do reconhecimento das populações quilombolas, indígenas.
Tanto que você pode ver que, até hoje, existe uma discussão se os quilombos são ou não são um direito a ser reconhecido. De vez em quando alguém tenta acabar com esse direito dos habitantes de territórios de Quilombo. Da mesma maneira que eles tentam sabotar o princípio do direito originário dos povos indígenas sobre as terras que já habitavam.
E não tem essa de botar uma data, dizer: “não os que estavam ali até o dia da Constituição ser promulgada”. Isso é um golpe.
O senhor falou sobre essas pontas soltas da Constituição. Seria possível refazê-la? A gente já teve várias tentativas de assembleias constituintes nos últimos anos. Há espaço para isso? Lembrando do que acontece neste momento no Chile, onde o povo Mapuche, inclusive, lidera a Assembleia Nacional Constituinte para a refundação da Constituição chilena.
Bem, aí são coisas tão distintas que a gente não pode fazer uma comparação. O que acontece no Chile hoje é resultado de uma longa mobilização Andina, desde o Equador, onde se discute o direito da natureza, onde se discute a refundação dos estados coloniais na América Latina e o contexto do Chile, ele põe em questão: não é só refazer os termos de uma Constituição, é refazer os termos da fundação do Estado chileno.
Uma conclusão que lá na Bolívia já se chegou e em outros países da América Latina também é que nós não podemos continuar reformando constituições dentro de um corpo de um estado colonial. O estado colonial foi fundado pelos espanhóis e portugueses. O que você mudar ali dentro, o jogo já está feito, entendeu?
Eu estava até me lembrando daquela história que eu comentei com você, que o Zagallo estava com a Seleção Brasileira para jogar contra os russos. Montou o esquema e anunciou o esquema para os jogadores. O Garrincha virou para ele e disse: “Tá, mas você já tratou com os russos?”
Não adianta a gente mudar a Constituição se a gente não tratar com o escopo de um estado colonial. Já que está tão em debate a descolonização, como que nós vamos pensar uma Constituição que vai ser válida dentro de um arcabouço de um estado que é colonial? Que os caras que têm o poder vieram do Império?
Muitas das pessoas que seguiram a vida política brasileira, os tataravós deles, os avós deles eram conselheiros do Dom Pedro II. A primeira República foi só uma mudança de prédio. Mudou o prédio, não a República. Era um monte de conselheiros do Império assumindo cargos na República, com todos os vícios.
E o quão distante a gente está dessa democracia real?
Bom, a gente sabe o que é a Cordilheiras dos Andes, não é? Essa é a distância que nos separa da experiência do Chile. A gente tem que atravessar a Cordilheira dos Andes para chegar na experiência deles, que é a refundação do Estado colonial chileno, que foi instituído pelos espanhóis e está lá até hoje, caquético. Assim como o nosso foi instituído pelos portugueses e ele está podre.
Eu acho muito interessante a gente estar conversando sobre isso, porque esse debate deveria estar sendo feito pelos juristas, os constitucionalistas, esses homens ilustrados da vida brasileira. Eu não sei por que a Ordem dos Advogados do Brasil não tem coragem de abrir um debate sobre a reforma do Estado.
Acontece, neste momento, em Brasília o Acampamento Terra Livre. Desde 2019 ele não acontecia presencialmente. A ideia era reunir os 305 povos indígenas de todo o país. Dado o contexto do país, esse tende a ser um ato de maior pressão no governo federal?
Olha, a gente não pode se esquecer que o movimento indígena nunca deixou de fazer presença no debate político em Brasília, nem desde 2019 e nem dia nenhum. Não tem uma data para o movimento indígena ir à Brasília. O movimento indígena, a marcha das mulheres sobre Brasília, nunca pararam de ter delegações significativas indígenas em Brasília. A cada ameaça de golpe o povo indígena está em Brasília.
O que nós reclamamos muito é que os outros segmentos da sociedade brasileira acham que esse problema é um problema dos índios com o governo. E não entenderam ainda que o estado brasileiro está sendo assaltado, a vida política do país está sendo dissolvida e os brasileiros ficam assistindo como se fosse um evento extra.
A cada ameaça de golpe o povo indígena está em Brasília.
Até a campanha eleitoral deste ano: as pessoas parecem que estão olhando uma coisa que está acontecendo em outro país. Todos esses jovens de 17 anos, eles deveriam estar assim, mobilizados demais para tirar o título de eleitor. Principalmente nos lugares pobres do nosso país, nos segmentos mais pobres, mais excluídos, as favelas, as quebradas.
Todo mundo tinha que se armar com o título de eleitor e dar um basta, do ponto de vista eleitoral, tão redundante, que não deixasse dúvida a essa direita ignorante de que ela está errada. A gente tinha que tentar fazer isso pela via do que chamam de democracia, para a gente testar nossa capacidade de mobilização.
Vamos ver se nós somos capazes de fazer isso dentro do sistema de representação política que eles acham válido, mas que muitos deles, na maior cara de pau, tentam desmerecer, tentam sacanear, tentam inventar alguma desculpa, tipo [fraudes na] urna eletrônica, ou qualquer outro papo furado. Isso é tudo golpismo, à semelhança dos Estados Unidos, onde o Trump tentou de toda maneira invalidar a eleição. Tem que ser uma votação tão unânime que não dê chance para ninguém vir com conversa fiada.
O plano e a estratégia já estão montados pelo governo federal. Resta à população brasileira demonstrar força para tentar enfraquecê-lo…
Então, mas é admirável que uma coisa tão simples quanto tirar o título de eleitor, pela unanimidade da juventude, e se fazer presente na eleição... É um gesto totalmente civil. Tipo ir à escola. Qual o problema? Por que esses caras todos não tiram os seus títulos de eleitor?
Foi publicada uma pesquisa recente dizendo que só 27% da meninada que está nessa idade é que se mobilizou para tirar o título de eleitor. Cadê os outros 70% deles, que deveriam tirar o título de eleitor? Será que estão achando que está bom? Está bom jovem negro correr na calçada e levar tiro nas costas da Polícia, porque acha que preto correndo na calçada é bandido?
Quando é que essa juventude vai se tocar que os próximos da fila são eles mesmos? A gente sabe que a exclusão incide sobre os não brancos. Se a gente não quiser dar nome aos pretos, aos pardos, aos índios, então vamos dizer: “a exclusão no Brasil se dá em cima de não brancos”. E o que os que não são brancos estão fazendo? Fingindo que não é com eles?
Vão esperar piorar muito mais, a gente virar um Haiti? Eu fico indignado. Eu vi, o [Gilberto] Gil; o Lenine gravou uma chamada para os jovens dizendo: “tira o seu título de eleitor”. Mas eu acho absurdo a gente ter que fazer uma campanha para o cara assumir um direito dele, que é o direito de ser cidadão. Será que a gente banalizou tanto a vida pública no Brasil que a rapaziada acha que nem vale a pena tirar o título de eleitor?
Tem um projeto na Câmara, que teve seu trâmite acelerado pelo presidente Arthur Lira (PP-AL), que coloca em votação nos próximos dias o projeto de liberação do garimpo para indígenas. Uma fachada para abertura geral e irrestrita do garimpo em terras indígenas. Como essas lideranças que estão apoiando esse projeto foram cooptadas pelo bolsonarismo?
Eu não sei se eles foram cooptados pelo bolsonarismo. Quem não conhece a história doméstica do povo indígena, é preciso entender o seguinte: no último censo se reconheceu que tem 305 etnias nesse país. Vamos considerar que mais ou menos mais da metade dessas etnias estão no que a gente chama de Amazônia Legal.
A Amazônia, que pega desde o Maranhão até o Mato Grosso. Não é só lá no Amazonas, como as pessoas imaginam. Porque esses analfabetos nacionais que vivem no sudeste, quando você fala Amazônia, eles pensam que é um conjunto de florestas que tem ali às margens do Rio Amazonas e do Tapajós e pronto. Quem sabe, o Xingu.
São analfabetos do ponto de vista político, não conhecem o país em que vivem, porque senão, iam entender que há uma imensa região chamada Amazônia Legal, que agora estão tentando inclusive, dar um golpe, tirar o Mato Grosso da Amazônia Legal.
[A Amazônia Legal] foi instituída lá na Ditadura para facilitar financiamento do Banco Mundial, para programas de colonização da Amazônia. Então todo mundo queria estar na Amazônia para pegar uma grana. Foi assim que Goiás virou Amazônia, o Maranhão virou Amazônia, porque era um jeito de estar dentro do programão do Banco Mundial, Sudene, Sudam, incentivos fiscais, toda essa pilantragem que levou muita gente do sul a ocupar a região amazônica, com projetos que nunca foram para lugar nenhum, mas que encheram os bolsos de muita gente.
A Europa tem lá algum lugar para garimpar? Não, ela garimpa aqui.
O povo indígena passou por essa moagem nos últimos. Vamos considerar que nos últimos 60 anos. Na Constituinte, quando eu estava lá defendendo o capítulo dos índios, lá fora tinha um lobby indígena brigando comigo, porque eles já queriam que deixasse pelo menos uma licença dizendo que na terra indígena os índios podiam garimpar. Isso lá na Constituinte.
Eu participava de debates com essas pessoas para convencer de que era uma roubada. Eu dizia para eles: "não tem jeito de você fazer um garimpo circunscrito a um igarapé, a uma aldeinha. A hora que descobrirem que lá dentro tem ouro, você vai ser invadido". A gente não tem uma política do Estado brasileiro de real proteção a esses territórios, assim como a gente não tem proteção das unidades de conservação, dos parques nacionais.
Se você liberar atividade garimpeira em unidades de conservação e terras indígenas, que é o que está proposto agora, é uma invasão geral de tudo. Onde tiver minério esses caras vão entrar.
O contraditório que está aparecendo agora e que muita gente não percebe é que as grandes empresas mineradoras não querem que se aprove esse garimpo, por que esse garimpo contraria a hegemonia, o controle que têm as grandes mineradoras, como a Vale do Rio Doce, por exemplo, as outras grandes mineradoras canadenses, australianas, que têm base aqui no Brasil. A Europa tem lá algum lugar para garimpar? Não, ela garimpa aqui.
Então, quando a gente aprovou aquele princípio geral da Constituição, a gente estava contrariando não só o lobby do centrão, a Paranapanema, a Vale do Rio Doce, toda essa pilantragem, a gente também estava contrariando alguns indígenas que queriam ter garimpo. Eles ficaram contidos nos últimos 30 anos.
Agora, eles entraram na forra porque eles viram o Mourão, com aquela conversa fiada dele, dizendo que ele também é índio, que ele quer garimpar: “mim também é garimpeiro”. Inventaram essa malandragem e não dá pra você falar que houve uma cooptação. Não tem jeito de você cooptar quem já tá no baile.
O projeto desenvolvimentista e neodesenvolvimentista brasileiro vem desde os anos 1930 e sempre teve algumas vítimas em comum: os indígenas, os povos ribeirinhos, os povos das florestas e os quilombolas. O senhor costuma escrever bastante sobre o tema do desenvolvimentismo brasileiro. Há saídas para esse desenvolvimentismo do país ser sustentável e que não seja, por exemplo, calcado no consumo desenfreado que marcou os nossos últimos anos?
O que acontece é que, do século 20 para o século 21, houve um evento chamado globalização. E dentro da globalização, o professor Milton Santos já avisava isso, deixa de existir a singularidade das economias, as escolhas. Ninguém escolhe mais nada, nem a China, nem Uganda.
Nós somos uma plataforma planetária, onde o sistema financeiro global atua de maneira livre. Não existem mais estados nacionais, isso é uma balela. A China está construindo uma infraestrutura no litoral da Bahia, na costa da Bahia, que vai botar um dedo ali e vai sugar o que tiver de interesse da China. E não precisa vir cá, a China não precisa vir para o Brasil, ela leva o Brasil para a China.
A gente pode inventar uns programas legais assim, tipo, você quer ir para China? Daqui a pouco eles vão dar passaporte livre, você pode sair diretamente do Pelourinho para Hong Kong. A gente ainda está no século 20 pensando o mundo no século 21.
Eles acham que crescer a economia é desenvolver. Isso não tem nada a ver com desenvolver.
O que acontece é que as economias não têm mais escolhas se elas vão se desenvolver ou não. A Holanda abriu uma discussão há dois anos, no meio da pandemia, porque houve uma reformatação da vida política lá, e eles disseram que não queriam mais avançar no sentido do desenvolvimento econômico. Eles queriam fazer um envolvimento.
A ministra deles anunciou que agora eles estavam interessados no envolvimento, quer dizer, se envolver com a questão climática, se envolver com a questão ambiental, se envolver com a questão da qualidade da vida em vez de continuar aumentando o PIB. Mas os países nanicos são fascinados por crescimento.
Eles acham que crescer a economia é desenvolver. Isso não tem nada a ver com desenvolver. Inclusive porque você cria muita pobreza nos países subdesenvolvidos. Todo o esforço de crescimento deixa para trás um rastro de miséria e destruição que, no caso daqui do Brasil, ficou registrado num livro magnífico que está esquecido nas prateleiras, que tem o título de “O Milagre Brasileiro”, escrito por um cara chamado Shelton Davis, um cara que era consultor do Banco Mundial, que veio para o Brasil para supervisionar os financiamentos do Banco na abertura da Transamazônica e outros babados.
Ele percebeu como o milagre brasileiro produzia miséria. É mais ou menos como uma máquina de moer coisas, ela vai jogando um produto processado de um lado e jogando o resto no fundo que ninguém vê. O fundo que ninguém vê é a pobreza assustadora que cresceu tanto que a gente não consegue sair dessa.
Edição: Felipe Mendes
FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2022/04/12/krenak-todo-mundo-deve-se-armar-com-titulo-de-eleitor-e-dar-um-basta-nessa-direita-ignorante
"Somos microcosmos do organismo Terra", lembra Ailton Krenak em seu ativismo socioambiental e indígena
Mineiro de Itabirinha, o líder indígena, ambientalista e pensador Ailton Krenak segue seu ativismo no campo socioambiental, defendendo os direitos indígenas. Organizou a Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia, é Doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e já escreveu alguns livros, entre eles O Amanhã Não Está à Venda, Ideias para Adiar o Fim do Mundo e A vida não é útil. Em todos eles, o seu tom é de alerta para a destruição do planeta.
Além de defensor contumaz dos direitos indígenas, Ailton Krenak tornou-se uma um crítico implacável da sociedade de consumo e da cultura do descarte. No programa, ele aborda esses temas, ao som de canções do Clube da Esquina (Para Lennon e Mcartney e Paisagem da Janela) e de Owerá (Xondaro Ka'aguy Reguá).
OBS: PODCAST NA PÁGINA ORIGINAL:
FONTE: https://www.camara.leg.br/radio/programas/865855-somos-microcosmos-do-organismo-terra-lembra-ailton-krenak-em-seu-ativismo-socioambiental-e-indigena/
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Projeto literário traz Viviane Mosé, Carpinejar e Ailton Krenak a Fortaleza
Leia mais em: https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/04/03/projeto-literario-traz-viviane-mose-carpinejar-e-ailton-krenak-a-fortaleza.html ©2022 Todos os direitos são reservados ao Portal O POVO, conforme a Lei nº 9.610/98. A publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia são proibidas
Resumo da matéria:
Projeto Literário Diálogos Contemporâneos fará uma série de conversas com autores brasileiros entre os meses de abril e maio deste ano. Os eventos acontecerão presencialmente no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, a partir de 18/04/22
A participação de Ailton Krenak terá como tema “A cultura do descarte: sociedade de consumo, meio ambiente e o futuro da humanidade”
FONTE: https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/04/03/projeto-literario-traz-viviane-mose-carpinejar-e-ailton-krenak-a-fortaleza.html
sexta-feira, 1 de abril de 2022
Direitos indígenas e a exploração de recursos no Brasil
Seg, 28 de Março de 2022 16:10
Beatriz Herminio
Ailton Krenak. Imagem editada e redimensionada de Produção Cultural no Brasil em Wikimedia Commons, sob a licença CC BY-SA 2.0
Para Artionka Capiberibe, estamos vivendo uma tempestade perfeita no país
Por Beatriz Herminio em IEA – No dia 9 de março, a Câmara dos Deputados aprovou a urgência na tramitação do projeto de lei (PL) 191/2020, que regulamenta a garimpagem em terras indígenas e a exploração de recursos hídricos e de hidrocarbonetos, como o petróleo, nesses territórios. Para Artionka Capiberibe, antropóloga e professora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o projeto é consequência de uma mentalidade colonialista, um atributo que não é exclusivo do atual governo, mas de uma política de Estado que se consolidou no Brasil.
Capiberibe participou do evento “A situação indígena e o meio ambiente no Brasil“, que debateu os direitos indígenas no país e o modelo de desenvolvimento que explora recursos ambientais e humanos. O encontro aconteceu no dia 17 de março e foi organizado pela Cátedra Otavio Frias Filho de Estudos em Comunicação, Democracia e Diversidade.
Campo de batalha
Na exposição “A máquina de guerra anti-indígena e o presente/passado colonialista do Brasil”, Capiberibe falou dos instrumentos jurídicos que cercam as terras indígenas, os motivos pelos quais há uma disputa em torno desses territórios e como eles se tornaram um “campo de batalha”.
Estamos vivendo uma espécie de “tempestade perfeita” no país, segundo a professora. Ela explicou que isso acontece quando uma situação desfavorável é agravada por uma “inesperada combinação de circunstâncias”, sendo então transformada em uma catástrofe.
Como exemplo de uma situação desfavorável, citou o ataque aos direitos indígenas em governos democráticos que ocorre desde a promulgação da Constituição de 1988 e que se intensifica com a sucessão de governos federais. Essa situação atinge uma temperatura alta nos governos de Dilma Rousseff. “Isso se deu, por um lado, por conta da política desenvolvimentista que Rousseff herdou dos governos Lula, mas que é também a marca do seu próprio governo. A construção da hidrelétrica de Belo Monte é o símbolo mais expressivo disso. Por outro lado, a temperatura se eleva pelo fortalecimento das bancadas setoriais no Congresso em torno do agronegócio e da mineração.”
Tal situação desfavorável foi agravada pela eleição, em 2018, do atual “presidente anti-indígena” Jair Bolsonaro, segundo Capiberibe. A catástrofe, por fim, seria o que se testemunha atualmente, como “o aumento do desmatamento, a invasão de terras indígenas e de Unidades de Conservação (UCs), a violência no campo, a poluição dos rios, o descaso com a saúde indígena e a fragilização da proteção dos territórios de indígenas em situação de isolamento voluntário”.
Na construção da Constituição de 1988, o capítulo intitulado “Dos índios” comporta os artigos 231, que reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e o direito originário às terras que ocupam; e o 232, que outorga aos povos indígenas o direito a defender em juízo seus direitos e interesses.
“A garantia da terra e a garantia da autodeterminação que resultam desse capítulo são fundamentais para a existência de um futuro em que os povos indígenas estejam presentes, e são os aspectos que estão no centro dos ataques contra os direitos indígenas”, afirmou Capiberibe. Para ela, esses ataques são movidos por uma concepção de mundo que não enxerga modos de existência que não se adequem a uma exploração do planeta cujo objetivo é transformar a natureza e a força de trabalho humano em recursos monetários.
“O novo ensinar os indígenas a lavrar, plantar, colher e trabalhar é fazer deles mão-de-obra para o agronegócio e resolver o problema da exploração do minério em suas terras”, disse. Sobre o regime de urgência para a tramitação do PL 191, ela acredita que sua aprovação é oportunista, porque foi fundamentada na guerra entre a Rússia e Ucrânia e em um possível desabastecimento de fertilizantes importados do leste europeu. Essa justificativa para explorar as terras indígenas seria um exemplo de “alternativa infernal”, afirmou, em referência à frase da filósofa belga Isabelle Stenger, que diz que “o capitalismo oferece alternativas infernais”.
Segundo a professora, projetos de lei e portarias são criados a todo momento para fazer parte do arsenal de guerra mantido contra os povos indígenas. “A luta para mudar esse cenário parece ter de ser travada na arena política, transformando a representação da população no Legislativo e no Executivo e tornando o Judiciário mais transparente.”
Estado colonial brasileiro
“O Brasil tenta matar o povo indígena há muito tempo, a gente não precisa ter muita delicadeza no trato dessa questão.” Para Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor, o Estado brasileiro poderia receber um diploma de incompetente na questão do genocídio. Ele acredita que o Estado colonial ainda não foi derrubado.
Exemplos para comprovar sua tese é o que foi feito durante as obras de construção da rodovia Transamazônica nos anos 1970, com impactos sobre o povo waimiri atroari, e ao final da década de 1960, durante o endurecimento da junta militar. Segundo ele, na época, foi autorizado à polícia militar de Minas Gerais treinar indígenas dentro da estrutura policial e colocá-los para atuar na experiência de repressão nas aldeias. “Isso não é uma história do século 19, é a história do século 20”, declarou Krenak.
Para ele, se queremos ter uma ordem social, esta deve nascer da realidade contemporânea, “não pode ser desse Estado colonial arcaico, servilista, submisso, totalmente subordinado a uma razão e a uma lógica colonial”, completou. Ele afirmou que no Chile, o Estado tentou aniquilar o povo Mapuche. Hoje, há uma mulher (Elisa Loncón) desse povo liderando o debate em uma constituição plurinacional que põe em questão o Estado colonial chileno herdado dos colonizadores. Por isso, Krenak promoveu a ideia de “devorar” o Estado colonial, à semelhança do movimento antropofágico, e fundar um Estado a partir da perspectiva de povos plurais.
Ele acredita que, ao pensar os direitos indígenas em conjunto com a crise ambiental, quase fazemos o “jogo colonial”. Segundo Krenak, os direitos indígenas não têm nada a ver com crise ambiental, porque estão inseridos em um Estado que não permite que modos próprios de habitar esse território se expressem, do contrário, sequer chamaríamos os territórios de “meio” ambiente. Nesse sentido, ele também enxerga que a criação de áreas conservadas é feita de acordo com uma gestão financeira da natureza, como um almoxarifado de recursos para serem utilizados no futuro.
O não-lugar
Um estereótipo que permanece até hoje para os indígenas no território brasileiro é o do “não-lugar”. Originado a partir da política do século 20 de “integração à comunhão nacional”, fortemente alavancada no período da ditadura, o termo indica que para ser indigena é necessário viver no meio da floresta e da selva, não usar roupas, não ter celular, etc., afirmou Capiberibe. As palavras do ex-ministro da Justiça Torquato Jardim, em reunião com lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul (MS) em 2017, demonstram o recorrente afastamento dos indígenas para o “não-lugar”. “Integração”, para ele, significa inserir indígenas no mercado de trabalho “para serem parte do século 21”.
No Estatuto dos Índios, os indígenas são considerados isolados, integrados ou em vias de integração – um eufemismo para “em vias de dependência”, disse a antropóloga, pois, de acordo com a lei, nesse estágio eles vão necessitando cada vez mais das “práticas e modos de existência comuns aos demais setores da comunhão nacional”. A ideia imposta no estatuto é de que, quando integrados, os indígenas são liberados da tutela do Estado. Para Capiberibe, essa emancipação é uma tentativa de desobrigar o Estado a garantir os direitos indígenas.
Muniz Sodré, titular da cátedra e debatedor do evento, afirmou que ainda há uma colonização interna com projetos genocidas para aqueles a quem foi destinado o não-lugar, os quais Sodré chamou de “ex-territoriais”. “Aqueles que originalmente não têm livros nem edifícios e não puderam, por isso, ser pensados pela esquerda nacional.”
O evento teve moderação de André Chaves de Melo Silva, coordenador acadêmico da Cátedra Otavio Frias Filho, e de Vinicius Mota, secretário de redação da Folha de S.Paulo. O professor e diretor do IEA Guilherme Ary Plonski participou da abertura do evento.
FONTE: https://www.ecycle.com.br/direitos-indigenas-e-a-exploracao-de-recursos-no-brasil/
terça-feira, 15 de março de 2022
Pandemônio na arte
A partir das implicações políticas em seu entorno imediato e da amplificação do abismo social, artistas produzem a primeira leva da arte na pandemia
Juliana MonachesiPUBLICADO EM: 03/03/2022
Março de 2020. Todas as exposições estão fechadas para o público. Todas as exposições que se seguiriam às que estavam em cartaz são adiadas por tempo indeterminado. Abriel de 2020. Editoras disponibilizam livros na íntegra para download gratuito em seus sites. A n-1 Edições publica quase diariamente artigos e ensaios sobre o momento presente sob a rubrica Pandemia Crítica. Ailton Krenak lança O Amanhã Não Está à Venda, livro em que afirma: “Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromissos, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado. O futuro é aqui e agora, pode não haver o ano que vem”. O músico Travis Scott faz show no Fortnite, com público de 14 milhões, devidamente aferido pela Epic Games.
Maio de 2020. Exposições que se seguiriam às que deveriam ter entrado em cartaz são canceladas definitivamente. Explodem as viewing rooms para realização de mostras on-line. Surgem as primeiras críticas aos VRs e à compulsiva produção de visibilidade no mundo da arte. Brasil é capa do NYT com fotografia de cemitério de covas rasas feito às pressas na Amazônia. George Floyd é assassinado por um policial branco em Minneapolis.
Três meses depois da eclosão da pandemia, grande parte da população mundial tinha duas certezas: isso não vai terminar tão cedo e as catástrofes ambientais e cataclismos sociais anteriores à pandemia só vão piorar. Mais três meses de incertezas se seguiriam até umas poucas exposições reabrirem e os espaços de arte, operando segundo protocolos normalizados em tempo recorde, voltarem a funcionar de forma intermitente, abrindo e fechando de acordo com os índices de contaminação e número de mortes em cada estado. O mundo em alerta, a vida em suspensão, e o que os artistas fizeram nesse semestre “perdido”? O que fariam a seguir, ao menos aqueles que tinham condições de seguir trabalhando? Algumas pistas surgiam em plataformas menos assertivas do que as de VRs ou feiras on-line, focadas exclusivamente em vendas.
Assemblages pandêmicos
Jac Leirner começa a postar algumas esculturas bem-humoradas em sua conta de Instagram. Feitas com os materiais que a artista tinha à mão (o que, aliás, sempre fora seu modus operandi), as assemblages pandêmicas guardavam características antropomórficas, traço pouco comum em construções pregressas. Hoje, olhando com algum “recuo histórico”, Leirner afirma que, “no que concerne ao trabalho”, aquele primeiro semestre “foi um tempo de realização do que já estava encaminhado, na fila, 1a espera de vir a ser. Liberei o free style relativo às coisas todas e quaisquer em um fazer sem-fim. Também cuidei dos espaços onde o trabalho acontece, da fundação aos acabamentos”.
No perfil de Instagram de outro artista brasileiro, este radicado em Londres, também uma série de composições antropomórficas desponta: Alexandre da Cunha posta uma imagem de duas pequenas tigelas emborcadas em panelas, com uma pera entre elas fazendo as vezes de nariz, batatas formando o rosto e uma banana smiley arrematando o retrato cheio de humor e leveza. “Quarentena smiles”, alguém comenta. Outros arranjos se seguem até um post em que um coador com borra de café e dois cogumelos bastam para figurar o mood do momento. Um artista deixa nos comentários a observação: “O grito!” Pergunto também a ele sobre a experiência do início da pandemia: “O início da pandemia nos trouxe um material mágico e simbólico muito potente e, de certa forma, até estimulante, onde todo mundo, de repente, teve de se juntar ao mesmo tempo em torno da ideia da morte. As distrações que sempre nos nutriram e amortecem nossa relação mais essencial com a vida (e com a morte) pararam de forma abrupta, e isso gerou muito desequilíbrio”, pondera Alexandre da Cunha.
A fase seguinte – que, para Da Cunha, é a que estamos vivendo agora – “enfatiza as questões políticas, sociais e éticas e todas as suas discrepâncias no âmbito do coletivo. Individualmente, estamos meio perdidos, solitários, sem muitos acessos para nos conectar de fato com o mundo subjetivo. Mas, como artista, me sinto privilegiado, pois meu trabalho me permite esse acesso, e isso tem sido muito restaurador”. Para Jac Leirner, “o trabalho é fruto de todas as experiências. E, nesse sentido, sim, ele resultou também desse tempo estranho e impositivo”.
Reprodução da vida
Marepe, como Jac Leirner, trabalha sempre e por princípio estático com objetos mundanos, porém estreitou seus laços profundamente com o espaço doméstico durante a pandemia. Ventilaflores (2020) é um dos resultados da experiência do isolamento, assim como a maior parte das obras que o artista baiano apresentou na mostra-solo Aglomerado Mergulho (2021), na sua galeria em São Paulo, a Luisa Strina, no primeiro semestre.
Ao se voltar aos afazeres domésticos que não eram parte de suas preocupações, porque antes tinha ajuda em casa, o artista conta que conheceu um novo lugar. Como se o campo da “reprodução da vida”, para falar com Silvia Federici, das ações historicamente esperadas das mulheres (o oposto disso sendo a “produção”, o trabalho remunerado dos homens), invadindo o cotidiano, transmutasse a casa em sujeito histórico, que indaga a sensibilidade artística sobre um fazer invisível que sustenta o mundo.
Arapuca dos dias
Diego Rimaos também fez seu mergulho no ano e meio em que parte do mundo viveu em pausa. Afeito aos trabalhos de pequenas dimensões e extrema delicadeza, o artista mineiro radicado em São Paulo conta que, com o passar dos dias, viu-se interessado mais e mais em questões do seu mundo interior, como numa autoanálise silenciosa.
Seus projetos abstratos começaram a dar lugar a figurações de um mundo onírico, que espelham a interioridade e geram empatia por causa da experiência compartilhada, como o calendário de 2020 separado do pequeno refúgio feito de madeira, bambu, lã e papel por uma escada instransponível: refugiados em nossas bolhas, 2020 se esvaiu no ar.
A inteligência da natureza
Urs Fischer, conhecido pelas réplicas monumentais de esculturas clássicas em parafina que vão derretendo ao longo de suas exposições, voltou-se para dentro (de si, do ateliê, da casa) durante o isolamento. Lançou a série CHAOS, em abril de 2021, NFTs que consistem na animação de dois objetos mundanos escaneados digitalmente e acoplados um ao outro, num movimento contínuo que mostra a interação entre uma esponja e uma couve-flor, ou entre um hot-dog e um controle remoto, com destaque para a simbiose telúrica entre um abacate e uma pequena vela em forma de Vênus de Willendorf.
Apesar do conte do gritantemente advindo de um convívio cerrado com as coisas da casa, o artista suíço não estabelece uma relação direta entre a série e a pandemia: “O conceito original de usar uma abundância de itens de tipo ‘cotidiano’ em algum formato começou muito antes do lockdown, então eu não diria que foi excessivamente informado pela pandemia”, afirma em entrevista à seLecT por e-mail.
Dois meses depois do lançamento dos NFTs, Fischer realizou em sua galeria, em Londres, a Sadie Coles, uma exposição de pinturas que representam a vista do jardim de seu ateliê, de dentro para fora, mostrando um detalhe de poltrona, fiações, uma pia, uma cadeira. Resultado da pandemia, como são apresentadas no texto de divulgação da mostra, as obras expressam a solidão da casa e do jardim, uma observação dos fluxos e padrões da natureza, e refletem um aumento do tempo passado em casa. “Situados em três fases distintas, os fundos fotográficos dessas novas pinturas vêm de trás fontes diferentes: o exterior da casa e do jardim do artista em Los Angeles; os espaços interiores de casa e estúdio; e instantâneos de um rolo de filme descoberto recentemente
na casa da infância”, lemos na apresentação da expo The Intelligence of Nature.
O segundo ano
Natureza e interiores domésticos povoam a “arte da pandemia”, se é que já se pode falar nesses termos. Para o historiador Rafael Domingues, “talvez a gente precise de um pouco mais de futuro para poder ver em perspectiva”, afirma, em resposta à seLecT durante a última mesa do Seminário do 72o Salão de Abril, em setembro deste ano. Mais longevo e cobiçado evento do calendário de salões nacionais de arte, a mostra cearense deste ano recebeu um número considerável de inscrições que continham obras impregnadas de representações e reflexões sobre o impacto da Covid-19. A atualidade vem sendo marcada por uma suposta volta ao “normal”, com um calendário de exposições que se reorganizou, muitos eventos de arte previstos para 2020 podendo acontecer somente um ano depois.
“A pandemia, enquanto experiência social e individual, foi bastante evidenciada nos trabalhos dos artistas, tanto no conjunto dos inscritos quanto entre aqueles que a gente selecionou”, afirma Luciara Ribeiro, uma das curadoras do Salão de Abril deste ano, em entrevista à seLecT. O escopo de inscritos num evento desse porte funciona como uma amostragem importante para calibrar a percepção da arte atual, sobretudo de artistas mais jovens.
Entre os trabalhos expostos, são emblemáticos os desenhos de Diego de Santos, intitulados Fantasma Hereditário, da série Trilogia Fantasma (2021), feitos sobre as folhas da carteira de trabalho da mãe do artista. “Durante a pandemia, estávamos em casa e, mexendo em coisas guardadas há tempos, encontramos esse documento sem qualquer registro. Decidimos que guardar esse objeto era inútil; tratava-se apenas de papel velho juntando traça”, comentou o artista no seminário do salão. Sobre as folhas soltas da carteira de trabalho, Santos desenhou conchas, que carregam a simbologia da morada, mas também aludem ao termo em inglês shell company, que significa empresa fantasma. “O trabalho de arte em geral envolve um grande investimento com possibilidades muito remotas de retorno financeiro; não existe qualquer tipo de registro formal da atuação de um artista profissional, o que faz pensar em outras ausências, silenciamentos e apagamentos”, conclui.
Luciara Ribeiro relata que ficou bastante tocada pela escolha da carteira de trabalho como suporte para o desenho. “Diego traz uma reflexão sobre esse símbolo – ou você tem esse documento assinado ou não tem –, o que se estende a um aspecto de valorização da sua própria existência dentro da sociedade. Por outro lado, esse documento tem sido apagado, porque existe a carteira digital e também pelas próprias possibilidades de trabalho, cada vez menos aliadas a esse documento, como processo de perda de direitos, o que coloca também uma questão estrutural e histórica, do quanto ainda temos de reparar dentro das políticas públicas sociais e de equidade. Suas obras trazem politização para o campo das artes. A política do olhar e do fazer tem se sobressaído mais, porque não tem como vivenciar a política de retrocessos hoje no Brasil sem nos posicionar.”
Oxigênio (2021), obra da Fernanda Siebra exposta no Salão de Abril, é composta de imagens térmicas produzidas a partir do contato de álcool em concentração de 70% com papel de cupons fiscais. “Assim como o exercício respiratório, o oxigênio propõe pensar sobre o direito à vida que nos vem sendo negado e denunciar a crise sanitária e econômica que atravessa o país”, afirma a artista. Os desenhos surgiram por acaso, da experiência de receber uma compra entregue em casa durante o isolamento e, depois de higienizar as mãos, tocar no cupom fiscal e observar o efeito do contato. Siebra então desenhou bustos, covas, pulmões sobre a coleção de recibos. Para Luciara Ribeiro, a artista constrói “uma espécie de diário pandêmico, propondo uma reflexão sobre quem fica dentro de casa, recebendo aquilo de que precisa para sobreviver e quem está na rua, se arriscando, podendo se contaminar. Os recibos mostram aquilo que ela consumiu durante o período, por isso se torna também um diário, assim como a carteira de trabalho se torna um registro da história de alguém e pode ser usado como um controle. E a artista desenha com o álcool 70%, justamente esse elemento que se tornou de uso cotidiano por causa da pandemia”.
Apesar de tudo
Da mesma natureza de problemáticas que se acentuaram com a pandemia, mas sempre estiveram presentes, é a temática da exposição que a curadora Julia Lima realizou em julho e agosto deste ano na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo. A obra que estampa o convite de Ministério da Solidão, da artista Clarice Cunha, funciona como imagem-síntese da experiência pandêmica. Uma mala de viagem de couro, aparentando desgaste, cheia de tacos de madeira, que aludem ao passado desenvolvimentista e modernizador do Brasil dos anos 1950, encerra uma visão melancólica de uma viagem malsucedida, da qual restou a ruína do projeto da arquitetura brasileira do período. “Por sua gama de cores vivas e soluções alegres, os revestimentos foram elementos marcantes dessa arquitetura. Com o gesto de escolher malas como recipientes desses revestimentos, convido à reflexão sobre a importância do imaginário na preservação dos patrimônios no Brasil”, escreve Clarice Cunha sobre Presente #1 (2019) em post no Instagram divulgando a exposição, texto que termina com a frase: “Feliz em colaborar com este projeto e ser uma artista brasileira, apesar de tudo”.
A curadora conta à seLecT que o projeto da mostra é anterior à pandemia, mas que ganhou contornos de profecia autorrealizável, quando, depois de mudanças de local e também de data, finalmente abriu no espaço do Bom Retiro. “A obra relacional de Anna Costa Silva, por exemplo, em que a artista oferece companhia a quem necessite, começou em 2016 e reunia experiências tão diversas quanto o pedido de um participante para que Anna o acompanhasse na fila do Detran.” Com a eclosão da pandemia, o trabalho Ofereço Companhia (2016) seguiu sendo realizado de forma remota.
“Existe obra mais profética do que Protetor de Proximidade Humana (2018), de Renan Marcondes?”, pergunta Julia Lima. “São dispositivos para ações que o artista desenvolve de modo que dois performers possam dançar valsa juntos, mantendo exatamente 1 metro de distância entre eles.” “O Ministério da Solidão reúne artistas que lidam com esse domínio do afeto diante das ansiedades e melancolias que se impõem coletivamente”, escreve Lima no texto da mostra. “São afirmações da resistência, tanto quanto são defesas incondicionais do desejo de estar junto, do encontro, são respostas às tensões e aos colapsos que temos experimentado crescentemente nos últimos anos, agravadas cada vez mais por uma descida vertiginosa ao abismo. Ainda que muito diferentes entre si, os trabalhos se ancoram e se aterram tanto numa poderosa crença nos gestos íntimos de disrupção, assim como em movimentos coletivos de combate.”
Mães ocultas
A série que Daniela Torrente apresentou este ano no Museu da Imagem e do Som, dentro no programa Nova Fotografia 2020, tem como disparador uma prática de retratistas da era vitoriana que, para conseguir fotografar uma criança, precisavam que a mãe (coberta por um tecido) acalmasse a retratada, aguardando a longa exposição diante do obturador. O dispositivo da foto hidden mother (mãe oculta), deslocado para o século 21, ganha contornos políticos, chamando a atenção para o apagamento da mulher no processo (não remunerado) de reprodução da vida, cuidando da casa e dos filhos. Somando à recontextualização o fator, desconhecido pela artista no momento da produção dos retratos atuais, da vida pandêmica, em que justamente a esfera da vida foi doméstica tornou vítimas de volência muitas mulheres isoladas sob o mesmo teto de seus agressores, Sombra de Vitória (2020) torna-se um retrato pungente do mundo hoje. A expressão de tranquilidade e segurança das crianças no colo das mães faz pensar na fortaleza que são as mulheres, contra todas as adversidades, assim como no mistério arcaico desse amor indizível. Mas a série também alude, por outra infeliz coincidência dos tempos, às afegãs vivendo sob o jugo do Taleban.
Mapa relacional
A preocupação com a violência doméstica foi uma das razões que mobilizaram Gabriela Noujaim a criar, muito provavelmente, uma das imagens mais contundentes da pandemia: a máscara que leva o mapa da América Latina serigrafado em vermelho para o rosto de mulheres de diferentes locais do Brasil, que se engajaram na troca com a artista carioca. Gabriela enviava a serigrafia e recebia de volta selfies das participantes usando a máscara em seus locais de trabalho. O que não estava previsto é que, nas trocas, a artista receberia também testemunhos das mulheres sobre as dificuldades que estavam passando. “A maioria dos relatos mencionava ameaças e agressões, mas chegaram também histórias de superação durante a pandemia”, conta em entrevista à seLecT. As fotografias e as histórias tornaram-se um livro de artista, intitulado
Latinamerica 2020, exposto pela primeira vez este ano na Galeria Simone Cadinelli, no Rio de Janeiro. No segundo semestre, em mostra-solo no Museu Nacional da República, em Brasília, Noujaim distribuiu algumas serigrafias entre artistas da cidade, e o símbolo foi parar em manifestação em frente ao Ministério da Saúde. “O trabalho é relacional e vai ganhando seu fluxo."
FONTE: https://www.select.art.br/pandemonio-na-arte/
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