quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Feira do Livro Indígena terá Caxiri literário

Cuiabá / Várzea Grande, 29/09/2009 - 18:00.

Da Redação

Há uma semana da abertura da Feira do Livro Indígena de Mato Grosso (FLIMT), a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) apresenta uma programação variada e com novidades de encher os olhos e ouvidos. Um destes destaques são os “Caxiris Literários”, mesas de debates compostas apenas por escritores indígenas que servem para a discussão de temas ligados à área da literatura. Os “Caxiris” serão abertos ao público e, depois de cada debate, os componentes de cada mesa responderão aos questionamentos dos participantes.

Segundo Daniel Munduruku, coordenador indígena da FLIMT e diretor presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (INBRAPI), essas mesas têm temas variados, mas sempre debatendo sobre como a cultura indígena pode e deve ser tratada. “Nós falaremos sempre sobre assuntos ligados ao indígena. Trataremos da oralidade, da escrita, do movimento indígena na educação e de como ele pode ser aplicado na sala de aula. Os três “caxiris” serão norteados por esses assuntos”, explica.

A organização espera que cada mesa tenha em média duas horas de duração. “Cada escritor que estiver escalado para o “caxiri” terá 20 minutos para expor seu posicionamento sobre o tema em questão. Depois, o público poderá questionar os escritores”, descreve Daniel.

Os “carixis literários” serão realizados nos dias 06 e 09, no período da tarde e no dia 08 pela manhã, sempre nos estandes externos, instalados na Praça da República. Para participar não será necessário fazer inscrições antecipadas. Os interessados devem estar no local, 30 (trinta) minutos antes de cada uma das atividades.

A primeira mesa será na terça-feira (06.10), às 15h, e trará o tema: “Literatura Indígena: o tênue fio entre escrita e oralidade”. Participam como expositores os escritores: Graça Graúna, Manoel Moura Tucano, Eliane Potiguara, Yaguarê Yamã e Anna Claudia Ramos. A mesa será mediada por Daniel Munduruku, coordenador indígena da FLIMT e escritor.

Na quinta-feira (08.10) o “caxiri” debaterá “O Movimento Indígena e a Educação”, a partir das 09h da manhã. Fazendo considerações sobre “a importância do movimento indígena como instrumento na formação da consciência brasileira”, estarão os expositores AILTON KRENAK, Estevão Taukane e Álvaro Tukano, mediados por Darlene Taukane.

O último debate está agendado para sexta-feira (09.10), às 14h30 com os expositores Edson Kayapó, Darlene Taukane e Chiquinha Paresi. O tema será “A temática indígena na Sala de Aula” e terá como mediador Jucélio Paresi.

Confira a programação completa no link: http://www.cultura.mt.gov.br/TNX/conteudo.php?cid=2989&sid=54 (Esta programação ainda está sujeita a alterações)


FONTE: http://www.odocumento.com.br/noticia.php?id=310761

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Participe ao vivo do programa com Povos da Floresta no canal saúde interativo

Em busca da própria sobrevivência, o ”homem branco” estabelece metas e cria planos mirabolantes para proteger a natureza. E os povos da floresta, o que eles têm a dizer sobre isso? O programa Sala de Convidados, do Canal Saúde/Fiocruz, de sexta (04), às 13h, escuta e debate a sabedoria dos povos da floresta em busca de soluções para a saudável convivência entre desenvolvimento e sustentabilidade socioambiental. Participe ao vivo. Veja o que pensam os representantes das populações ribeirinhas, extrativistas, quilombolas e indígenas sobre o futuro das florestas.

No programa Sala de Convidados, o público participa ao vivo pela WEB www.canalsaude.fiocruz.br, no chat, ou assistindo pela NBR e ligando 0800 701 8122. Se preferir, antecipe a participação pelo canal@fiocruz.br
Convidados – para conversar sobre o tema com internautas e telespectadores estarão presentes o coordenador da Rede Povos da Floresta, Ailton Krenak; a pesquisadora da Universidade Federal do Pará, Camila do Valle; o vice-presidente da Associação de Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro, Damião Braga; e o representante do Conselho Nacional dos Seringueiros, Pedro Ramos.

Saúde – O tema faz parte da 1ª Conferência Nacional de Saúde Ambiental (CNSA), que vai acontecer no fim do ano, em Brasília. Para os organizadores do evento, ”além dos riscos ambientais provocados pela ação humana, a permanência ou agravamento das desigualdades sociais e econômicas, nas várias regiões do planeta, especialmente as mais pobres, demonstram a insustentabilidade socioambiental decorrente do modelo de desenvolvimento econômico, bem como suas consequências sobre a saúde das populações.
Alguns dos elementos deste cenário são: o esgotamento dos recursos naturais, como a água e as florestas; os processos acelerados de desertificação; a intensificação de eventos climáticos extremos; poluição química de ambientes urbanos e rurais; e a emergência e a reemergência de doenças”.
A 1ª CNSA conta com o apoio do Canal Saúde.

Participe ao vivo com sua opinião. Até lá!

Onde ver – Para saber como assistir a NBR na sua cidade ou obter mais informações sobre a NBR, acesse http://www.ebcservicos.ebc.com.br/veiculos/nbr Para assistir no site do Canal Saúde, acesse , clique na TV com a inscrição “ao vivo” e participe a partir do chat associado à transmissão. Se preferir, antecipe suas perguntas: canal@fiocruz.br. O Sala de Convidados é apresentado por Renato Farias.

Publicado em: 2 setembro, 2009 por Reportagem

FONTE: http://www.redenoticia.com.br/noticia/?p=10513

sexta-feira, 31 de julho de 2009

VALE A PENA CONFERIR:



"A Rede Povos da Floresta é um movimento social que reúne comunidades tradicionais e indígenas, unidas por um mesmo ideal de preservação do ambiente, de suas culturas tradicionais e de seus territórios originais.

A Rede foi criada em 2003 como uma revitalização da Aliança dos Povos da Floresta - mobilização feita por índios e seringueiros liderada por Chico Mendes e Ailton Krenak, que durante a década de 90 fez as mudanças que resultaram na criação das reservas extrativistas e na correção das políticas do Banco Mundial para o financiamento de grandes projetos de impacto socioambiental nas regiões de florestas tropicais em todo o mundo.

Tem como objetivo a preservação do ambiente e o que nele está inserido: a fauna, a flora, os recursos naturais e culturais e o morador tradicional. Assim como o registro da memória por meio das TIC's - Tecnologias da Informação e da Comunicação.

A Rede Povos da Floresta também é responsável pela Nanapini, iniciativa que estimula o reflorestamento através de ações ambientais conduzidas pelas próprias comunidades tradicionais da região amazônica."

Link: http://www.redepovosdafloresta.org.br/

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Liderança indígena critica métodos convencionais de salvar línguas ameaçadas

Por: FLÁVIA MARTIN
da Editoria de Treinamento DO SITE: "NOVO EM FOLHA"

Assim como outras 44, a língua falada pela etnia crenaque corre perigo crítico de desaparecer, segundo os critérios da Unesco. O ithoc burum é falado por apenas nove pessoas, que atualmente moram em Minas Gerais e em São Paulo.


Apesar de a língua estar quase extinta, Ailton Krenak, 56, descendente dos falantes, questiona as tentativas convencionais de resgate dos idiomas ameaçados.

"Alguns acham que você pode pegar uma comunidade que não é mais falante de uma língua materna e reeducá-la à semelhança dos cursos de francês e de inglês. A minha compreensão é de que, se você aprender essa língua em um instituto de línguas, você não vai expressar a sua alma."

Liderança indígena atuante --ao lado de Chico Mendes, fundou organização que deu origem à ONG Rede Povos da Floresta--, Ailton até consegue se comunicar com sua família em ithoc burum.

Mas sua geração não é considerada falante. Sua primeira língua, reconhece, é o português.

Todos os nove falantes já passaram dos 50 anos e não moram mais juntos. Laurita (mãe de Ailton), Maria Sônia, Deja, Eva, Júlia e Euclides --este último com mais de 80 anos-- estão no Vale do Rio Doce, no sudeste de Minas Gerais.

Na terra indígena Vanuíre (SP), vivem os outros três: Gracinda, Jovelina e Antônio Jorge. Todos adotaram como sobrenome o nome da etnia grafado por eles, Krenak.
Desintegração

A extinção dos crenaques e a dispersão de integrantes da etnia pelo país começaram, segundo a historiadora Maria Hilda Baqueiro Paraíso, da Universidade Federal da Bahia, com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808.

Para resolver a crise econômica pela qual passava Portugal, a corte decretou o Estatuto da Guerra Justa contra os índios da região. O instrumento foi criado durante as Cruzadas para justificar, religiosa e moralmente, a decretação de guerra contra um povo.

O nome "botocudo" foi atribuído pelos brancos às etnias indígenas (dentre elas, os crenaques) que habitavam uma área que abrange o sul da Bahia, o leste de Minas Gerais e o norte do Espírito Santo.

A denominação tem origem nos botuques, discos de madeira usados nas orelhas e nos lábios pelos homens com mais de sete anos como sinal de masculinidade, e, pelas mulheres adultas, apenas nas orelhas.

Nos anos 1950, segundo Ailton Krenak, os crenaques foram alvo de outra ação do governo. O Serviço de Proteção ao Índio, atual Funai (Fundação Nacional do Índio), transferiu alguns indígenas para aldeias de outros Estados brasileiros.

Foi o caso de Euclides, retirado da aldeia dos crenaques de Minas Gerais aos 20 anos, levado para o interior de São Paulo e, em seguida, para a aldeia dos guatós, no Mato Grosso, próxima à Bolívia. Ele só retornou para o convívio de sua família 50 anos mais tarde.

"Agora ele voltou a viver com as primas que falam a língua. Elas desconfiam se ele ainda lembra mesmo como é a língua ou se fica tentando se comunicar com elas só para resgatar algum nível de confiança", contou Ailton.

Ele diz também que essas pessoas testemunharam genocídios de membros de sua etnia durante a juventude, o que fez com que só na vida adulta pudessem falar a língua e expressar sua identidade sem medo de punições.



OBS: NO SITE HÁ UM VÍDEO COM ENTREVISTA DE AILTON KRENAK







SITE: http://treinamento.folhasp.com.br/linguasdobrasil/lingua-crenaque.html

terça-feira, 16 de junho de 2009

Entrevista com Ailton Krenak

Genocídio e resgate dos "Botocudo"

DURANTE trezentos anos, a região leste do Estado de Minas Gerais não podia ser devassada. A Coroa portuguesa impedia a passagem direta da região das minas até o litoral, para evitar o contrabando de ouro e diamantes. Criou-se, assim, o chamado "sertão do leste". Com o esgotamento das minas, no fim do século XVIII, tornou-se indispensável derrubar e explorar a Mata Atlântica e exterminar os chamados índios "botocudos", que enfrentavam os colonizadores. Houve, portanto, o genocídio dos índios. Atualmente, as comunidades indígenas estão renascendo e se fortalecendo, exigem respeito pela sua identidade étnica e o atendimento de suas necessidades.

A entrevista com Ailton Krenak, líder da comunidade Krenak e assessor para assuntos indígenas do governador Aécio Neves, foi concedida em setembro de 2008, em Belo Horizonte (MG), ao jornalista Marco Antônio Tavares Coelho, editor-executivo da revista estudos avançados, e também será publicada no livro Rio Doce – Contrastes e confrontos.

Marco Antônio Tavares Coelho – Inicialmente, peço a você dados sobre sua vida, formação escolar, onde vive e o que faz como porta-voz mais autorizado da comunidade krenak em Minas Gerais.

Ailton Krenak – Nasci em 1953, pois, do final de 1920 até a década de 1940, todas as famílias indígenas foram assentadas por Rondon na reserva do Posto Indígena Guido Marlière, que fica nos municípios de Resplendor e Conselheiro Pena, na margem esquerda do Rio Doce. Nasci do outro lado do rio, porque naquela época essa área começou a ser ocupada pelos criadores de gado. Eles enxotaram os índios dali, que fugiram para o Pankas, no Espírito Santo. Outros foram para o lado do Kuparak.

Naquele lugar houve um massacre causado pelos colonos. Incendiaram a aldeia, fuzilaram crianças e as mulheres e mataram muitos a facão. Isso ocorreu no final dos anos 1940 e 1950 e não havia ali nenhuma família instalada pacificamente.

Até 1970, toda a minha gente permaneceu naquele lugar algum tempo – uns por três meses, por um ano e meio – quando da refrega com os colonos. Acabaram todos expulsos. As últimas famílias que persistiam em permanecer foram arrancadas de lá, amarradas em correntes em cima de caminhões e despejadas em outro sítio, que a Secretaria da Agricultura de Minas Gerais trocou com a Fundação Nacional do Índio (Funai) a fim de liberar terra indígena para a colonização.

Despejaram os índios em propriedades da Corregedoria da Polícia, numa Colônia Penal, ou coisa assim. A perspectiva era aniquilar mesmo com o resto das famílias dos índios. Nesse lugar chamado Fazenda Guarani, em Carmésia, foram despejadas algumas famílias. Outras foram para Goiás, porque tinham parentesco com pessoas que viviam na Ilha do Bananal e nunca voltaram. Andei junto com meu pai e com alguns tios e fomos para o interior de São Paulo.

Sou um autodidata. Frequentei uma escola pública em São Paulo, de primeiro grau. Fiz um curso de artes gráficas no Senai, quando tinha dezenove anos. Esse aprendizado é que me deu habilitação para fazer todas as coisas que consegui fazer, inclusive obter de volta as terras que os colonos tomaram de minha família. Hoje é uma aldeia Krenak – o Posto Indígena Guido Marlière. O Estado de Minas respeita os limites dessa terra, pois é da União e o usufruto é dos Krenak.



Um jacobino ao lado dos índios

M. A. T. C. – Quando e como você começou a estudar a luta e a resistência dos "Botocudo" contra os colonizadores luso-brasileiros?

A. K. – Nos últimos vinte anos, conheci alguns dados que estavam escondidos sobre os "Botocudo", pois só eram publicados documentos do Arquivo Público Mineiro, apenas informando sobre as campanhas militares contra a minha gente. Depois disso, recentemente, passei a conhecer materiais que estavam fora do Brasil – na França e Portugal. Também tive a oportunidade de visitar um acervo sobre os "Botocudo" num museu em São Petersburgo, na Rússia. Foi um acaso, porque fui atrás de restos da cultura material de meu povo. Esses dados estão em meu texto "O baú do russo", uma historinha curtinha, onde relato a aventura dessa expedição científica.1

Nela, há cem anos, no meio de um acampamento "Botocudo", baixaram alguns homens, remanescentes das campanhas do francês Guido Thomaz Marlière, um jacobino que defendeu minha gente. Marlière teve contato com aqueles guerreiros que conseguiam se articular, fechar os caminhos e dar uma surra nos brancos, desmantelados e sem coesão.

Nessa ocasião, os "Botocudo" estavam desbaratados, jogados nos pés-de-serra. Muitos foram para o vale do Rio São Francisco, outros foram para o Rio São Mateus, e outros se refugiaram para o lado do vale do Rio Mucuri. Havia poucos assentamentos, pois os "Botocudo" dominavam poucos lugares. Ficavam escondidos, parecendo uma manada de gente assustada.

Quando entrou em contato com os "botocudos", Marlière tentou rearticular um pedaço de gente dizimada, tentando concertar uma política lançada com a declaração de guerra de extermínio, assinada pelo príncipe regente, em 1808. Essa caçada brutal aos "Botocudo" durou duas décadas. Nesse período, chamava-se de "Botocudo" todo ajuntamento de índios, principalmente os apanhados nas matas do Rio Doce, ou até o Espírito Santo.

Muitas pessoas, quando se referem a "Botocudo", pensam nessa gente do Rio Doce e, no máximo, no massacre da cidade de Conceição do Mato Dentro. Os "Botocudo" não eram ribeirinhos, mas gente do sertão. Gostavam de ficar na beira dos rios porque os rios eram uma fonte de alimentação, além de uma orientação de rota. Na sua natural sabedoria, buscavam lugares saudáveis e com água limpa. Só quando a mata começou a ser infestada de brancos apareceram a malária e outras doenças. Então, os "Botocudo" ficaram com medo de beira de rio.

Essa é a lição contada por nossas avós, como ensina a memória de gente que tinha contato com os brancos. As mais velhas que nossas avós viveram duzentos anos atrás. Elas, quando contavam um caso, partiam do que era contado pelas avós delas.

M. A. T. C. – Não havia doença no período anterior?

A. K. – Os "Botocudo" só começaram a sofrer com as epidemias quando os brancos entraram na mata. Depois do contato com os brancos é que apareceram as doenças, a mortandade de crianças e moléstias na pele. Males levados pelos brancos para famílias de índios. A ponto de os índios de um córrego não socorrerem índios de outros córregos em contato com brancos. Eles até evitavam receber esses índios nos acampamentos porque podiam trazer doenças. Os mais sabidos davam um jeito de ficar sempre pelados, porque tinham medo das roupas usadas pelos brancos.

Estou contando essas memórias, desorganizadas no tempo, pois algumas são lembranças contadas em minha casa. Outras são coisas publicadas em trabalhos de pesquisadores, ou aprendidas em discussões em torno de questões fundiárias ou políticas, nas quais foram surgindo documentos para elucidar alguns casos.

É o ocorrido, por exemplo, quando foi discutido o direito dos "Botocudo" sobreviventes de conflitos sobre a terra, em relação a territórios no médio Rio Doce. Isso porque houve pesquisas em documentos de diferentes fontes para analisar dados do impacto ambiental da hidrelétrica construída em Aimorés, quando foram contratadas consultorias especializadas para fazer o relatório do impacto ambiental.

Por isso, conseguimos uma bibliografia extensa sobre diferentes períodos, de 1700 até 1800, esclarecendo acontecimentos envolvendo a administração, o surgimento de vilas e de fazendas, inclusive os primeiros empreendimentos de modelos capitalistas consolidados mostrando como esse negócio foi mudando.

M. A. T. C. – Como posso conseguir esse material?

A. K. – Vou juntar o material todo. Relatórios sobre a hidrelétrica de Aimorés, um relatório etnoambiental2 que vem desde o Von Martius até o príncipe Maximiliano. Esse publicou um vocabulário de palavras usadas pelos "Botocudo".3 Uma fonte interessante é um caderno de Teófilo Otoni, falando sobre a floresta, o rio e os "Botocudo" no Rio Doce. A Universidade Federal de Minas Gerais publicou um livrinho muito inteligente em que Teófilo Otoni relata o empreendimento do Projeto Mucuri e a briga dele com os índios.4



A atuação de Teófilo Otoni

M. A. T. C. – Em geral, Teófilo Otoni teve uma relação boa com os índios?

A. K. – Na época, não podia fazer outra coisa. Foi mais ou menos como o Orlando Villas Bôas, pois esse também agiu como humanista no caso do Parque Nacional do Xingu. Se Teófilo Otoni tivesse sido ouvido e respeitado os "Botocudo", esses não teriam sido aniquilados. Além disso, ele tinha também a ambição de encontrar, no meio dos "Botocudo", uma gente chamada de aimoré – os tais índios Aimoré.

M. A. T. C. – Essa expressão aimoré é errada? Não havia esse povo?

A. K. – O Teófilo Otoni era um cara inteligente e honesto. Depois de ter brigado com os "Botocudo", continuava procurando os aimorés, porque acreditava que eram uma tribo muito valente e tinham um tipo de herança cultural diferente da dos "Botocudo". Acreditava serem um ramo na história dos "botocudos". Ora, aimoré é embaré, gente do mato, amba de gente.

M. A. T. C. – Então, os aimorés não eram uma etnia?

A. K. – Não, eles eram chamados de aimorés pelos Tupi do litoral, muito sabidos. Eles chamavam todos índios do mato de embaré, porque usavam esse nome no sentido de serem brutos. Eram jagunços dos brancos e chamavam as outras tribos de gente do mato. Assim, esse nome "aimoré" não nomeia um povo, era um apelido dados pelos Tupi. Teófilo Otoni procurou esses aimorés no meio dos "Botocudo". Não achou, mas encontrou fragmentos deles, rastros deles.

Então, há uns chamados, por exemplo, Naknanuk. Nak é terra; até hoje no dialeto burum (índio na língua dos Krenak). Kren é cabeça. Então, somos os cabeças da terra. Esse grupo nosso é remanescente dos cabeças da terra. Mas há também os outros, uns refugiados que foram sobrando no meio de nossas famílias. São, por exemplo, chamados de Nakrehé, e tem os outros Pojitxá e os Gutkrak.

Quando você vai observar esses nomes, entende uma coisa: tudo é nome de lugar. Seria equivalente chamar o pessoal da serra de serrano; o pessoal da beira do rio de ribeirinho; o pessoal de pântano de pantaneiro; e o pessoal da grota de groteiro. Naquele contexto, chamavam todos de "Botocudo".

Estive lendo o livrinho do Teófilo Otoni e vi como ele mostrou ser inteligente ao observar todo mundo falando desses aimorés, mas ninguém descreveu esses aimorés. Mas sobre os "Botocudo" há diversas referências e ordens sobre os quartéis espalhados, entre Espírito Santo e Minas. Informações sobre centenas deles presos, vigiados e impedidos de sair dos quartéis. Isso ocorreu no final do século XVIII, quando os administradores estavam apavorados e por isso pediram uma ordem de guerra contra os "Botocudo".

Além disso, esse fato coincide com a liberação do caminho das minas. É insistente essa informação de historiadores escrevendo sobre a liberação da passagem pela floresta do Rio Doce depois de haver se esgotado a extração de diamantes e ouro.

Só depois de liberaram a mata, viram como ela estava cheia de tribos. Até o final do século XVIII, os "Botocudo" ficaram à vontade na mata do Rio Doce. Durante uns cento e tantos anos ficaram ali e a Coroa não tinha nada a ver com aquilo. Depois os brancos decidiram descer o cacete. Antes somente se interessavam pela madeira existente na mata.



Rondon e os krenaks

M. A. T. C. – Como foi a sobrevivência dos índios depois da guerra decretada pelo príncipe regente, em 1808; e posteriormente, como foi o relacionamento dos brancos com os índios? Atualmente, como é esse relacionamento?

A. K. – Quero colocar uma questão-chave. Há muitas informações sobre o massacre ocorrido na guerra ofensiva. Mas não tenho clareza como terminou a guerra. A partir da pregação de Guido Marlière e de Teófilo Otoni, como os "Botocudo" se juntaram? A tradição oral, que chegou até a minha geração, diz que a guerra nunca cessou. Só diminuiu porque um dos lados não tinha mais contingente para combater. Mas os "Botocudo" continuaram sendo sangrados como galinhas, ao longo de todo o século XX.

Darcy Ribeiro apresentou esses índios como extintos. Uma vez, quando ele era secretário de Cultura, do governo Brizola, fui visitá-lo com um grupo de guaranis no Rio de Janeiro. Por coincidência, nesse dia havia caído um temporal. Fomos andando a pé, da rodoviária até a Secretaria. Parecíamos uns pintos molhados. O guarda da Secretaria estranhou e disse que o secretário não iria receber aqueles pedintes descalços, com calças e camisas molhadas. Mas, apesar disso, entramos no gabinete do Darcy para cumprimentá-lo e ele perguntou como é que estávamos. Respondi: "Como você disse que nosso povo está extinto, um fantasma veio lhe visitar. Porque, pelo seu livro, estamos mortos. Quem está extinto não dá notícia".

Darcy deu uma risada e perguntou: "Continua a matança em cima de vocês?". Falei: "Claro que continua. Vim aqui pedir sua intervenção junto ao governo para que a Funai e as outras agências do governo parem essa perseguição contra as restantes famílias de 'Botocudo'".

O que aconteceu foi o seguinte: quando acabou a guerra, se é que houve o final dessa guerra, uma missão de capuchinhos estava tentando consolidar um assentamento onde viviam mais de 2.700 "Botocudo". Uns cacos de gente, no final do século XIX, lá num vilarejo em Itambacuri, no vale do Mucuri. Em 1893, houve uma rebelião. Os índios mataram os que chefiavam a missão dos capuchinhos e saquearam propriedades e sítios. De 1893 até 1910, 1915, havia muito ressentimento e ninguém queria ver aqueles índios que fugiram da missão, quase mansos, e que de novo viraram bravos. O problema é que nessa segunda rebelião os índios não estavam mais com arco e flecha, mas com carabina. Começaram a assaltar as tropas com rifle e munição. Tomaram as armas dos tropeiros e formaram uma jagunçagem. No meio dessa jagunçagem surgiu um capitão, um sujeito guerreiro, o capitão Krenak.

Esses guerreiros deram muito trabalho na ocupação do Rio Doce, naquele lugar, que hoje tem o nome de Nanuk, palavra na língua dos "Botocudo". Nome de um cara rebelde, que comandava uma horda de bravos guerreiros, cercando as tropas. Seguiam pela rota de tropeiros que havia na região, tomando suprimentos de qualquer provedor. Alimentavam os grupos de seus guerreiros na Serra dos Aimorés.

Foi aí que o marechal Rondon, com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), mandou seus bons indianistas/sertanistas, que saíam do Rio de Janeiro, de Cuiabá e de outras regiões, para pacificar os "Botocudo". Assim foram pacificados esses últimos guerreiros. Desses sertanistas, alguns eram oficiais. Eles atribuíram a patente de capitão a esse Krenak. Somos descendentes da família dele. Trocou o botoque dele, com um fotógrafo, por comida. Roquete Pinto fez uma foto dele quando ele já estava tuberculoso. Em troca de sua foto, ganhou os brincos e os anéis da orelha, que foram levados para o museu.

Desse período de 1910-1925, são pequenas narrativas que contam os momentos de visita de autoridades, os momentos de namoro e depois os momentos de matar todo mundo. Até que, em 1922, por orientação do marechal Rondon e da turma dele que havia criado o SPI, houve a localização desses índios.

Rondon deu um jeito para arrumar um lugar para aqueles índios, demarcando uma reserva, um território para eles, e liberava o entorno dos assentamentos. Chamava trabalhadores nacionais e organizava uma colonização. Rondon dirigia, ao mesmo tempo, o Serviço de Proteção dos Índios e também a localização de trabalhadores.



O massacre permanente dos "botocudos"

M. A. T. C. – Como você vê esse problema do relacionamento hoje?

A. K. – Acompanhando a história do Brasil até a Constituinte de 1988, não só em Minas, mas no Brasil inteiro, a perspectiva do Estado brasileiro era acabar com índio. Só que na Constituinte houve uma grande pressão para mudar essa política.

Esse negócio de a literatura dizer que os "Botocudo" eram antropófagos é um ato falho, é um truque da má consciência neobrasileira formadora do Brasil. Eles tinham de dizer que minha gente era antropófaga para nos aniquilarem. Participei na Constituinte de 1988 pintando a cara de preto no Congresso Nacional. Estava com 36 anos de idade quando fiz aquilo. Fui defender a emenda popular, pois não se defendia o artigo 231 da Constituição porque ele afirma que o Brasil precisa parar de matar índio e assegurar os direitos para os índios restantes.

Isso tudo foi uma ruptura com o que havia acontecido no passado. Mudança que o Estado não conseguiu assimilar até hoje, pois o Estado ainda tem cacoetes. O Estado parece uma daquelas feras que ficam mansas, mas, de vez em quando, ainda comem alguém. Ainda agora há os pit bulls soltos lá em Roraima. Eles se esquecem de que há uma Constituição. Mas o ministro do Supremo Tribunal Federal lembrou muito bem em seu voto, dizendo: "Tirem os dentes, tirem as presas".5 O que aconteceu da Constituinte para cá foi um fenômeno fantástico, o surgimento de nova identidade.

No século XX, em Minas Gerais, se dizia que não havia mais índios, ou que no máximo havia "Botocudo" sobreviventes e Maxacali (aqueles de Mucuri, de Santa Helena e Bertópolis). Esses Maxacali são um fenômeno impressionante, pois não se aculturaram. Você chega numa aldeia maxacali e eles estão falando a língua deles, vivendo na religião deles, vivendo no mundo deles. Pelo menos nos últimos duzentos anos ficaram isolados. Tempos atrás estiveram em Diamantina e em outras regiões, no Jequitinhonha. Mas, nos últimos duzentos anos, fizeram um movimento e se fixaram nessa região do Mucuri. Eram inimigos preferenciais dos "Botocudo". Quando não havia branco para brigar, os "Botocudo" brigavam com os Maxacali. O que resultava em roubo de mulheres de um lado e do outro. Logo, nós somos parentes, somos parentes porque nossos grupos guerreavam e tomavam crianças uns dos outros, e mulheres uns dos outros.

M. A. T. C. – Quantos são os índios em Minas Gerais?

A. K. – Os maxacalis eram considerados as últimas famílias indígenas sobreviventes em Minas Gerais, quando, por volta de 1970/1980, houve o ressurgimento dos Xacriabá que estavam submersos na história e começaram a reivindicar terra, direitos e identidades. Hoje é a população indígena mais numerosa do Estado de Minas. São mais ou menos oito mil índios, enquanto os Krenak são duzentos e poucos. Numericamente nós não existíamos e eles existiam. Mas até o século XX não existiam.

Hoje os Maxacali são uns 1.200 ou 1.300. Se juntar esses povos, que ficaram nesse lugar demarcado, atravessaram o século XX, eles são os Krenak, Maxacali e Xacriabá. Hoje, quando se olha o site da Secretaria de Governo encontram-se nove tribos em Minas. Que fenômeno é esse? Os Patachó, que fugiram lá da Bahia, perseguidos pela turma do Antônio Carlos Magalhães, se refugiaram em Minas, na década de 1960/1970. Os índios parentes de Graciliano Ramos, de Palmeiras dos Índios, Xukuru-Kariri, fugiam da miséria, do desmando político, da violência, e vieram para o sul de Minas, que os recebeu. Aqui há três grupos de famílias indígenas: Pataxó, Xukuru-Kariri e Pacararu.

Foi tão bom esse período de ressurgimento das comunidades indígenas que, quando o governador Aécio Neves me chamou, em 2003, e me perguntou como estavam os índios em Minas Gerais, respondi: "Estão muito mal".



O que fazer pelas comunidades indígenas?

M. A. T. C. – O que vocês têm feito pelos índios? Qual o resultado desse trabalho?

A. K. – O que dá resultado é tratar esse conjunto de famílias tribais, remanescentes desses povos – Xacriabá, Maxacali e inclusive dos que migraram para cá vindos do Nordeste, Pataxó, Xukuru-Kariri, Pacararu, além dos nativos Aranã e Kaxixó – como cidadãos que têm direito à proteção do Estado, sem discriminação. Eles têm direito às políticas públicas no sentido de atendimento às mães, quanto ao nascimento de seus filhinhos, o pré-natal e o acompanhamento dessas mães até que a criança faça cinco anos de idade. Têm direito à alimentação. Deve-se respeitar o direito dos índios de continuar morando em casa de palha que fizeram, dando a eles e elas a oportunidade de, se quiserem, ter uma habitação adequada. Porque não admito que arranquem um costume, que é próprio de uma família indígena, para botá-la num conjuntinho residencial do Banco Nacional de Habitação (BNH).

A gente não tem povo indígena vivendo num apartamento do BNH , em Minas Gerais, pois temos nos esforçado para arrecadar terras públicas, seja terra da União seja terra do Estado, para criar assentamentos adequados para atender às necessidades dessas famílias indígenas. Uma família indígena reduzida a 200 ou 300 indivíduos não quer viver nos fundos de uma fazenda, hostilizada por pecuaristas ou por garimpeiros. Ela sente a necessidade de estar num lugar mais parecido com essas unidades de conservação, num parque ou numa unidade biológica.

Estamos argumentando no sentido de que os índios possam ter acesso a um lugar desse tipo e que o Estado crie os instrumentos para que eles possam viver desse modo, não agredidos pelo município ou pelos vizinhos. Isso deve ser feito através das secretarias de Estado, como as da Saúde, do Meio Ambiente, de Agricultura ou de Bem-Estar Social. Programas públicos para realizarem ações que atendam a questões como água potável, para eles pararem de beber água de córrego que está envenenada com agrotóxico, com esgoto, com detritos de todo tipo.

A água do Rio Doce está muito ruim. No meio dela há partículas de mercúrio, bauxita e outros minérios pesados, fora os resíduos jogados no Rio Doce pelos municípios, desde o Rio Piracicaba. Quando a gente toma banho, sai bronzeado, mineralizado. Num seminário no médio Rio Doce acusei os municípios de serem responsáveis por jogarem detritos no rio. Uma pessoa se levantou e disse: "Em Ipatinga não se faz mais isso, pois tratamos de nossa água, antes de jogá-la no Rio Doce". Ora, mas, em Governador Valadares, jogam restos de hospital, sofás velhos, televisões e até geladeiras dentro do rio. Todo mundo na beira do Watu (nome que os índios dão ao Rio Doce) acha que ele é o depósito de todos seus restos.



O ensino em língua indígena

M. A. T. C. – Na educação primária as professoras ensinam a língua materna das comunidades indígenas?

A. K. – Temos um programa chamado Piei (Programa Estadual de Implantação das Escolas Indígenas). O Estado de Minas tem hoje duas mil crianças indígenas em sala de aula, com professor bilíngue da aldeia. Todas a aldeias têm uma escola indígena bilíngue, com professor nativo local, que foi habilitado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em oito módulos de quatro anos, para se tornar um professor habilitado em magistério.

Desses professores, 140 deles estão fazendo licenciatura na Universidade e vão se graduar em 2010 como educadores em língua e literatura. Nossa população é de nove etnias diferentes. Dessas etnias, só três mantêm a língua materna. Mas mesmo aquelas que não têm a língua materna estão tendo subsídio e material didático de apoio a fim de trabalharem a reintrodução da língua materna. Estamos gerando esses materiais com apoio não só em programas estaduais, mas também em programas federais, porque o Ministério da Educação tem um comitê de educação indígena que foi implantado no governo de Fernando Henrique. Esse comitê tem se constituído num espaço bem democrático de pluralidade.

O material didático é impresso em português e na língua materna, caso o grupo tenha memória da língua materna, porque não tem sentido mandar um texto escrito em língua tupi do tempo de Anchieta para uns remanescentes de índios tupis, mas que não conhecem mais essa língua.



A tradição e a religião dos índios

M. A. T. C. – Ainda há pressão da Igreja Católica para as comunidades indígenas aderirem à religião católica? Como você encara o problema da religião?

A. K. – A disputa religiosa atualmente foi incrementada pela chegada dos evangélicos. Antes, os missionários queriam só as almas dos índios, agora eles disputam com os evangélicos a governança dos índios. Se você catequiza o índio e o deixa seguir a vida dele, tudo bem. Mas se catequizá-lo e ficar mandando, fazendo a governança de suas vidas, organizando em comunidades, sindicatos, associações e coisa que o valha, isso eu acho grave.

A disputa dos índios por católicos e evangélicos cria um agravamento da crise de identidade desses índios. Essas disputas são esvaziadoras do conteúdo cultural que os índios herdaram. Estou falando da Pastoral da Igreja Católica, mas os evangélicos também estão fazendo a mesma coisa. Querem ficar pau a pau com os católicos para ver quem controla o índio.

M. A. T. C. – Quer dizer que não há uma abertura da Pastoral desse ponto de vista de religião?

A. K. – Com aquelas mudanças do concílio dos anos 1960/1970, aquelas coisas de Leonardo Boff, da Teologia da Libertação, dizem que estão espalhando cultura ecumênica. Os missionários da Teologia da Libertação falam com os índios que estão encarnando a cultura indígena. Você pode encontrar um missionário dançando com o pajé, mas esse negócio do missionário dançar junto com o pajé é só conversa. Porque na verdade, quem prega, quem instala o bastão lá dentro, prega a cruz, marca a hora do catecismo, é o missionário, não é o pajé.

O que observo nessa virada do século XX para cá é que o fenômeno da globalização, junto com essas outras manifestações locais, como a disputa com os evangélicos, estão jogando os índios num liquidificador, indiferentemente se são índios tradicionais ou índios aculturados. Eles querem tirar daí médicos, técnicos, vereadores, políticos, administradores, educadores, professores.

Na verdade, costumo dizer o seguinte: dois séculos de guerra bruta não conseguiram fazer o serviço que um pequeno período de democracia está fazendo – o de integrar de maneira absoluta essa diversidade cultural.

Índios são uma generalização absurda, porque acaba com isso que nós estamos falando que é a possibilidade do menino na aldeia ensinar a seus irmãos, do avô ensinar a seus netos a sua história, ensinar na sua língua seus valores e a sua tradição.

Esvaziam tudo isso e enfiam lá um monte de representação e dizem: "Essa é do comitê de não sei o quê", "o conselho de mulher", "o de saúde", "de educação". Eles vão esvaziando a identidade desse índio e ele acaba virando uma espécie de uma figura parecida com sindicalista.

Essa novidade de todo mundo virar cidadão (de forma compulsória) tira também das pessoas a possibilidade de elas continuarem vivendo de alguma maneira a memória de sua tradição, de sua cultura. Daqui a pouco eles vão perder a possibilidade de ter um terreiro dentro da aldeia onde as pessoas ficam sentadas, calam a boca e escutam os velhos. E quando um velho vier e falar assim: "Esse mês nós vamos nos recolher numa ilha do Watu e vamos fazer os ritos de passagem dos que têm menos de onze anos de idade. Eles vão ficar afastados do convívio de suas mães e de suas famílias e vão ser iniciados na história dos velhos que não podem ser contadas publicamente. Quando não puder fazer mais isso não irá fazer diferença nenhuma ter língua diferente. Papagaio repete também língua diferente!".

A importância de ser bilíngue e de ter liberdade para pensar é continuar uma narrativa, seja recebida no sonho, nos ritos, nisso que eles chamam de religião. Índio não tem religião. O mais autêntico que a gente pode identificar num núcleo de uma prática dessas famílias desse povo antigo é a continuação da tradição. Uma tradição que remonta aos mitos da criação do mundo.

Então, assim é muito bom quando os Krenak podem se recolher no taruandé, que é um rito que os Krenak guardaram na memória deles. Taru é o céu, taruandé é um movimento que o céu faz de aproximação com a Terra. No taruandé os meninos que ainda estão engatinhando, os homens, as mulheres, os mais velhos cantam e dançam juntos, como uma brincadeira de roda. Repetindo frases na sua língua materna que diz: "O meu avô é a montanha", "Você é meu avô e o rio", "Você é peixe pra eu comer", "Você me dá remédio para a minha saúde", "Você esclarece minha mente e meu espírito", então "O vento, o fogo, o sol, a lua".

Ficam repetindo essas frases na sua língua ancestral, batendo o pé no chão, tocando maracá, acendendo fogo, pulando na água fria, buscando saúde, fazendo a terapia muito especial e afirmando a sua própria identidade diante do mundo avassalado por propaganda, consumo e besteiras de todo lado.

O que eu valorizo é isso. É que ainda possa ter famílias que olham para si mesmas; não sintam vergonha de ser quem são; não têm vergonha de morar em casa de chão batido; não têm vergonha de cozinhar num fogareiro de cupinzeiro, em cima de pedra; não têm vergonha de comer carne moqueada, comer peixe moqueado assado na pedra, comer batata e mandioca tiradas de baixo das cinzas; não têm vergonha de fazer isso. Acham que fazer isso é um jeito de continuar sendo "Botocudo".

Ora, os árabes, os judeus, os japoneses também batem tambor, comem de palitinho. É um jeito de eles continuarem sendo árabes, judeus, japoneses. Por que a gente não pode continuar sendo "Botocudo" em qualquer lugar? Essas pessoas têm que ter o direito de continuar ensinando para seus filhos os valores que até hoje eles trouxeram vivos consigo.



A luta de um krenak

M. A. T. C. – Qual a sua atuação e sua relação com o governo de Minas Gerais?

A. K. – O governador Aécio Neves me perguntou: "O que dá pra fazer pelos índios?". Respondi: "Podemos fazer o que Guido Marlière fazia quando cuidou da questão dos índios, no gabinete militar do Império". Então, desde 2003, o governador me deu um mandato, de assessor especial para assuntos indígenas. Sou vinculado à Secretaria de Governo. Ele me disse então: "Você vai criar o programa para inclusão social dos que ainda restam de povo indígena no nosso Estado, porque não queremos que sejam aniquilados e desapareçam".

Assim, de certa maneira, a guerra contra os índios em Minas Gerais só parou com o governador Aécio Neves. O governador me perguntou se teria sentido criar uma Secretaria de Assuntos Indígenas. Respondi que em Minas não há uma população indígena que justifique a criação de uma Secretaria de Estado. Assim, propus fazer meu trabalho no gabinete dele. Disse-me que, então, eu deveria trabalhar em nível de igualdade com qualquer secretário. Empossou-me e avisou aos demais secretários para colaborarem comigo, a fim de cumprir minha missão. O objetivo é trabalhar para que em Minas sejam respeitados os direitos humanos e sociais dos índios.

Tenho, portanto, o compromisso de agir assim até 2010. Nosso propósito é criar um Centro de Referência da Cultura Indígena e um Memorial Indígena, na Serra do Cipó, um sítio que se chamará Monumento Natural da Mãe D'Água. O Instituto Estadual da Floresta, junto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), está demarcando esse sítio. É cheio de grutas, cavernas e sítios arqueológicos da maior relevância. Dentro desse memorial vamos recolher o acervo que foi para a Rússia, a fim de resgatarmos cem anos da cultura material dos "Botocudo". Eles são os primeiros registros das escritas fonéticas de "Botocudo" gravados por essa expedição russa. Em torno desse acervo deveremos ter um espaço para a formação de jovens indígenas, a fim de administrar seus territórios, tendo em vista sua educação e saúde, além de outros objetivos.


Notas

1 Uma documentação de Manizer, que se encontra no Museu de São Petersburgo.

2 Etnozoneamento ambiental da etnia e terra krenak, elaborado pela Associação Indígena Krenak. Resplendor (MG), 2002.

3 Viagem ao Brasil, do príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied (Edusp; Itatiaia, 1989).

4 Livro de Teófilo Otoni, Notícia sobre os selvagens do Mucuri, organização de Regina Horta Duarte (Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2002).

5 Voto do ministro Carlos Ayres Britto do Supremo Tribunal Federal, como relator no litígio sobre a Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima.


FONTE: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000100014&lng=en&nrm=iso&tlng=en

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Realizada no Jardim Botânico reunião sobre os trinta primeiros Pontos de Cultura Indígena

Pontos de Cultura Indígenas: parceria entre Associação de Cultura e Meio Ambiente, Fundação Nacional do Índio e Ministério da Cultura



De 5 a 8 de maio de 2009, aconteceu no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a reunião de imersão da equipe da Rede Povos da Floresta (RPF) no projeto de implantação dos trinta primeiros Pontos de Cultura Indígenas, uma parceria da Associação de Cultura e Meio Ambiente (ACMA) com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e o Ministério da Cultura (MinC).


A implantação dos Pontos de Cultura congrega as atividades de mobilizações locais, articulação e organização das Rodas de Conversa. Cada comunidade selecionada receberá um kit multimídia com três computadores com DVD embutido, uma câmera filmadora, uma câmera fotográfica digital, duas caixas de som e um microfone.

Os Pontos serão implantados com a devida adequação dos espaços físicos e a instalação dos equipamentos. As comunidades receberão a devida formação e qualificação relacionada à operação dos recursos tecnológicos, desenvolvimento de produtos e serviços culturais, aprimoramento da infra-estrutura digital da Rede, ações de gestão, avaliação e comunicação de processos e resultados.

A reunião de imersão contou com a presença de toda a equipe da Rede Povos da Floresta e também Ailton Krenak, fundador da RPF e coordenador estratégico do projeto; João Augusto Fortes, representante da Associação de Cultura e Meio Ambiente (ACMA) e liderança da RPF; Moisés Ashaninka, da Associação Ashaninka Apiwtxa; Benki Ashaninka, do Centro Yorenka Ãtame, entre outros.


Outros parceiros da RPF que atuarão no projeto também estiveram presentes. De São Gabriel da Cachoeira vieram Erivaldo Almeida Cruz, diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e Andreza Andrade, jornalista do Instituto Sócio Ambiental (ISA).

Vera Olinda Sena, coordenadora do setor de educação da Comissão Pró Índio do Acre e Gleyson de Araújo Teixeira, assessor da Associação Ashaninka Apiwtxa, vieram respectivamente de Rio Branco e de Cruzeiro do Sul, no Acre.

André Abreu, representante da Fundação France Liberté, parceira da Rede Povos da Floresta, Paulo Jobim, presidente da ACMA, e Rodrigo Baggio, do Comitê de Democratização da Informática (CDI), parceiro da Rede desde sua fundação, também marcaram presença.

Cada ponto implantado deve expressar a complexidade local

Para a apresentação do encontro, o sempre inspirado Ailton Krenak ressaltou que o fato dos participantes serem de diferentes partes do Brasil, traz ainda mais originalidade a essa iniciativa e indica que todos os envolvidos estão participando de uma ação inovadora.

Ele ainda expôs o que entende por atuar em rede - ser capaz de estabelecer uma dinâmica, interagir sem uma ordem de comando, mas respondendo aos estímulos e sinais que cada um consegue ler e responder. Para Ailton, isso cria um texto, uma narrativa, que vem a ser a própria vida. Poeticamente, associou a rede com cama de gato, rede de pesca, de balanço, de balaio.

Segundo Ailton, a floresta é a possibilidade de nossa civilização. Por isso é preciso proteger a floresta e dar governança para o povo que vive nela, independente das denominações que o governo lhe dá - indígenas, ribeirinhos, quilombolas ou populações tradicionais. Para ele, tais denominações têm o efeito paradoxal de "esconder" essas populações humanas.

Entre todos os assuntos tratados durante a reunião, ganhou destaque a Roda de Conversa, que será a primeira ação da RPF junto às comunidades. A Roda vai reunir as comunidades que serão beneficiadas em diferentes locais para uma conversa com os responsáveis pela implantação, nela o projeto será apresentado em detalhes e as comunidades terão a oportunidade de expressar seus pensamentos e anseios em relação a ele. Ailton afirmou que as rodas não são cartesianas e não têm fim, ao contrário, são circulares, platônicas, infinitas.

Ficou claro para todos os presentes que em cada Roda de Conversa que se realizará, será definido o que é o ponto de cultura para aquela determinada comunidade e que cada ponto tem sua própria identidade, sem precisar reproduzir ou seguir uma norma. Cada um desses pontos deve expressar a complexidade local e para isso, cada comunidade dirá o que quer e o que não quer socializar. O projeto não pretende implantar réplicas, como numa linha de montagem.

Além da explanação sobre o projeto, a imersão também possibilitou que cada grupo de trabalho se reunisse para acertar as diretrizes e particularidades do que irá realizar.

A reunião foi orientada pelos profissionais da Giral, empresa social que oferece serviços baseados em técnicas de gestão, e nela houve o aprofundamento do que diz respeito à implantação em si, em como solucionar as questões de transporte, armazenamento e de toda a logística que envolve o trabalho.

A jornada de trabalho para a implantação dos 30 Pontos terá duração de dois anos.

Entusiasmo e comprometimento foram elementos sempre presentes durante os dias de imersão. Serão essas as qualidades que acompanharão a turma na aventura que tem sua primeira viagem para a floresta marcada para o início do mês de junho.



Matéria de:2009/mai/9 - Enviada por:Gal Rocha - Palavras-chave:Reunião - Pontos de Cultura Indígena
Fotos de Alice Fortes

FONTE: http://www.redepovosdafloresta.org.br/exibePagina.aspx?pag=138

quarta-feira, 6 de maio de 2009

(Arquivo 2007) entrevista de Ailton ao Site do Museu da Pessoa

Equipe:
DIRETORIA
Ely Harasawa
José Santos Matos
Karen Worcman
Márcia Ruiz

SUSTENTABILIDADE
Pedro Corradino, coordenador
Ana Paula Bastos, captação de recursos (Rio de Janeiro)
Janaína Rossi, assistente

PORTAL
Heci Regina Candiani, editora de conteúdo

ACERVO
Rosali Henriques, coordenadora de área
Gustavo Ribeiro Sanchez, estagiário


RELAÇÕES INTERNACIONAIS E REDES SOCIAIS
Joana Zatz Mussi, coordenadora da área
Mariana Casellato, mobilizadora de redes
Sarah Faleiros, mobilizadora de redes

PROGRAMA CONTE SUA HISTÓRIA
Eduardo Barros, coordenador de estúdio
Adilson Moreira de Lima, técnico de vídeo
Cláudia Leonor, coordenadora de projetos
Gabriel Costa Monteiro, assistente de estúdio
Thiago Belotto, estagiário
Thiago Pereira Majolo, pesquisador
Winny Choe, pesquisadora
Julia Relva Basso, pesquisadora

PROGRAMA DE FORMAÇÃO
Sônia London, coordenadora de área
Simone Alcântara, coordenadora de projetos
Ana Carolina Carvalho, formadora
Ana Paula Severiano, formadora
Danilo Eiji Lopes, formador
Fernanda Gomez Peregrina, formadora
Giselle Vitor da Rocha, formadora
Márcia Trezza, formadora

PROGRAMA MEMÓRIA INSTITUCIONAL
• Responsável
Cláudia Fonseca

• Assistente
Isaac Deluca Patreze, assistente de área

• Coordenadoras
Denyse Emerich
Márcia de Paiva (Rio de Janeiro)
Maria Raccioppi

• Pesquisadores/São Paulo
Maurício F. Rivero
Nádia Lopes

• Pesquisadores/Rio de Janeiro
Douglas Thomaz de Oliveira
Inês Cordeiro Gouveia
Morgana Mara Vaz da Silva Maselli
Sergio Ricardo Retroz

• Estagiário
Ricardo Pedroni

APOIO ADMINISTRATIVO
Maria da Conceição Franco Pereira, recepcionista
Keli Cristina Garrafa dos Santos, assistente administrativo



VOLUNTÁRIOS
Amber Filgueiras, transcrição
Andreza Tonasso Galli, eventos
Anna Paula Cajeron Medrano, versão em inglês
Carolina Viveiros de Souza, versão em inglês
Caroline Alide Moschella Glöe, versão em inglês
Daniela Moreno Zanon, versão em inglês
Débora de Cássia Pinto, edição de textos
Emanuele Nunes dos Santos, versão em inglês
Florindo Katsushisa Enoki, versão em inglês
Graciela Paparazo N. Felix, tradução de inglês
Lívia Mara Ganzella, versão em inglês
Maria Christina de O. Macedo, transcrição
Marina Puoli Alves Bastos, revisão de inglês
Nathália Pires Souto, versão em inglês
Renata Barbosa Corrêa, versão em inglês
Renato Ramalho Geraldes, versão em inglês
Ricardo Soncini Cazarino, transcrição
Samantha da Aparecida Pasoti, versão em inglês
Sonia Ponzio de Rezende, versão em inglês
Waléria de Almeida Coicev, versão em inglês



P/1 – Então Ailton, boa tarde, Queria começar a entrevista pedindo pra você falar seu nome completo, data e local de nascimento?

R – Meu nome é Ailton e o meu nome completo é Ailton Alves Lacerda Krenak, esse Krenak é o nome da minha é família indígena, do povo Krenak, que vive numa região do Brasil, que é o Vale do Rio Doce divisa de Espírito Santo com Minas Gerais.

P/1 – E e quando que você nasceu?

R – Eu nasci em 1953, eu nasci no século passado, e nasci nessa região que é um córrego. Que o pessoal da minha região se atribuía era falar o nome do córrego, do rio. Ah se você tava na margem do rio você falava no rio tal, se você tava na cabeceira do rio você dava o nome do córrego, que vinha da cabeceira do rio. Eu nasci num córrego que chama Córrego do Itabirinha. Esse Córrego do Itabirinha ele é da bacia do Rio Doce, ele vai jogar a água dele lá no Rio Doce e o Rio Doce depois leva todas as nossas idéias, nossos pedidos, lembranças, lamentações e despeja lá no mar.

P/1 – E Ailton qual é o nome dos seus pais? Você podia falar um pouco dos seus pais?

R – Eu posso. E meu pai e a minha mãe, desde pequeno, eu sempre achava que eles eram irmãos, porque o meu pai se chama Neném e a minha mãe Nesita. Aí eu ficava sacando eles, assim, quando eu era pequeno, eu falava assim: Pô, eles são os dois irmãos muito legal. A história deles dois é muito bacana mesmo, porque o meu vovô, pai da minha mãe, ele achou o meu pai numa num roteiro de viagem que ele tava fazendo, porque esse meu vovô Pedro, ele foi o guia da entrada dos colonos pra região de selva, aonde a gente vivia pra derrubar a mata. E tinha uma família de alemães, que migraram pro Brasil, é eles eram mais abilidosos com essa coisa das tecnologias e eles introduziram as serrarias. Não era só derrubar de machado era derrubar de serra. Tirar as toras grandes levar pra beira do rio e serrar. Eles precisavam de um camarada que conhecia aquelas montanhas e aqueles vales, que sabiam entrar onde tinha floresta pra dirigir eles. E o meu vovô Pedro pegou as a mulher dele e os as filhas, principalmente filhas, muitas filhas. A minha mãe ela tem as uma turma de “irmã”, tem a tia Leonisa, tem a tia Fifina, tem a tia Lurde, tem a tia Lidinha. E a minha mãe era uma menininha, quando o meu avô seguia com essa família levando uma grande tropa. Tropa de cavalos e de burros carregando aquelas aqueles aquelas coisas, que eles precisavam levar pro sertão pra implantar lá os os sistemas de serraria deles. Aí, meu avô passou num num vale aonde meu pai estava com alguns dos parentes dele ainda vivendo perto de um rio que chama Pancas, é a região do Pancas, é uma região que é mais Espírito Santo do que Minas. Mas essa zona toda era um contestado, nem os mineiros, nem os “capixaba”, governava aquela área não. Aquela área ali, era uma área de conflito in intertribal ali, de confli de conflito inter entre o o a jurisdição de Minas e do Espírito Santo. Isso é uma coisa importante de entender, porque como era um lugar onde o estado não tinha presença, as pessoas tinham muito mais autonomia, eram muito mais inventivos, aprontavam pra caramba. Então, tinham os comandantes, tinham os guerreiros, era um negócio meio Guimarães Rosa, assim, parecia aquele Sertão Veredas. Quem era mais quem era mais é criativo, quem era mais brabo, quem impressionava mais por alguma razão, tinha um governo, uma governança no meio daquela gente é complexa. Porque ali tinha os índios, os Botocudos, que são meus antepassados. Do lado do meu pai, veio do lado da minha mãe, só que tanto do lado do meu pai, quanto do lado da minha mãe, ocorreu uma coisa muito chocante, as aldeias deles foram dizimadas, quando eles ainda eram jovens e esses camaradas voltaram a se encontrar muito mais tarde, constituir família de novo. Entrar em todas as as as as contendas da daquela região do contestado da dis disputa de terra, as guerras que foram feitas, aquelas pequenas guerras regionais por terras. Eles participaram de tudo isso é acompanhando. O essa segunda descoberta do Brasil. O Brasil sempre tá se descobrindo. Descobre, descobre, descobre, segunda, terceira, quinta. E o meu pai acompanhou o meu avô, ele largou o grupo dele lá no Pancas e acompanhou o meu avô, o pai da minha mãe. E aí, como ele acompanhou o vovô ele ficou vendo a mãe e os dois já se entenderam, gostaram logo um do outro e virou casamento. O o o meu pai acompanhando o meu vovô materno. Casou com minha mãe e ficou ajudando o meu vovô, ajudando ele, aprendendo coisas, fazendo roça e aprendendo coisas. E uma das coisas que meu pai aprendeu, que eu acho que ficou muito influenciou muito minha meu relacionamento, minha relação com ele, com meus outros com o mundo também. O meu pai aprendeu a ser ferreiro.

P/1 – Ferreiro?

R – Então, todo mundo que precisava, por exemplo, botar um aro de ferro numa roda dum carro de boi, era o meu pai que sabia botar o ferro lá no fogo, derreter ele assim, e fazer o aro da roda de carro de boi. Então, naquela região, naquele sertão, os cavalos que precisavam de ferradura, quem precisava consertar uma arma de fogo, fazer uma foice, fazer um facão, fazer um machado. Então, quando eu tinha, assim, uns 6 anos, 8 anos, por aí, tinha um um lugar assim, onde o meu pai tinha a forja dele, tinha o fogo e meus irmãos, mais velhos do que eu, Benjamim o Assir eles escapavam, porque meu pai botava eles pra tocar o pra puxar uma cordinha de couro, aquela cordinha de couro que ele ficava puxando assim, era um uma um fole, um instrumento assim, que fazia vento e acendia o fogo no carvão, uma forja, bem assim antiga, não sei se vocês já viram? É um objeto parecendo uma sanfona, um trem grandão.

P/1 – Já, eu já vi, um fole claro.

R – Um fole, assim, aí num será que ainda tem um fole, por aí a fora funcionando?

P/1 – Interior aí tem.

R – Aí ficava tocando o fole assim, aonde tinha o fogo, o carvão ficava acendendo. Eu quando tinha, tipo, 6 pra 8 anos de idade, eu não alcançava a cordinha, porque ela era posta pros meus irmãos mais grandes puxar. Aí meu pai botou uma pedra, uma pedra de moinho, aquelas pedras de mó. Ele botou uma pedra de moinho aqui pra eu subir em cima da pedra de moinho e puxa o fole pra ele, pra ficar acendendo o fogo lá na na oficina. Aí o ele chamava de tenda. Tinha que puxar o fole pra acender o fogo pra ele ficar mexendo na tenda. Aí ele fazia aquelas coisas com ferro e carro de boi, os aros das carroças, as ferraduras dos cavalos. Eu ficava vendo o meu pai, eu eu ajudava o meu pai naquelas coisas, eu imendar correntes de aço, aquelas correntes grandonas, que eles usavam pra arrastar as toras que vinham da da da mata pra passar pra serraria. Então, na minha infância foi vendo o meu pai é moldando coisas, fazendo ferramentas, fazendo ferros virar é faca, facão, machado. E minha mãe e minhas ir minhas primas, minhas tias, esse povo meus tios, meus parentes que conviveram, que compartilharam esse tempo da gente, do meu pai junto com meus irmãos, com minha mãe, comigo é lá no Itaberinha. Eles acompanharam essa história nossa até lá pelos 11 até quando eles “tava” com 11 anos de idade, por aí, 11, 12 anos.

P/1 – Deixa eu te fazer uma pergunta difícil. Qual é a sua primeira lembrança, assim, que você tem?

R – A minha primeira lembrança? Minha primeira lembrança é da gente é eu percebendo, assim, o lugar onde eu tava vivendo com meus parentes na beira de um um rio com barranco alto, o rio passando lá embaixo. E o lugar aonde a gente morava era o rio passava lá nos fundos do lugar aonde a gente morava, contornava aqui, assim, fazendo barrancos altos. Eu me lembro quando tinha enchente e vinha trazendo árvores. Lá em cima, aonde tinha floresta os o rio derrubava as árvores e vinha trazendo as árvores, derrubando barranco. Eu achava que aquilo era uma coisa fantástica, assim, que uma hora podia derrubar a nossa casa, levar todo mundo. Eu lembro disso é do gado passando, porque era uma rota de tropeiros e de gado. Eu lembro do gado, do assustando é o gado se assustava e os vaqueiros não conseguiam controlar o gado e aquela manada de boi saía invadindo pra todo lado, inclusive derrubavam casas, invadiam. Os bois invadiam os os lugares onde gente morava. São lembranças, que eu tenho, assim, mais antigas. E da matança dos bois.

P/1 – Ah, é?

R – Essa lembrança das matanças dos bois, assim, eu tenho ela muito forte. Ela me ela gravou muito forte na minha na minha memória, assim, é a coisa da matança dos bois. Porque nu num matava os boi os bois em lugar separado, matavam ele no meio das pessoas. Chegava numa árvore, prendia o boi e matavam o boi na árvore, assim, com um monte menino passando. Hoje eu fico imaginando, pô! Aqueles caras eram uns doidos. Matando os animais daquele jeito e as crianças ficavam totalmente Menino vendo aquela coisa toda ali, os caras matando os “boi”, matando com violência danada. Dava machadada na cabeça do boi, ou então, enfiava uma faca na cabeça do boi, depois sangrava o boi. Os meninos ali participando, alguns meninos até entravam junto pra pegar o boi ou eventualmente dando um tiro de carabina na cabeça do boi, também.

P/1 – Nossa!
R – É. Tudo quanto é tipo de crueldade. E minha infância eu convivi muito com isso que hoje eu vejo banalizado. No cotidiano, na vida das pessoas, que é isso que ganhou o título de violência. O nome. De violência. E quando eu era criança eu não ti eu não via essas coisas como violência, eu via isso como O rio trazia as árvores, derrubava tudo, saía arrebentando os barrancos, podia derrubar casa, o boi também podia derrubar casa, os homens matavam o boi, os meninos comiam o boi. Então, era tudo uma dança só, com a passagem do tempo, as pessoas começaram a me mostrar que tinha categorias de ocorrência. Que tem coisa que aquilo ali é violência, aquilo é matar o boi assim é violência é dá um tiro de carabina, essas coisas. Mas na na infância esse mundo foi muito criativo. Eu acho que ele me deu muita muito combustível pra eu ficar plantando pelo mundo.

P/1 – E você se lembra, assim, quando cê era pequenininho, você podia descrever como era o lugar que você morava? Com quem quê você morava?

R – Oh, a minha a minha vida de menino foi cheia de aventura, porque eu tava no meio dos meus é, quantos irmãos? Eu tava no meio eu tava no meio de mais 6 irmãos meus. E no meio de mais uns 50 primos, 40, 50 primos e no meio de um monte de tias e de primos. Esses camaradas todos, essa gente toda, é era como nossos “parente” mais íntimos. A gente tava tudo perto um do outro, então, a gente não tinha lugar pra dormir. Cê podia dormir em qualquer lugar, se anoitecesse cê podia dormir na casa da sua tia Preta, cê podia dormir na casa da tia Maria, você podia dormir na casa de qualquer um. Cê podia dormir na casa dos seus primos, na casa da sua mãe, na casa da sua avó, na casa dos seus tios, cê na hora de comer, se você tivesse em trânsito, no lugar que você tivesse, você podia comer ali, não era estranho comer na casa dos seus parentes, era em casa também. Os meninos de lá andava, a gente andava, nós. O dia nem bem amanhecia a gente já tava a aproveitando as primeiras luzes do dia pra gente saía plantando, pegar boi, pegar cabrito, é pegar cavalo, ir pro curral aonde pessoas estavam tirando leite das “vaca” pra beber leite na hora que tirava no cane na caneca, é imitar os adultos agarrando aqueles boizinhos pequenos, os grandes pega homens grandes pegavam bois grandes, meninos pegavam bois pequenos. Então, juntava um monte de menino, um puxava o rabo do boi o outro puxava a perna do boi e outro montava no no pequeno, no bezerro e quebrava o braço, quebrava o pescoço, rachava a cabeça, quebrava a perna e toda hora tinha um moleque arrebentado. Assim, doideira mesmo e disparava montado num cavalo sem nada. O cavalo em pêlo, sem freio, sem nada. A gente tirava embira do mato, pegava a embira ia aliciando o animal, capturava ele, enfiava aquele cabresto na boca dele, amarrava na boca dele uma embira feita de fibra de de coisas do mato e um menino jogava o outro em cima do cavalo. Porque o menino não tinha altura pra montar num cavalo. Então, ele jogava o outro em cima do cavalo, o cara se agarrava lá com aquela embira e o bicho saía voando e o moleque em cima. A possibilidade desse moleque é se arrebentá num num debaixo duma árvore, passando com o cavalo, com ele em cima ou ele ficar pendurado num pau. A gente tinha que ter essas manhas. Pendurá num pau e deixar o cavalo ir embora ou meter a cara no pau e cair no chão ou esperar o cavalo passar dentro d’água pra você cair de cima dele dentro d’água. Se ele pegava um um um uma grota daquelas e subia pra uma pedreira daquela lá fugindo com você, você tinha que encarar essas aventuras. Então, assim, a coisa mais comum era os meninos tá com uma tala de bambú. É, pegava assim, bambú. Os tios já sabiam fazer isso. Os meninos quando ficavam grande, menino grande já sabia fazer aquilo. Se você tá andando com um cara e ele quebra o braço ou a perna, cê pega a tala de bambú, pega a tala de bambú, deixa o cara bem quetinho, esticadinho, põe a tala de bambú, quebra ovo, quebra o ovo, muito ovo, gema de ovo. E põe aquela coisa aqui, assim, de gema de ovo no cara, enrola ele e põe aquelas talas e deixa ele preso lá até ele tê uma salvação mais decente, mas por enquanto a salvação é aquilo ali. É tala, é botar aquelas coisas, enxofre, azeite é o que a gente desse na cabeça. Eventualmente passava algum feiticeiro por perto e mandava a gente socar uns coquinhos num aquela uma coquinho. Tô tentando lembrar o nome dele, porque usam pra tirar o óleo fazer sabão Cutieira! Cutieira! Aí pegava a cutieira, quebrava aqueles coquinhos, juntava aquele unguento lá, batia com folhas, umas ramas mágicas, enrolava tudo aquilo no camarada pra salvar ele. Geralmente o cara cresce a geralmente o cara sarava e as vezes o cara crescia e ficava, assim, com o braço meio torto Porque o médico não costurou direito Mas esses meninos, esses meninos, que creceram junto comigo é a maioria deles é viveu assim, aventuras incríveis mesmo e alguns deles ao longo do do do período assim, da adolescência, depois jovens e virar adulto; alguns deles foram morrendo. Os que foram morrendo quando era menino, antes de virar rapaz, eles morreram de doenças é tipo é extosomose ou eles morreram de doença essa doença, como é que chama? Chagas! O cara tava com 16 anos de idade e já tava com o baço, o fígado tava com a parte do organismo dele que podia ser atacado por essas doenças da água, beber água de rio, de lagoa, que a gente bebia água de tudo quanto é lugar. A gente não tava nem aí. A gente tava fugindo dos nossos pais, dos adultos que davam alguma controlada na gente. A gente bebia água de lagoa, bebia água de qualquer lugar e essas águas que a gente bebia ia dando uma envenenadinha no cara. Se ele não tinha é nenhuma medicina doméstica que cuidava dele, ele tava frito, porque a gente não conhecia medicina essa esses recursos médicos hoje, essa parafernália de SUS, de hospitais. Eu até o jovem, até quase adulto eu não sabia o quê que era uma estrutura dessas de médico, esse aparato de hospital essa coisa toda, e muitos daqueles moços nasceram e viveram sem nunca ter ficado sabendo o quê que era uma dessas medicações é de laboratório, sem tomar nenhuma vacina. Você cresce, a vida inteira sem nunca tomar uma vacina na vida. Nem vacina pra pra esse negócio de paralisia infantil, nem vacina pra pereba, nem vacina pra nada. Então, você cresce, incara totalmente bruto. E eu me lembro que da maior parte desses meninos, os que não morreram a bala, assim. Nas guerrilhas lá do sertão é os que não morreram doente, com doenças de vida é na natureza assim mesmo, no embate da natureza. Eles cresceram e estão hoje com suas alguns deles já tem neto, outros tão com seus filhos, assim, igual a eu que tem filhos tardios. Eu tenho uns meninos pequenos e já tenho neto também e é desse tempo a lembrança mais, assim, rica talvez, que eu tenha guardado da convivência com o meu pai e e da presença do meu pai e da minha mãe super, assim, mágica e maravilhosa é naquela naquela grande aldeia, assim, dos meus primos, primas, tios, daquela parentalha toda, porque a partir desse desse tempo, que deve ter sido aí por 11 anos, 12 anos de idade a região que nós que eu nasci, que nós vivemos. Que meu pai, minha mãe, essa minha parentalha pôde viver, assim, em vida selvagem mais ou menos. Ela começou a ser colonizada de uma maneira tão violenta, que as últimas matas. As últimas árvores mesmo frondosas, que tinha na nossa região, elas foram arrancadas em carretas e eu me lembro que foi a primeira vez na minha vida que eu senti cheiro de diesel, cheiro de graxa e de diesel e eu estranhava pra caramba, eu achava muito ruim o cheiro de graxa e do diesel, porque o diesel era o combustível que os caminhão, os caminhões grandão, que entravam pra tirar nossa mata, usavam e aquilo era assim, naquele calor, aquela poeira danada, aqueles caminhões passando levando a mata embora e eu não tinha uma percepção dessa coisa de meio ambiente, desses trem assim mais complexos, mas eu sabia que aqueles caras estavam roubando alguma coisa impagável. É tirando da gente alguma coisa de valor inestimável. Hoje eu sei que eles tavam acabando com o meio ambiente, eles tavam acabando com as nossas nascentes, com as nossas águas, com os pássaros, com os bichos que eu amo. Mas na minha na minha inocência o que eu sentia é que aqueles caras eram desagradáveis, que eles fediam diesel e graxa e que aqueles caminhão eram barulhento. Aí, com essa ocupação da nossa região por empreendedores. Madeireiras, serraria, colonos, criadores de gado, fazendas, nós saímos meio expulso dessa região, foi quando a gente fez a nossa primeira migração e saímos. Meu pai, meus tios, meu avô e uma renca de netos, sobrinhos e filhos, e vieram saíram com uma intenção, assim, meio difusa de ir pro Paraná. A gente saiu , assim, achando que aquele montinho de gente ia atravessar de Minas e ia até um lugar que era Paraná, porque na época, tinha gente saindo de lá da nossa região indo pro Paraná, porque o Paraná tinha floresta, o Paraná tinha bicho, tinha muita fartura, tinha rio.

P/1 – Antes da migração eu queria só te perguntar ainda duas coisas lá

R – Aí a gente foi pra lá, a gente entrou numas de ir pro Paraná.

P/1 – Que isso aí já vai ter uma ruptura grande. Que vocês mudam. Mas antes da mudança, eu queria que você recordasse um pouquinho. Quando uma adolescente, assim, ficando mais mocinhas vocês tinham essas aventuras aí? Que você vai poder contar um pouco mais. Quando você era uma criança menor, de quê que as crianças menores brincavam?

R – Ah, as crianças menores brincavam de um monte de coisa rapaz. Uma das coisas que as crianças menores “brincava” era ficava perto do lugar aonde os mais grandes ficavam debulhando milho, tirando milho do sabugo e jogando aqueles sabugos no chão. Nós pegávamos aquele sabugo e pegava um palito, a gente ia pegava graveto de lenha enfiava o graveto no sabugo, botava perninha no sabugo pra fazer boizinho. Então, a gente fazia boizinho com o sabugo, fazia bichos com o sabugo, fazia o o a cerca com o sabugo e pegava aquelas coisinhas de mamona, aquelas bolinhas de mamona enfiando um eixo na em duas bolinhas de mamona, botando rodinha nele, pegando uma uma abóbora, alguma outra coisa. Tinha umas abóboras d’água umas sabe uma coisa parecida com essas buchas de tomar banho?

P/1 – Sei

R – Essas vegetal, aquela bucha de tomar banho, quando ela tá verde, ela é um ela é um legume. Sei lá. Ela é um legume, assim, compridinho parecendo uma abobrinha. Tinha umas dessas que era pra que depois virava bucha mesmo mas tinha umas outras eram umas pareciam umas abóboras é uma abóbora d’água que chama, umas compridinhas assim, é macia. Então, a gente furava ela com o palito, enfiava as rodinhas de mamona ali assim, e aí fazia uns inventava uns veículos super bacana. Imagina, uma abóbora voadora, uma moranga, um negócio assim. E brincando os artefatos as coisas que a gente ficava brincando assim. Hã e uma idéia mais Ah, claras! A gente vivia aprontando com os pobres dos peixes, a gente pegava a peneira, pegava a peneira, pegava balaio ía pra aqueles córreginhos e vinha um bando de moleque com varas na mão dando o maior cacete, assim, na cabeceira da água, assolando os bichinhos e os outros com o balaio ia ia re ia rede não, a peneira, uma peneira, assim, enfiada dentro d’água pegando os peixinhos. Eram lambarizinhos, piabinhas os minúsculos peixinhos, que aqueles moleques é maluquinhos agarravam ali, alguns mais exibidos ainda pegava o peixinho vivo.

P/1 – Comia?

R – E comia ele, pra mostrar com quanta vontade que ele tava de pescar e essa brincadeira de pescaria ela foi muito, muito boa. Foi muito importante, porque como tinha muitos corriguinhos, tinha muitos igarapészinhos com é com a natureza ainda. Abundante, a gente tinha o a oportunidade de tá o tempo inteiro fugindo do meio do mun um pouco, assim, do mundo dos adultos e mergulhando no mundo da da das crianças. Mundo da infância. E esse mundo da da das crianças, assim, mais independente mesmo é um mundo muito bacana, porque a gente podia tudo. A gente escutava de longe, assim, o carro de boi. O carro de boi vinha rasgando e aí a gente já ficava assim, falava assim: Vamo fugir. O carro de boi começava aquela cantiga dele assim, demorava, daqui umas duas, três horas é que ele ia passar perto ali, de onde a gente tava, mas a gente já ficava arrumando um jeito de fugir. Aí, quando podia, pulava em cima dum carro de boi daquele, se escondia. É tão maravilhoso. Menino. Porque menino acha que pode se esconder em qualquer lugar. Como é que você vai se esconder em cima de um carro de boi? Sabe? O cara do carro de boi só não via a gente, porque não queria, porque o carro de boi tava lá, assim. O carro de boi com a esteira grande, assim, de taquara, cheio de milho. Com palha e tudo. O menino achava que ele podia correr, pular no carro de boi e se esconder no carro de boi. E a gente fazia isso, a gente ía, pegava ponga no carro de boi, pendurava nele. Subia pra cima da sacaria de café, de milho ou do milho em palha mesmo e ficava lá aprontando. Viajava naquele carro de boi saía até saía mais fora da vila assim, pegando caminho já pra roça. E tem a história do menino da nossa turma que era meu primo. Edil! Ele foi a turma que pegou ponga em carro de boi, eu acho que ele era muito pequeno meio bobo assim, e todo mundo deitou em cima daqueles sacos de café que o carro de boi tava carregando gostoso. Esse menino dormiu e os outros pularam e ele foi embora. O carro de boi levou ele embora dormindo no carro de boi. Esse camarada apanhou muito quando ele foi pêgo de novo, porque o pai dele, a mãe dele, meus tios acharam que ele tava muito fujão. Mas ele, largaram ele num patrimônio, lá pra cima, e foi denunciado pra família, foi um caso grave. Então, os meninos aprontam pra caramba. Uma coisa que os meninos aprontavam, que deixava todo mundo, os adultos é em povorosa, em pânico mesmo, era quando ficava seco pra caramba, que os pastos tava tudo seco, demorava pra chover, igual a esse ano assim. Aí, os meninos metiam fogo naqueles pastos. Os meus meninos mais malucos. Mais assim, bagunceiros mesmo, eles pegavam um gato ou pegavam um cachorro, amarrava uma palha com fogo no rabo do gato ou do cachorro, dava um pau nele e ele fugia o bicho fugia pro mato espalhando fogo, espalhando fogo no pasto, espalhando fogo na roça.


P/1 – Nossa!
R – Guerrilheiros. Bom, mas a gente nunca causou nenhum dano, assim, muito chocante, a não ser esses gatos e cachorros que agente botava fogo no rabo deles. Os cavalos a gente montava neles, eles davam coice na gente, essas coisas.

P/1 – Mas quais foram os primeiros animais, assim, que você conheceu?

R – Os primeiros bichos?

P/1 – É.

R – Ah, o primeiro bicho que eu conheci foi porco, pato, galinha, cabrito, marreco, galinha de angola, paturi, aqueles pato da lagoa, pato d’água, marreco. Hã tatu, paca. Sem muita intimidade a gente ficou conhecendo o porco do mato, porque nossos pais, nossos tios traziam eles, caçavam pra trazer pra nós. Onça, aqueles pequenininhos viados do campo, viadinho do campo, quando eles conseguiam caçar. Cabrito! Carneiro não muito, carneiro eu sempre achei uns caras estranhos, mas cabrito. Cabrito subindo em pedra, aprontando pra caramba, a gente tava sempre juntos. Cachorro. Quais os outros animais? Burro, mula, tatu não é isso as as tropas, os animais de tropa eu conheci desde muito cedinho. Eu me lembro de eu dentro de um balaio, porque os os os os mula e burro são bons animais pra você carregar, botar peso em cima deles. Então, a mula, por exemplo, tem um balaio de taquara grandão assim, que fica pendurado um dum lado um outro do outro equilibrado em cima dela ali carrega numa boa. Eu me lembro que eu era bem pequeno, os nossos parentes quando iam visitar uns aos outros, nas roças, eles cançavam de controlar aqueles moleques e pegava o moleque enfiava ele dentro do balaio. Eu me lembro deu pequeno dentro dum balaio tava lá a mula andando, eu lá dentro do balaio lá. Aí, quando os meninos acordavam, dentro do balaio, os pais tinham que tirar eles de dentro do balaio, porque senão o cara podia assustar o burro ou levar um um tombo. Essa de dormir no balaio é bom pra caramba, viu? E essa de o balaio também me lembrou que no na lá em casa, eu, meus primos, essa turma da minha geração, nós não tínhamos cama. Então, quando a gente era pequenininho a gente ficava dentro de balaio mesmo. Era balaio, tinha os balaio dentro de casa. Não tinha esses objetos, esses móveis, cama. Então tinha esteira e tinha balaio e os meninos, lugar de menino ou era na esteira ou era no balaio é , principalmente menininho, nenezinho pequeno, nenezinho pequeno fica num balaio pendurado pros bicho não comer ele, porque senão vem um bicho e come. Vem um um cachorrro, um porco, algum camarada vem e come o menininho. Então, os o eu e meus irmãozinhos todos, a gente passou nossos primeiros dias de vida dentro de um balaio. O balaio bacaninha pendurado no teto, algum irmãozinho ou priminho maior chegava lá e dava um empurrão na gente, dava uma balançada. Quando a gente ficava quietinho tava tudo bem, quando chorava ia lá dava mais um empurrão, balançava a gente. Esses balaios, esses objetos, balaios era uma coisa muito manjada, todos todos os mundo que tinha menino tinha que ter balaio. Cê não podia ter menino, como é que você ía cuidar dele? Você ía ficar com eles no colo? Ou largar ele só no chão? Então, esse negócio do balaio, eu me lembro de escapar do balaio, assim, de ficar rodando pelos quintais, de empurrar o balaio depois dos meus irmãos, das minhas irmãs que nasceram depois de mim. Porque antes de mim tem uns quatro, Ruth, Benjamin, é o Assir e eu sou o quarto, é. Aí, depois de mim tem, Miriam, Miraci, o Alair, o Elier. Então, nós somos nove. Eu sou um cara no meio, assim, da turma. E eu balançava esses mais novinho, que nasceram depois de mim, no balaio. Aí, depois quando tem muitos meninos, assim, tudo meio pequeno, tem que ter vários balaios. Esses balaios são umas coisas muito bacana, porque a gente além da gente andava no balaio pendurado no burro, ficava no balaio dentro de casa e depois a gente usava esses balaio pra pegar peixe, pra pescar. Usava as as peneiras, também, pra pegar peixe, pra pescar. E uma outra coisa que a gente aprontava com esses balaios, era armadilha pra pegar passarinho. Um balaio que não era muito grande, um balaio mais assim, arrumadinho. A gente enfiava uma vara lá no pé do balaio, assim, prendia, amarrava aquela varinha lá, aí puxava a vara pra cá, levantava o balaio aqui, assim, aí tinha um cortinho, assim, na madeira, no pau que vinha lá de baixo, a gente vinha, botava uma pequena pecinha aqui do chão, prendendo no na pontinha disso aqui com uma um barbantinho, assim, amarrando aqui, no pé dela lá preso aqui assim. E botava farelo e botava coisa ali pras bombinhas, pros passarinhos lá. Aí quando os passarinhos entravam lá pra comer canjiquinha, comer coisa lá de baixo do balaio, eles batiam o a asinha ou davam uma bicadinha perto daquela forquilha, aí ela derrubava o balaio em cima deles, prendia os passarinhos. Tipo de arapuca. Acho que muita gente da minha geração que não nasceu nas cidades. No caso. Na década de 50. Eu nasci em 53. O Brasil não era a essa coisa urbana que a gente conhece hoje. Em 53 o Brasil ou nós tínhamos as capitais. Os grandes centros, assim, urbanos, centros comerciais, ou as cidades históricas. No caso de Minas você tinha Diamantina, Ouro Preto, Mariana e tal. Conceição do Mato Dentro, Santana do Riacho. Aquelas cidades coloniais. Fora daquelas cidades coloniais era o sertão e a região que eu, que meu pai. Meu avô, minha mãe, minha turma toda é teve a experiência é da infância, foi é a infância em contato com a natureza, com os ciclos da natureza. Com as tempestades, com as chuvas, com curisco. A pedra que desce do céu arrebentando tudo. E com a natureza agindo sobre a nossa memória, sobre a nossa é compreensão do mundo de uma maneira tão poderosa, que a gente tinha uma, desde pequeninino a gente ia ganhando, assim, uma marcação forte do ritmo da natureza. Do tempo das águas, do tempo da seca, do tempo das “enxente”, das inundação e tanto que os meninos botavam o fogo no na lavoura, botava fogo no pasto, botava fogo no mato seco, porque os meninos sabiam, que aquela época, era a época, que a terra, o lugar onde eles viviam, tava seco. Por isso que eles botavam fogo, não era só um uma sacanagem dos meninos de va Vamos fazer uma sacanagem. Vamô fazer uma coisa errada, assim, botar fogo. Os meninos não , nós num nós nunca pensamos que a gente tava fazendo qualquer coisa errada, a gente botava fogo no mato, porque o mato tava seco e não tem melhor coisa do que tacar fogo no mato quando ele tá seco Depois vem a chuva e depois vem a enxente. A gente tinha certeza que depois vinha a chuva. A gente tinha certeza que depois vinha a inundação, vinha enxente e tudo. Então, a gente não não preocupava de botar fogo no mato. Hoje eu fico prestando atenção, Se o menino botar fogo no mato hoje, nossa! Não! Inferno! O menino não pode mais botar fogo no mato, porque eles não tem mais mato acabaram com o mato todo. No meu tempo tinha mato e de uma geração, duas, três gerações a as as coisas que são é formadoras da da identidade, da cabeça da pessoa, do ser, mudam tanto, mas mudam tanto e eu fico olhando de quando eu era menino. Agora que meu netinho Sian que tá com 2, 3 anos ou que meu filho Kremba que tá com 6 anos é o que o que eles experimentam com relação a liberdade, a liberdade de estar na natureza, de interagir, de mexer com a com as coisas da terra e de ter a impressão do mundo, assim, sobre eles com, sabe? A natureza potente com chuva, com vento, com seca. Essa esse contato, assim, ele tá sendo cada vez mais é distante. E eu tenho o desejo, que as crianças do mundo inteiro, possam se chocar com a natureza, e não, viver separados da natureza, porque a a eu acho que enquanto a gente puder se chocar com a natureza, nós vamos continuar tendo a memória dos antigos seres humanos, que são os nossos ancestrais. Quando a gente parar de se chocar com a natureza, nós podemos continuar sendo humanos, mais nós vamos ser muito diferentes desses antigos seres humanos que a gente aprendeu a amar, a a reverenciar eles pelas coisas boas que eles significaram pra gente, que eles signifacam pra gente. Eu fico pensando isso. Eu gostaria que as crianças todas pudessem ser mais é livres. Eu, agora que eu fiquei lembrando da minha da minha infância, assim, dessa liberdade é desgovernada que a gente viveu. Eu fico olhando, hoje a criança tem obrigação de ir na escola, hoje o o menino, o seus seus pais não botar o menino na escola, os pais vão ser responsabilizados, sei lá. Vai um um cara do governo, um oficial do governo chama a atenção da família, porque não botou o menino na escola. Totalmente. Quer dizer, a possibilidade dos meninos terem esse choque com a natureza e aprender desse choque com a natureza de verdade, transcender de alguma maneira, está cada vez mais controlada pelo modelo de de cultura, de sociedade que nós estamos no mundo inteiro é adotando. Voluntariamente ou involuntariamente tá todo mundo virando civilizado. No no na terra toda, no planeta todo.

P/1 – Desse desse gancho, como é que foi a sua experiência de aprender as coisas? Você aprendia com quem?

R – Com a natureza principalmente. Eu tava falando desse negócio do choque da natureza, porque agora que eu já sou é tô mais, digamos, crescidinho e passei a enfrentar é situações novas, que eu tinha que responder essas situações é, desafios é no mundo dos adultos. Do trabalho, por exemplo, o mundo do trabalho é O quê que é o mundo do trabalho? O mundo do trabalho é uma escala grande daquilo que eu vivi do meu choque com a natureza. Tudo que a natureza me ensinou me deu potencia pra eu resolver coisas agora que eu sou um camarada mais crescidinho. Quando eu era pequeno e andava com aqueles balaios, com aquela peneira, enfiando ela assim oh, na beira da da água, subindo o o igarapé assim, nas beiras do da água tinha vegetação que caía e tampava a água. Então, eu ia por ali, assim, batendo a peneira. Os meninos lá batendo pau e espantando os bichos. Dali daqueles daquelas beiradas de barranco podia, a gente podia dar a sorte de pegar uma traira bacanona, assim, mas também, podia sair uma cobra, podia sair uma sucuri, podia sair um bicho dali. Então, a gente tava treinando nossa inteligência, a gente tava treinando a nossa capacidade pra lidar com complexidade, com desafio. Se viesse uma cobra a gente tinha que fazer alguma coisa, se viesse uma traira a gente agarrava ela. Então, a gente tava ali. E a gente ia com os pezinhos descalços. Porque, eu devo ter usado mesmo, assim, um um calçado desse que pen prende o pé, a partir de 8, 10 anos, antes disso eu não botei esses trem pra me prender meu pé, eu andava com meu pé totalmente a von no chão e usei eventualmente, porque até até jovem, assim, idade já de rapazinho eu sempre tive a maior liberdade com o meu pé. Não queria ficar prendendo ele, nós os meus eu e os meninos que cresceram comigo, crescia com o pé livre. Pé solto. Agora as pessoas vivem todo mundo com o pé preso Aí, a gente andava de pé livre. Pé livre, cabeça livre. A gente andava pisando na pedra, pisando no chão. A gente ía por dentro da água metendo o pé, assim, na no no fundo e a gente sabia se o fundo era de matéria orgânica que tava podre, de material que tava ali. Aquelas coisas que caía de folha, de mato. Se a gente tinha areia ali debaixo do pé, se era uma lage de pedra. A gente ía pegando isso tudo sensação. Era o nosso pé que ía lendo o chão pra gente. Se a gente pegava o pé e metia o pé no estrepe, assim, numa pedra, num pau que furava o pé da gente. A gente tava aprendendo, aprendendo, aprendendo, aprendendo, aprendendo. Então, nós aprendemos tateando, tateando o mundo, tateando a terra. Os bichos! Sentindo o cheiro do mato, sentindo o cheiro dos bichos. Você ía enfiando aquele balaio, aquela coisa tão é tão assim, espontâneo dos meninos, de enfiar aquele aquela peneira dentro d’água, de jogar ela pra fora, assim, pra tirar os bichos que você pescava, que pegava. Aquela aquelas práticas todas eu sinto hoje. As vezes eu tô, sei lá, tô aqui no numa reunião, numa situação di diferente na política, uma situação que eu tenho que representar a minha família, a o meu povo ou o movimento social que eu tô engajado nele, ou um interesse de um empreendimento que eu tô envolvido com ele. Eu tenho que discutir com um camarada, um executivo de uma empresa, com o Ministro, com o camarada do governo, seja quem for, mas ele tem um ponto de vista eu tenho o meu. Ali naquele momento que eu tô ali confrontando aquela situação o menino vem e me dá a mão. O menininho do balaio, da esteira tá lá, assim, pendurado, montado num burro. É aquele menininho sabido, que chega e fala: Oh, passa a peneira assim, entendeu. Vira o balaio pra lá. Dá um pulo pra trás. Cai de cabeça. Então, eu tenho certeza que esses é esses momentos que a gente pôde viver de verdadeira liberdade, onde a gente corria o risco, inclusive, de se matar. Porque eu falei com vocês que alguns dos meninos morreram. Mas o maravilhoso disso é que a gente tava tão pleno de vida, que tudo quanto injeção que a gente pegou da vida ali, potencializou a gente, pra gente viver em qualquer lugar do mundo. Eu já fui pro Japão, eu já fui pra Europa, eu já fui pros Estados Unidos, já andei pela América Latina, já andei entrei em lugares que só doidão, só guerrilha mesmo é que anda, já andei também, já fui em reunião do Banco Mundial, no Congresso Americano, na ONU, na CIA, na KGB. Já andei nesses lugares todos e pra mim não tem importância nenhuma, porque o lugar mais bacana do mundo que eu já fui mesmo, foi dentro daqueles córregos, passar peneira, enfiar balaio, andar em balaio na ca no lombo de burro. Ficar enfiando cana na engenhoca, assim, com medo da cana puxar, enfiar a mão da gente lá pra dentro. Os bois puxando engenho, a gente enfiando cana. Os nossos tios pegando aquela garapa lá, aquelas vasilhas de garapa, jogando nuns “calderão” enorme, numas fornalhas gigante, que eles botavam um monte de lenha lá pra queimar. Fazendo melado, fazendo garapa, fazendo aquelas coisas. O cheiro da daquele material todo de cana de cana moída, o cheiro de café, esse cheiro de da natureza, mudando em cada época do ano. Na época da chuva, na época das águas. Na época das águas aquilo tem um cheiro, assim, que você sente que aquele cheiro, assim, igual de ficar no colo da mãe, aquele cheiro de tá mamando, assim, na época da chuva. Aí quando tá secão, assim, você sente que aquela coisa, assim, que é um tempo que te exige mais cheiro da terra exige de você mais prontidão, exige de você, assim, dormir menos, ficar mais esperto. Então, a terra dá um imenso é um manual de vida pro menino e privar os meninos, ainda mais no comecinho da vida deles, dessa desse choque com a terra, com a natureza é de alguma maneira antecipar esses adultos, esssas futuras gerações de adultos, que eu fico é pensando, que vão ser diferentes dos antigos seres humanos que nós aprendemos a amar, que a gente escutou as histórias deles. Eles corriam mais risco, eles morriam mais. Eles não eram tão garantidos. Você não tinha certeza nenhuma se o seu pai ía ficar vivo até vê você grande. Você não tinha certeza nenhuma se o seu avô ía ficar lá, assim, velhinho. Agora nós tamô vivendo no mundo das certezas. Todo mundo põe todo mundo no seguro, bota o cachorro no seguro, a avó no seguro, papagaio no seguro, o avô no seguro e fica essa perspectiva totalmente é neutra dum choque com a com a vida. Com a terra. Eu, mas depois que eu cresci mais, assim, fui pegando, aprendendo coisa com muita gente no mundo inteiro e muito interessado em aprender as coisas dos outros, eu tenho uma curiosidade sobre os outros. Pra mim, coisa mais importante que tem depois da natureza, do choque com a natureza, é o choque com o outro, com outro ser humano. Quando menino era com os outros meninos, com as meninas, com os bichos. E quando eu fui crescendo era com os outros seres, com os outros pensamentos. Aí eu li, quando Ferreira Goulart fez aquele, quando acabou o tempo da ditadura, aquela baixaria, anistia. Aí voltaram alguns camaradas interessantes pra cá e um deles foi o Ferreira Goulart. E o Ferreira Goulart quando voltou do exílio, ele publicou um trabalho lindo, que ele deve ter feito no tempo que ele tava exilado, que chamava: Dentro da noite veloz, Poema Sujo.

P/1 – Poema Sujo.

R – É, Poema Sujo.

P/1 – Lindo.

R – E Dentro da Noite veloz foi depois. Não é isso?

P/1 – É ele fez o Poema Sujo no exílio em Buenos Aires.

R – É, você leu? Você lembra?

P/1 – Lembro, maravilhoso.

R – Que ele fala dessa coisa dos meninos e depois de ver o mundo. Em São Luiz do Maranhão. Aí vai falando das coisas, da rua, do quintal. Aí quando eu li aquilo, eu falei: Será que todas as pessoas que viveram no tempo que eu vivi ou um pouco, aquele período ali de mudanças. Porque ho hoje o tempo tá tão, assim, cronometado cro cronometrado, que uma semana faz diferença, um mês faz diferença. Só que eu tô falando dum tempo em que eu posso dizer que eu era, do tempo do Ferreira Goulart, porque no tempo dele e no meu tempo, esse tempo que eu me me ligo a ele afetivamente. Ele era um tempo elástico, um tempo onde as pessoas podiam ser um do tempo do outro mesmo com diferença de 20, 30, 40 anos. Porque era um tempo elástico, agora não dá mais. Desse tempo folgado, que uma pessoa de 20, que um cara que nasceu 20 anos depois de você do seu tempo, num tem mais. Porque os menininhos com 4, 5 anos de idade já são capturados já por quatro paredes, enfiado em algum sistema de controle e ele não pode levar, ele não pode botar a mão num poraquê, assim, que é um peixe elétrico e levar um choque, ele não pode levar uma mordida de cobra, ele não pode levar uma picada de aranha. Então, essas possibilidades da gente é se chocar com a natureza, eu acho que é o registro mais é forte que eu fiquei da minha infância. Eu podia descrever coisas da infância, assim, descrever coisas que me passou na infância, mas eu acho que a descrição do do, o evento que aconteceu, ele tem importância simbólica. Agora, profundamente importante mesmo é o que ele deixou em mim. Porque a minha alma traduziu aquele evento. Quando alguém quebrou o braço perto de mim, quando o menino rachou a cabaça do outro, quando ele dormiu no carro de boi, quando a gente ía pegar os bichos, ou então, quando eu fui pegar peguei uma vara, assim. Tá lá, natureza não é égua. Meu irmão ganhou uma potrinha linda e aí ele botou o nome dela de Natureza, aí Natureza criou, ficou linda. Natureza, aquela éguona bonita comendo lá e aí os meninos corta ”cascaram” milho, jogaram aquele monte de palha, ela ficou lá comendo sabugo. Aí eu vi que tinha um monte de palha embaixo de onde ela tava, assim, aí eu peguei uma vara e fui puxar as palhas, igual puxa com rastelo, puxar as palhas de baixo dela. Ela deu um sinal pra mim que não tinha gostado, que ela balançou o rabo, assim, tipo espantando mosquito. Aí eu passei a vara de novo ela não teve dúvida, ela me meteu um coice cara bem aqui na boca do meu estômago. Ela tinha tanta força, lindona, fortona, o carinha, assim, aquele aquele sacizinho subiu, sem ar, sem nada Eu ficava querendo saber se eu ía morrer ou não. Aí caí lá. Aí todo mundo foi me socorrer. Carregar, dar água e tudo. Mas um coice bem dado, assim, no estômago, de um animal com saúde, legalzão, rapaz! É bom pra matar o moleque. Então que eu aprendi? Que minha alma capturou, daquele da natureza tão linda? Ela é amiga. Não é minha inimiga, que ela fez comigo? É igual uma mãe, a mãe pega e vai no pé do ouvido do filho. Hoje não pode, o juizado de menor vá vá vá não pode. Não bate no menino Não, quê é isso! Cara batendo no menino. Oh, o vizinho dele falou, escutou, ele puxou a orelha do menino. Tem um bando de débil mental por aí dizendo que criança não pode apanhar. A natureza me deu um coice na boca do estômago e me ensinou muito mais do que alguns anos de escola, de curso, de treinamento, workshop, oficina e outras asneiras que você pôde inventar. Com um coice ela me deu um grau freou a dar um um bom tempo da minha vida em chegar vivo aos quase 54 anos de idade, porque dia 29 de setembro é meu aniversário. Eu vou completar 54 anos e quanto mais eu consigo a contactar essa memória, eu brigo com as outras mais antigas, que são o que eu que eu reverencio, que são a memória, que é essa memória dos nossos antepassados aí eu vou é viajando, viajando e entrando nos mananciais de de visões e e presentes que são essas histórias antigas, que são as visões que os nossos avôs, que os nossos bisavôs, que os nosso antepassados deixaram pra gente. Aí é muito legal. Porque o o o igarapé que aquele menino bate peneira, ele tá ligado com o rio de memória muito grande, que é o rio de memória que os mais velhos foram é contando pra gente, compartilhando com a gente, ensinando. Os modelos, sabe? Resolução de coisas. Quando eu pensei o Memorial, por exemplo, o Memorial não é uma coisa que eu inventei. O Memorial, eu acho, que quando eu tava passando balaio no no no nos córreghinho junto com os meninos, eu e os meninos já tavam testando, testando. Há um há um tempo atrás, quando eu tava com uns vinte e pouco, trinta anos de idade eu tive contato com essa coisa de idéia de tecnologias. As diferentes tecnologias. Aí eu, naquela época eu fiquei pensando que eu queria muito fazer alguma coisa com relação as tecnologias tradicionais. Ainda nem tinha esse negócio de desenvolvimento sustentável, não era uma coisa tão assim, difundida. Mas na minha cabeça eu fui ficava pensando, assim? Aquele tanto de intrumentos, de coisas, que eu vivi na minha infância, que eu via todo mundo resolvia, as pessoas resolviam tudo, assim. Tinha comida, tinha garapa, tinha rapadura, tinha bebida, tinha aquelas farturas todas. Com aqueles engenhos simples, aquelas coisas que eles faziam de madeira, faziam de pedra. O moinho, o moinho d’água lá, a pedra triturando o milho, aquela coisa. Será que as crianças hoje sabe? Que com uma roda d’água, uma engenhoca com pedras friccionando uma com a outra tira farelo, tira fubá, tira milho, tira tira coisa pra ele é. Processa a o milho, processa outros produtos que ele pode usar. Então eu via tudo isso, eu ficava pensando: Eu queria fazer alguma coisa pra essas tecnologias tradicionais, ter ainda funcionalidade, ter função e ficar em lugares onde as as crianças, onde as pessoas pudessem chegar e ver essas coisas, como uma espécie de uma memória, assim. Isso é uma coisa que eu pensei há muito tempo atrás e não rolou, não tive tempo, fui fazer outras coisas. Aí agora, com a com a parábola. Do tempo passando, assim, você vai costurando as coisas, eu o caminho que eu vim fazendo, as pessoas que eu juntei, que se juntaram em torno de mim, que eu me juntei na ciranda deles e fomos andando junto é me deram elementos pra eu pensar nessa coisa de levantar um lugar onde essas histórias podem acontecer e onde isso pode ter uma animação em torno disso, e eu acho que lá no na infância batendo balaio é lá. Quando Vevéco tava conversando comigo, que ele ficava perguntando pra mim, mas Vevéco maravilhoso, ele é capaz de passar um dia inteiro, uma tarde inteira sem mudar de assunto. Querendo é entender quê que a gente ía fazer dentro desse Memorial. Aí ele gostava de cozinhar. Aí ele falou: E comida? Não vai ter? Não vai ter cozinha? Ele falava: Não vai ter? Tem que ter uma cozinha. Ah, claro que tem que ter uma cozinha. Ele falou: Mas a gente faz cozinha igual índio? Faz cozinha lá fora? Porque índio faz cozinha lá fora. A gente tem aqui a oca dele e a cozinha lá fora, é um tapiri, que faz lá fora, no giral. Aí eu falei: É Vevéco, a gente podia, tem as malocas grandes lá fora, a gente podia deixar lá perto daquelas malocas um lugar lá pra fazer esses tapiri aí pra cozinhar. E mas lá dentro também, a gente podia arrumar um lugar bacana, Vevéco? Porque, aí você, a sua turma, que que vai lá pro festival de...
P/1 – Tiradentes.

R – É, de Tiradentes. Fazer aqueles pratos incríveis. A gente podia fazer um forninho daqueles de barro e tal, ele: Não, nós vamos fazer e tal. Ficava conversando essas coisas.

P/1 – Ailton eu tô achando o seguinte, que pra primeiro tempo de conversa tá muito legal, eu já vi que o segundo vai ser essa longa jornada. Você vai contar essa história da migração de vocês. E mas que pra nós aqui já valeu muito. Foi uma grande viagem.

R – Que bom! Eu não sabia como que a gente ía fazer isso. Eu gostei de vocês me darem alguma, algum rumo, porque eu fiquei pensando assim: eu quero fazer isso lá no Memorial. Eu ficava pensando: Será que a gente vai deixar a pessoa assim, ele chega lá, ele fala sozinho ou tem que ter alguém que fica conversando com ele? E no fundo, no fundo é. Eu acho que essa coisa do gravar com os mais velhos, gravar com as pessoas. Eu não sei por quê, que eu acho, que mais eu tenho mais interesse em gravar com os mais velhos do que em gravar com os mais novos. Eu não sei por quê.

P/1 – Hã, hã. Claro, claro.

R – Porque eu fiquei pensando: Será que eu é quê tô com essa mania de querer gravar com os mais velhos? Em vez de gravar com o novo também? Mas eu fico assim, apaixonado, é pelo que eu ouço dos velhos. Quando eles começam. Esse negócio deles começar a me contar uma história, ele entra num outro numa outra onda, assim, aí ele vai, daí a pouco ele tá falando uma outra língua, num outro lugar, num outro planeta. Eu tô lá atrás com ele. Eu fico achando maravilhoso é aquilo, porque eles tiram a gente do do lugar. Quando eles tiram a gente do lugar e leva pra outro lugar, essa aventura é que é maravilhosa.

P/1 – Pois é. É porque como eles já tão navegando aí nesse grande rio na memória, só tem que tá ali pra dá uma puxadinha ali ou outra, mas a conversa é deles.

R – Olha aquele ali. Só você dá um toquinho.

P/1 – É. Porque não pode ser aquela coisa só do jornalista, que fica perguntando, perguntando, perguntando. Muda de assunto o tempo todo e...

R – Deixa ele falar.

P/2 – É muito mais ouvir, saber ouvir.

R – Olha, é tão maravilhoso isso é o estudo que eu venho tenho feito sobre memória, assim, é dessas desses rios de memória, que eu tava percebendo uma coisa que é o seguinte. É eu tenho um trabalho de rotina, junto com o governo do estado lá em Minas e, uma interlocução que eu tenho muito permanente, é com o pessoal da saúde, os profissionais de saúde, que trabalham junto comigo nas aldeias. E ano passado a gente fez um encontro só de Pajé, de curandeira, de parteira. Pegamos as parteiras, pegamos as pessoas, assim, aqueles raizeiros que nin nem na aldeia os outros não falavam que ele era raizeiro, que ele é na moita. Aí juntamô essa turma, assim, com o maior cuidado, assim, convidamô eles pra gente juntar e tal. E ficamô conversando, conversando e aí a gente foi percebendo algumas coisas. Algumas receitas, algumas práticas muito ancestral, muito antiga, você se você fizer uma investigação pra descobrir, como é que aquilo é transmitido? Você vai ter dificuldade. O canal. Porque a eu acho que quando você não presta atenção, você faz. Não tá tudo aí. É só prestar atenção, mas não é não. Tem uns canais, tem uns uns umas mágicas de passar aquelas coisas, porque a gente tava observando, por exemplo. Nu na mesma tribo, na mesma aldeia, tem aquelas família dali, aquelas família daqui. Aí alguém de fora pode achar que ali tem um conhecimento assim. Tem um conhecimento ali assim difuso sobre, por exemplo, plantas. Aí você chega nos véio” fala assim: Essa planta aqui, pra quê que serve? Aí ele te dá uma lista de coisas que ele sabe que aquela planta serve. Aí você pega um outro camarada, que é mais ou menos da mesma idade dele, só que mora lá naquela outra grota lá, ainda que da mesma tribo, pergunta pra ele, ele te dá uma lista totalmente diferente da que ele te deu. Aí você pensa: Uaí, será que esses caras é tão me enrolando? Não! É que aquele cara sabe que aquela planta é boa pra aquilo. Ele sabe que aquela planta é boa pra aquele outro, mas eles dois não juntam receita e não trocam receita. E quando ele for ensinar. Quando o Zé for ensinar, não vai ensinar pro filho daquele cara. Aquele cara vai ensinar pro filho dele, pro sobrinho dele. O Zé vai ensinar pro filho dele, pro sobrinho dele. Não tem esse negócio de você espalhar.

P/1 - E como é quê é quando isso apareceu quando juntou esses antigos conversando?

R - No começo ninguém falava nada. Ficou todo mundo, na tocaia um com o outro assim. É igual uma reunião de feiticeiro, você entendeu? Numa reunião de feiticeiro ninguém fala nada. Porque senão eles vão descobrir que você é feiticeiro. Aí a gente fica lá. Tem algum feiticeiro aí? Quem for feiticeiro levanta o braço. Entendeu? Aí então, aí eu tenho umas coisa, que eu fui sacando sobre esse negócio da memória, que foi me pegando, sou apaixonado por essa história.

P/2 – O que você define como rio de memória? Só pra gente acabar.

R – É uma imagem é , que eu é busco, pra é poder nomear aquele corpo. Um corpo, um verdadeiro corpo e material de memória, de potência assim, com registros que ligam esse choque da natureza com essa memória humana. Os seres humanos, independente da sua tribo, da sua cultura, compartilham uma memória, uma ima imagina um grande rio onde águas de vários lugares, a água da chuva, a água dos igarapés, a água das nascentes, a água dele mesmo, dos lagos vai se é integrando, vai se rolando, vai fazendo fluxo. Esse grande rio é o a experiência que pode. Ser é percebida nesses processos que a humanidade viveu até hoje, e que a despeito de todas as desgraças que a gente viveu, de guerra, matança. Que a história da humanidade é a história da matança. E apesar de tudo isso, esse rio de mamória sobrevive, passa por essas é desgraças todas e preserva pra esse momento que nós estamos vivendo a possibilidade de eu estar falando com você, de tá falando com o Zé, da gente tá conversando aqui, sabendo que tudo que a gente tá dizendo um pro outro o outro tá entendendo. Só tem essa, eu acho que só é possível isso, porque esse rio de memória, ele é tão poderoso, que ele é permite que a gente se entenda nesse nesse instante. Não é nem no futuro, nem no passado, entende? Não é nem no futuro, nem no passado, não é alguma coisa pro futuro, não é alguma coisa pro passado é essa possibilidade da gente ser, reconhecer de comunicar um ao outro. Já me lembrei desse negócio do passado e do futuro, porque tinha a ver com esse sentimento. Há um tempo, até uns dois, três anos atrás, veio um índio é Maia de lá da Guatemala, participar de um encontro que nós fizemos aqui no Brasil sobre sociedade da informação. Eram os índios da América Latina discutindo essas novas tecnologias e como é que agente ía se virar com elas. Se a gente ía se escondê delas ou se a gente ía agarrar elas. Aí esse parente, esse rapaz, cara já assim maduro, ele participou lá na Guatemala, que eles viveram muita guerra civil, muita coisa, ele tava participando de um grupo de pessoas que tavam trabalhando pra pacificar a sociedade. Esquadrão da morte, aquelas coisas nojentas tudo, ainda tava muito assim, ainda tem lá. Cortar a cabeça, tudo. Aí eles tavam é fazendo intervenção. Pra acalmar esse ambiente. E a gente sabe que a ONU, esses outros organismos, esses caras todos, eles tem os instrumentos deles. Tá rolando o maior cacete lá no Oriente Médio, eles mandam lá os a missão da da ONU, o soldado, não sei o que, ajuda humanitária e tal. Mas os Maia tem outros rios. Bebem em outros rios, ancestrais e tudo. Então, eles tem uns trabalhos pra lidar com essas coisas, que só pode só pode ser feito, porque eles tem ainda essa

P/1 – Mas Ailton, muito obrigado por esse primeiro tempo, e vamos fazer outro

R – Ah, maravilha. Obrigado de vocês terem me pro proporcionado essa vinda, lá das montanhas, pra encontrar com vocês aqui hoje e eu vou ver se agora de tarde eu consigo ver uma turminha.


FONTE: http://www.museudapessoa.net/MuseuVirtual/hmdepoente/depoimentoDepoente.do?action=ver&idDepoenteHome=11209&key=6135&forward=HOME_DEPOIMENTO_VER_GERAL&tipo=&pager.offset=5