quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Expedição do Redescobrimento


Com malas nas mãos e muitas idéias na cabeça, os coordenadores dos pólos regionais da Expedição do Redescobrimento deixaram São Paulo no dia 6 de setembro, depois de 4 dias intensos de capacitação no Museu da Pessoa. A Expedição do Redescobrimento finalmente começou e nossos expedicionários estão extremamente empenhados nesta ação, prontos para descobrir muitos tesouros pelo Brasil afora.

A capacitação foi um momento muito importante de reflexão, troca de conhecimento, e vivências. Mais que revisitar o plano de ações proposto, o grupo vivenciou a metodologia de memória oral do Museu da Pessoa e discutiu como essa e outras metodologias poderão ser utilizadas durante os encontros da Expedição.
O grupo pôde praticar as técnicas de gravação de histórias de vida utilizadas pelo Museu da Pessoa com Ailton Krenak, importante líder indígena brasileiro e fundador da Rede de Povos da Floresta. Sua história inspiradora incentivou ainda mais o grupo a realizar este trabalho intenso e gratificante de mapear e conectar as iniciativas de memória brasileiras.

Atualmente os coordenadores dos pólos regionais estão mapeando iniciativas de memória em suas regiões para formação dos pólos, que terão cerca de 11 iniciativas participantes. Caso você tenha interesse em participar dos pólos regionais, escreva para expedicao@bmr.org.br.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

“Ainda estamos sujeitos a todo tipo de roubalheira”


Ailton Krenak, durante entrevista a Sidney Rezende, no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica)
Foto: Daniel Werneck

Ailton Krenak chegou para a entrevista de calça jeans, tênis, celular e agenda na mão. No pescoço e nos pulsos, adereços artesanais. No rosto, uma fisionomia que revela sua origem: a comunidade indígena Krenak, localizada no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Pisando no chão de madeira, no camarim, disse: “Isto é pinho. Mas não é de mata nativa não, ainda bem”. No discurso, quebra de estereótipos e uma fala nitidamente integrada ao mundo: “No Fórum Social Mundial, as pessoas gritavam ‘não à globalização’. É a mesma coisa que dizer ‘não ao efeito estufa’. Do que adianta gritar? O mundo vai voltar a ser bonitinho?”.

Em conversa com o jornalista Sidney Rezende na 5ª edição da Mostra Fica - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, no auditório do Sesc, no Rio de Janeiro, o líder indígena demonstrou estar imerso na cultura dos brancos. A olho nu, Krenak parecia mais um índio de tradições devastadas pela “civilização”. A imagem de homem ingênuo, no entanto, desapareceu no decorrer do debate. Formado em jornalismo e design, o entrevistado mostrou que sua opção por viver em meio ao homem branco sempre esteve ligada à preservação de seus antepassados e ao resgate de sua identidade cultural. Suas ações são apoiadas justamente em recursos da sociedade dita civilizada.

Há um ano, os Krenak entraram com ação no Ministério Público por danos ambientais e morais pelas perdas físicas e culturais que seu povo sofreu durante o século XX, quando grandes empresas insistiam em desbravar suas terras impunemente. “Pedimos indenização, sim. Tudo não é dinheiro? Então vejam aí, na linguagem capitalista, quanto custou o que vocês fizeram”, criticou.

No início do século XX, os Krenak tinham uma população de cinco mil pessoas, número que se reduziu a 600 na década de 1920 e a 130 indivíduos em 1989. Eles viraram o século com cerca de 150 indivíduos. Engajado nas causas políticas em favor dos povos indígenas, ele acredita que o governo ainda tem muito a fazer para proteger essas comunidades. “Até hoje o Brasil não conseguiu disciplinar-se em relação a isso. Ainda estamos sujeitos a todo tipo de roubalheira”, lamentou.

Consciente dos avanços tecnológicos, o líder não repudia sua emancipação, mas acredita que ela pode ser usada de maneira mais inteligente. “A natureza tem capacidade de gerar riquezas para o ser humano, que tem como desenvolver uma relação harmoniosa entre natureza e tecnologia. Não precisava ter transformado rios em esgotos, oceanos em poças de produtos químicos. Não podemos estigmatizar a tecnologia como algo maléfico. O negócio é não instruentalizá-la para algo ruim”, comentou. “Estamos todos avassalados pelo mercado, o mundo é movido por ele. Isso está acabando com as culturas tradicionais.”

Por causa dessa lógica capitalista, ele também questionou a atuação de grupos ambientalistas. “Quem sustenta as ONGs hoje são empresas. Quem paga os secretários de meio ambiente são os empreendedores. Não podemos nos iludir. Eles agem subordinados a isso”, comentou. Krenak revelou que a velha prática de mercado conhecida como escambo (troca de bens) ainda persiste nas comunidades. “Presenteando” os índios com celulares e equipamentos de última geração, madeireiros conseguem agilizar seu comércio ilegal.

Ele reafirmou a teoria de que a “lógica perversa” do mercado está gerando os grandes impactos ambientais na Terra. “O planeta está em convulsão pelo ‘barulho’ que fizemos aqui”, disse, finalizando o papo com a típica visão de quem não mantém uma relação de superioridade com a natureza. “Se o planeta cuspir todos nós, a biodiversidade não vai sentir falta”.

Leia mais sobre o evento no Blog do Sidney Rezende: Indíos e brancos: a modernidade a serviço do crime.

FONTE:www.sidneyrezende.com/blog/index.php?page=6

sábado, 7 de julho de 2007

Taru Andé ganha prêmio internacional
A série Taru Andé - o encontro do céu com a terra, exibida pelo Canal Futura desde novembro de 2006, foi premiada pelo IX Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental - FICA, realizado na cidade de Goiás Velho (GO) entre 12 e 16 de junho.
Taru Andé concorreu com a série austríaca Nature Tech, dirigida por Alfred Vendl e Steve Nicholls, que fala sobre o futuro das tecnologias para a preservação da natureza. A série recebeu um prêmio de 25 mil reais.

O júri do festival foi composto por importantes personalidades do audiovisual e da área ambiental em todo o mundo.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

[histórico] Conversa de Índio de Verdade

Por: Amália Souza
Há exatamente uma década, dois índios, um da América do Sul e outro da América do Norte, se encontraram em Washington DC -- Ailton Krenak, índio Krenak do Vale do Rio Doce, que na ocasião recebia um prêmio de Direitos Humanos, e Thomas Banyachia, o último sobrevivente do Grande Conselhode Anciões do povo Hopi. Por uma felicidade do destino era a minha a voz que traduzia a conversa desses dois visionários de nossos tempos. Gostaria de compartilhar o que aprendi.

Conversavam sobre as ameaças à continuidade da vida na terra como a conhecemos, sobre a direção que tomamos e o que é preciso para reverter esse processo. Suas palavras falavam de preocupação, mas também esperança.


Para entendê-las melhor, antes precisamos começar de uma base comum. A primeira é que sempre que falamos de meio ambiente, apontamos para longe, para um lugar lá fora --o mato, a grama do jardim, o passarinho. Mas quase nunca nos lembramos de apontar para nós mesmos - os seres humanos -- tão parte desse emaranhado, dessa teia interdependente que mantém a vida desse planeta, e tão dependentes dela como qualquer outro animal, ou planta, água, terra, fogo e ar. Somos feitos, todos nós, dos mesmos elementos químicos, em composições e combinações diferentes. E só sobrevivemos por fazer parte desta incrível e sofisticada simbiose. Nunca independentes dela. A segunda é que, por isso, não podemos nos extrair desse ambiente -- não podemos viver sem essa teia. Consumir como consumimos, despedirçar como desperdiçamos só nos leva a um resultado - o colapso desse sistema tão integrado, e ao mesmo tempo tão frágil.

Se revertemos esse processo destruidor em tempo, temos alguma chance de sobreviver com saúde. Se não o revertemos, nossas vidas se tornarão cada vez mais miseráveis. Portanto, a mudança tem que partir de ações individuais que se refletem no coletivo. Como diz Margareth Mea, "Nunca menospreze o poder dos indivíduos de provocar mudanças no mundo. Realmente, é a única coisa até hoje que já foi capaz de fazê-lo."

Com isto, voltamos a nossa estória...

Thomas contava a história de seu povo, e de todos os de pele vermelha, e dava um aviso. Segundo os Hopi, todos os povos de pele vermelha vêm de uma mesma família. Em algum momento, grupos foram incumbidos de viajar, cada um para uma direção, levando consigo um manto sagrado que deveriam enterrar no lugar que escolhessem habitar. Desse lugar não deveriam mais sair, mas protegê-lo com suas vidas.

Segundo a tradição, esses grupos viveriam isolados por milhares de anos. Mas um momento chegaria, um momento importante para o Planeta Terra, um momento de grandes mudanças e de profundas transições, em que eles deveriam unir-se novamente. Quando os pele vermelha começassem a se re-encontrar, seria para cumprir sua máxima missão, de apaziguar a Grande Mãe para que tenha piedade desse pobre povo que causou tanta destruição. "Quando a Terra começar a reagir por todo o mal trato que recebeu, não adianta correr para a ONU", dizia, "só nós, os pele vermelha, sabemos falar sua língua."

Ailton, aquele índio que pintou a cara de preto em sinal de luto por seu povo no Senado Federal durante a constinuinte, falava de responsabilidade de Ser Humano. Dizia: "já não temos tempo para sonhar... por isso já não ouvimos as mensagens da Terra. Mas, se todas as manhãs, nos olharmos no espelho, e nos vestirmos com a responsabilidade de Seres Vivos do Planeta Terra que somos, vamos nos lembrar de tomar as rédeas do nosso futuro novamente. Sobreviver não é o mesmo que viver. O índio [e certamente todo ser que vive neste planeta] quer viver, não sobreviver. Se não temos acesso às nossas terras, a água e ar puros, a comida limpa, não estamos vivendo como merecemos. Vivemos hoje como se tivéssemos uma seringa constantemente chupando nosso sangue, gota a gota. Nos esquecemos que nem sempre as coisas foram assim. Tudo isso é muito recente! Ainda podemos nos lembrar de lugares de água limpa. Ainda podemos nos lembrar do canto dos pássaros, do cheiro de mato."

Não é tarde demais para reverter esse processo, se realmente quisermos. Mas para isso, temos que acordar desse pesadelo, dessa ilusão de consumismo e principalmente de impotência. Nossa autoridade de seres planetários nos investe do poder de dizer "NÃO!". É hora de começar.

A Riqueza e a Herança Cultural Indígena

por Ailton Krenak

Nas nossas tribos, nas nossas aldeias a riqueza é sempre vista como alguma coisa que merece ser partilhada. Sempre que a riqueza for um sinal particular, um sinal de ressaltar a individualidade, ela é condenada. Quando começa a haver riqueza individual tem um instrumento muito bacana que é o seguinte: o povo vai identificando o ponto de aglutinação da riqueza, o ponto de perigo da riqueza. Aí eles vão lá, cercam a casa daquele cara que está começando a expressar sinais de riqueza excessiva, fazem uma festa e bebem e comem tudo o que o cara tem. A festa vai durar enquanto tiver ceroula, uma tanga. Quando terminar a festa aquele cara é o irmãozinho mais humilde, despojado, de toda a tribo. Agora ele vai ser aquele que todo mundo acolhe, dá comida e ajuda, para se reeducar.

Tem uma coisa muito interessante nestas cerimônias todas. Tem um mestre de cerimônia, tem um dono da festa. O que foi expropriado da última festa recebe um bastão e vai ser o dono da próxima festa. Ele que levou a maior blitz social estará ligado ao menor sinal de riqueza que ele observar nos irmãozinhos. Cria-se um eixo de vigilância sobre a riqueza alheia. Esta é uma grande inteligência da tradição.

FONTE: Rede Mundial de Artistas em Aliança
http://www.redemundialdeartistas.org.br/twiki/bin/view/Mural/MuralAiltonKrenak

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Dia de Índio: Por Quê?


Texto de autoria de Adir Casaro Nascimento, professora universitária e consultora ministerial para questões de educação indígena.

Fonte: http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1134

"Por que se comemora a presença do índio em território brasileiro, ou se faz um esforço para que o índio seja lembrado e até exaltado a todo dia 19 de abril se o índio incomoda a tantos cidadãos brasileiros? A sociedade em geral o vê como uma personagem folclórica, de histórias antigas e de alguém que não cresceu e não evoluiu como os outros homens dessa nação; os grupos económicos os vêm como improdutivos, como atraso e impecilho para a realização de projetos desenvolvimentistas e de acúmulo de capital; os governantes sentem grande dificuldade em cumprir os direitos adquiridos, com a Constituição de 1988 e os seus desdobramentos, em especial ao que se refere à demarcação de terra e políticas públicas em educação. Se o índio é mais um problema do que reconhecidamente um cidadão, então por que comemorar?
Essa é aparentemente uma contradição. Aparentemente pois se para os imediatistas o índio é um entrave para os projetores do futuro o índio é, no bom sentido, uma necessidade, uma resposta positiva: uma necessidade político-cultural tendo em vista a sua forma de organização social e seus princípios de convivência com o outro; uma necessidade ecológica já que a sua presença garante a preservação da natureza, a vida da biodversidade e uma necessidade científica pois, dificilmente se conseguirá "capitanear"os conhecimentos produzidos pelas tradições indígenas sem que os mesmos requeiram a autoria e identidade neste processo.
Apesar dessa quase profecia com relação a importância dos povos indígenas na projeção de uma nova sociedade é certo que, quer pela história de longa duração, quer pelas expectativas de futuro o índio não tem muito o que comemorar: nem no "seu" dia e muito menos nos 500 anos, a não ser o fato de ter construído, em um longo processo de resistência que teve nuances e dinâmicas diferentes no decorrer da história de contato, a consciência da própria condição e com isso instrumentalizar-se e serem protagonistas que exigem respeito e até um certo temor no contexto da história atual. O mundo inteiro tem os olhos voltados para os índios da América Latina e notadamente do Brasil.
O Mato Grosso do Sul que tem a segunda maior população indígena aldeada do país tem uma historiografia de indiferença, descaso e expropriação dos seus povos indígenas. A história de constituição do homem sulmatogrossense não considera o índio nessa composição; o desenvolvimento económico do Estado "ignorou" a presença indígena em todo seu território e permitiu o seu confinamento para que os projetos de expansão e extração pudessem ser realizados e, com relação às políticas públicas, o Estado sempre governou, até pelo menos os meados da década de 90 como se aqui não existissem índios. Com relação à educação escolar o Estado vem buscando assumir com responsabilidade e profissionalismo a implantação e melhoria da qualidade das escolas indígenas em parceria com as prefeituras bem como desenvolvendo projeto de capacitação dos professores-índios, com destaque ao Curso de Magistério Específico aos Professores-Índios Guarani/Kaiova que deve habilitar 80 professores . Estes projetos têm contado com a participação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, da Universidade Católica Dom Bosco e da Diocese de Dourados.
Ter um dia para comemorar significa que a sociedade tem consciência da marginalização, da exclusão a que os índios foram e são submetidos. Outrora explicitamente, hoje ideologicamente onde discursos e ações não se encontram e estas significam muito mais um rearranjo, uma outra dimensão de colonização do que possibilidades de autonomia dos povos indígenas. Porém esta mesma história de contato permitiu aos índios usufruir de espaços como estes para revelarem que, como sujeitos históricos, participantes ativos deste processo, eles também aprenderam a se organizar, a se mobilizar e em uma capacidade muito grande de superação usar recursos de sua tradição e aqueles aprendidos dos "brancos" fazerem-se presentes, com dignidade, no seu "dia". Reverteram a história."

quarta-feira, 18 de abril de 2007

[histórico] Edição 2003 do Prêmio Direitos Humanos homenageia FOIRN e Ailton Krenak


O Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/12) reuniu no Palácio do Planalto quase todos os ministros de Estado para a entrega do Prêmio Direitos Humanos 2003. As homenagens foram feitas a personalidades e instituições que se destacaram na defesa dos Direitos Humanos. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e o líder indígena Ailton Krenak ganharam na categoria Comunidades Indígenas.


Criado em 1995 por determinação do Presidente da República, o prêmio Direitos Humanos é uma honraria do Governo Federal concedida a pessoas e instituições cujas ações pelos direitos humanos sejam dignas de reconhecimento e valorização por toda a sociedade brasileira. Em 2003, foram instituídas 12 categorias de premiação, nas quais foram apresentadas centenas de indicações vindas de todo o país.
Comunidades Indígenas

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – Foirn – foi vencedora na categoria Comunidades Indígenas por conta do trabalho que vem desenvolvendo com as comunidades indígenas da região tais como a piscicultura com espécies de peixes nativos, avicultura em sistema semi-aberto, agricultura tradicional, produção e comercialização de artesanato. Além disso, a Foirn foi apresentada como a entidade que apóia mais de 200 professores indígenas da região na realização de assembléias e cursos com o objetivo de promover a educação diferenciada dos povos indígenas. Outro destaque lembrado na cerimônia, sobre o trabalho da Foirn, foi o projeto Cidadania Indígena do Rio Negro, com atuação itinerante, que realiza campanhas para fornecer documentação civil básica e leva orientação sobre direitos às comunidades indígenas.
Ailton Krenak, homenageado como personalidade na categoria Comunidades Indígenas reconhecida dentro e fora do Brasil, também estava emocionado. Ele participou intensamente de todo o processo de elaboração do texto constitucional de 1988, e fundou o Núcleo de Cultura Indígena. Também criou e dirigiu o Centro de Pesquisa Indígena e o Núcleo de Direitos Indígenas -NDI. Ailton foi apresentado como uma grande liderança indígena. "A sabedoria de Ailton Krenak está contida na sua atuação política da União das Nações Indígenas - UNI-, cuja intervenção é hoje decisiva não apenas para os povos indígenas mas para o conjunto da sociedade civil brasileira."