quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ailton Krenak recebe título de professor Honoris Causa na Federal de Juiz de Fora




UFJF concede título de professor Honoris Causa a Ailton Krenak

A Universidade Federal de Juiz de Fora vai conceder, na próxima quinta-feira, dia 18, o título de professor Honoris Causa a Ailton Krenak, uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro. Krenak vem trabalhando junto à UFJF desde 2014 em diversas atividades, com destaque para o Curso de Especialização “Cultura e História dos Povos Indígenas” e a disciplina “Artes e ofícios dos saberes tradicionais”.

“Embora esse reconhecimento tenha chegado junto com os meus 63 anos, é um ponto de partida, não de chegada. Este é um movimento para descolonizar a UFJF, abrir janelas para outros saberes e passá-los adiante”, diz Krenak, que é ambientalista, escritor e coordenador da Rede Povos da Floresta, dentre inúmeras outras ações voltadas para a agregação e união dos povos indígenas e dos povos da floresta.

A UFJF é a primeira universidade a outorgar esta titulação a um mestre do Movimento Encontro de Saberes, projeto nacional que tem o objetivo de levar à academia conhecimentos tradicionais. “Vejo como um privilégio para a Universidade a oportunidade de conceder essa honraria a Ailton Krenak, cujo trabalho tem alcance e relevância internacional. Começamos por uma pessoa que não deixa dúvidas quanto à sua capacidade e competência”, diz o coordenador do curso “Cultura e História dos Povos Indígenas” e das disciplinas do Encontro de Saberes na UFJF, Daniel Pimenta.
Como líder indígena, Krenak espera que a decisão da UFJF abra caminho para a ampliação do conhecimento também em outras instituições de ensino. “A UFJF avança com um sinal importante para outras universidades, especialmente as públicas, acerca da importância de integrar conhecimentos que não são os dos cânones ocidentais que orientaram até hoje a história brasileira. Diferentes saberes estão sendo integrados como recursos, e isso é fundamental”, diz, destacando que trata-se de um ganho coletivo. “Sempre ouvi comentários preconceituosos, mas um grande contingente da população à margem da leitura e da escrita é portador de conhecimento. Hoje a universidade se abre para outras formas do saber e fico feliz por fazer parte disso. É uma vitória coletiva não só dos indígenas, mas de outras culturas da oralidade e da memória.”

O título

O título de professor Honoris Causa é concedido pela UFJF a personalidades, nacionais ou estrangeiras, cujas atividades, publicações ou descobertas tenham contribuído para o progresso da educação, das ciências, das letras e das artes. O processo para outorga da honraria a Ailton Krenak foi iniciado no Departamento de Botânica, passou pelo Instituto de Ciências Biológicas e foi, em seguida, aprovado também pelo Conselho Superior (Consu). A entrega do título será feita em sessão solene, às 19h desta quinta-feira, no Mamm. O evento é aberto ao público.



FONTE: http://jornalggn.com.br/

segunda-feira, 13 de abril de 2015

“Se o bicho avançar, vamos encarar de pé”, diz Ailton Krenak

Principal líder do movimento indígena nos anos 1980 fala sobre o desafio atual para evitar o retrocesso dos direitos e o avanço dos interesses antiindígenas
por Felipe Milanez — publicado 10/04/2015



Ailton Krenak é um dos mais destacados intelectuais do Brasil, principalmente no que se refere ao sentido pós-colonial das formas de pensar o mundo. Foi a liderança central na luta indígena dos anos 1980 que culminou com a garantia de direitos fundamentais estabelecidos na Constituição Federal de 1988 – momento em que pronunciou um discurso histórico na tribuna do Congresso, que integra o belo filme Índio Cidadão, de Rodrigo Siqueira. Sendo um dos fundadores da União das Nações Indígenas e a Aliança dos Povos da Floresta, além do Núcleo de Cultura Indígena, o Programa de Índio, e diversas iniciativas de luta pan-indígenas.

Estive com Ailton, em janeiro, no Rio, numa roda de conversas junto do indigenista Vincent Carelli e da antropóloga Betty Mindlin, em um programa dirigido por Marco Altberg que se chama Índios em Movimento, e que deve estrear no segundo semestre no SescTV. Para mim, foi um momento especial de aprendizado junto a pessoas que admiro muito.

Ano Passado, também no Rio, Ailton foi um dos palestrantes do prestigioso seminário internacional Os Mil Nomes de Gaia, organizado pelo antropólogo do Museu Nacional, Eduardo Viveiros de Castro, e a filosofa da PUC/Rio, Deborah Danowski.

Nessa próxima semana em que acontece a Mobilização Nacional Indígena (de 13 a 16 de abril, convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib) Ailton vai lançar um livro da coleção Encontros, da Azougue Editorial, com apresentação de Viveiros de Castro, que reúne diversas entrevistas concedidas ao longo de sua vida, entre 1984 e 2013, e organizadas pelo editor Sérgio Cohn, e inclui o belo discurso no Congresso em 1987 (Ailton Krenak / organização Sérgio Cohn. Encontros. Azougue Editorial, 264 p., R$ 36,00, disponível na loja da editora no facebook). Sobre a obra, que considero imperdível e uma das grandes publicações do ano, escreve Viveiros de Castro: “Ailton empreende um análise fulminante dos esquemas de invasão da Amazônia, desde os negros tempos da ditadura civil-militar até os tristes anos da presidência Dilma Rousseff”

Nesse depoimento abaixo, concedido numa conversa por telefone, Ailton fala da importância dos xamãs, das trajetórias de lutas das grandes lideranças, dos bichos mágicos e assustadores que são os ruralistas e as grandes mineradoras, e do bem comum e do bem viver como formas de luta e de esperança.

Depoimento

1: A memória dos antigos que estão morrendo: são indivíduos, mas sujeitos coletivos

Incomoda a gente sentir que vamos perdendo pessoas cuja memória depende da tradição de oralidade. Eles partem não deixam muita coisa de referência para a gente conhecer o pensamento deles. São como as árvores no outono; as folhas vão caindo e a gente fica frustrado com as perdas.

Por outro lado, hoje há a nova geração. Essas pessoas estão transitando para a escrita, estão começando a publicar, a escrever. Mas ainda não tenho uma ideia do que vai sobrar daqueles que estamos perdendo. Me pergunto o que é que vamos herdar desses seres que cantam, seres que são mágicos, pessoas com a visão magica do mundo e que alimentam nossa esperança.

Aniceto Tsudzawere Xavante, Payaré Gavião, Geraldino Rikbatsa, Mro’ô e Kañon Kayapó, esses são alguns que perdemos mais recentemente. No entanto, mais longe, tivemos o querido Marçal de Souza Tupa’i, assassinado em 1983 na porta da sua casa. Mesmo quando a gente lembra dele, a gente tem poucas coisas que ficaram registradas de seu pensamento. O que ele anteviu na sua luta, é o que os guarani estão vivendo hoje.

Parecia que o Marçal era uma pessoa fora do tempo dele, principalmente com relação à questão fundiária. Nem os guarani, naquela época, colocavam essa questão de terra dessa maneira, não havia essa demanda da terra há 40 anos atrás, isso foi se construindo mais recente, nos últimos 20, 30 anos, até se configurar nessa situação trágica do xeque mate dos ruralistas no Mato Grosso do Sul. E o Marçal já imaginava que, do jeito que a coisa estava, iria chegar uma hora em que eles iriam estar encurralados da maneira como estão hoje. Ele não iria arriscar a vida dele se não estivesse já, no início dos anos 1980, não estivesse antevendo esses perigos todos para seu povo.

Outra pessoa que me vem na memória é o Mario Dzururã, o Juruna. A visão dele de sair daquela vida que tinha na aldeia para se meter nessa confusão que é a politica brasileira, a atração que sentiu para ter essa experiência no Congresso Nacional. E, desde então, a gente não conseguiu em nada se aproximar daquele momento. Não houve uma evolução daquele quadro com relação à presença indígena na cena política. O lugar que os índios puderam ocupar no debate politico ficou parecendo um apêndice da realidade politica. Uma via paralela. Se alguma novidade foi produzida, foi no sentido de ter o desejo de se descolar da tutela. Mas para o Juruna isso não era mais um problema, para ele a questão da tutela já estava superada.

Tanto o Marçal, quanto o Juruna, um na questão da terra, outro na cidadania, foram dois grandes exemplos de pensadores que não deixaram muitas anotação sobre suas ideias. Eles foram, partiram, e puxaram uma fila de grandes lideranças que foram sem que tivesse ficado registrado uma parte importante de seus pensamentos. E a cada década a gente tem perdido essas possibilidades.

Eu acho que há uma necessidade de se fazer biografia dessas pessoas. Se eu me sentisse capaz de me dedicar a um trabalho desses, faria isso.

Vai sair por uma editora de Belo Horizonte um pequeno trabalho que me dediquei a fazer, mais focado família, contando histórias da vovó Laurita. É ela quem puxa a nossa visão de mundo, a história da trajetória dos Krenak até agora, nesse tempo que estamos vivendo. Vai se chamar O Livro da Vovó Laurita. A narrativa é ela contando histórias para os filhos. Nesse caminho deu até para voltar lá naquele decreto de guerra do extermínio aos botocudos do D João VI, no início dos 1800. Mostra um pouco como os Krenak de hoje são os sobreviventes da guerra do século XIX, passaram o século XX se reconstituindo, e estão agora, na sexta ou na oitava geração de pessoas interagindo com os colonos, os municípios, as vilas, a mineração.

Através da trajetória dessas pessoas a gente conta a história de vida desses sujeitos, mas também de seu grupo e do contexto que eles viveram e tiveram que se reorganizar para viver a vida. O choque de encontrar com os colonos, o choque de perder língua, de perder espaço inteiros da sua visão de mundo, compartilhar a visão de mundo com outras culturas, e todos os conflitos decorrentes disso. As biografias são fundamentais para a gente continuar tendo a presença desses indivíduos coletivos. Digo coletivos porque eles não viveram para eles sozinhos, mas para suas famílias, seus povos. Não são histórias e memórias de indivíduos, mas de coletivos.

Nesse sentido, quando falamos do Payaré, estamos falando dos Gavião da Montanha, como se descolou dos outros grupos, as escolhas para sobreviver, quando ficaram só ele, a sua mãe e alguns primos. O caso dos grupos que ficam apenas com algumas dezenas de pessoas para abrir caminho para o mundo. O risco de extinção que enfrentam. São temas muito fortes.

2: Sobre o atual momento de luta: cantar, dançar e suspender o céu.

Eu não quero ficar travado nessa engrenagem que estão passando por aí. Se a gente sabe que essa pressão tem conexão com tudo que esta acontecendo no mundo, na economia, esse aspecto macro, também penso que a política não teve criatividade de sair dessa roda, está subordinada ao mercado. Eu prefiro olhar para a janela que me inspirou no encontro que o Eduardo Viveiros de Castro e a Deborah Danowski fizeram no rio, Os Mil Nomes de Gaia. Lá, os colegas estavam olhando para a perspectiva do fim de mundo. Essa coisa que acaçapa o pensamento de muita gente, de que estamos no fim da picada. Para mim, ainda existem visões de mundo que cantam e dançam para suspender o céu. Quando o céu esta fazendo uma pressão muito grande sobre o mundo, uma parte desses humanos está cantando e dançando para suspender o céu. Se não fizerem isso, a pressão fica demais para nossa cabeça e ficamos sem saída. Eu não aceito o xeque-mate, fim do mundo ou fim da historia. Esse momento difícil para mim é quando eu mais evoco esse pensamento: cantar, dançar e suspender o céu.

Estive semana passada junto dos Yawanawá, la no Acre. Lá no terreiro, com os dois velhos pajés, o Yawá e o Tatá, e ao lado, aquela geração linda de meninas e meninos crescendo na floresta, vendo isso a gente consegue despachar esse fantasma da assombração econômica para longe. É como se a gente pudesse habitar outros mundos.

Não quero com isso negar a nossa solidariedade e corresponsabilidade com o que esta acontecendo com o mundo real. Mas a gente não precisa ser prisioneiro dessa visão fechada a ponto de não ter mobilidade. Mas ter uma visão equidistante. Saber que é possível avistar outras terras. Senão, a gente parece que está enfiado num tubo.

Essa utopia é o que me anima.

Não posso viver de uma maneira de que eu falo uma coisa e vivo outra realidade, digo uma coisa e vivo outra. Tem que haver uma harmonia entre o que eu vivo no cotidiano, e o que eu falo faço com as outras pessoas. Essa sintonia é para mim saúde. Significa a frase que muita gente tem falado: o bem viver. Para mi, isso tem que ser o bem viver.

Bem viver não depende de um monte de bugiganga que se adquire no mercado. Deve estar apoiado num fundamento próprio de uma visão de mundo que se herda de algum coletivo. No nosso caso, é a comunidade, povo, família. E as demandas da comunidade. Se a demanda é pelo território que está sendo predado, a água poluída, isso me incomoda. Mas eu não vou deixar esse ataque insidioso tirar a beleza de cada dia que amanhece, faça sol ou faça chuva. No meu caso, tem um menino aqui em casa, meu filho, que me diz todo dia: pai, levanta que o dia esta lindo lá fora. Ele fala isso mesmo quando chove, ou quando tá sol. Ta um sol lindo, ou tá uma chuva linda lá fora. Uma chamada dessas do filhotinho é a coisa mais importante para mim.

3: A ideia do bem viver

O conceito do bem viver chegou para gente principalmente pela experiência do Evo Morales, na Bolivia, e dos parentes Quechua, no Equador, que começaram a difundir em diferentes meios, colocaram nas constituições deles, uma visão de mundo que não esta subordinada ao mercado, às logicas do mundo financeiro, de ficar vendendo a terra para pagar divida de ontem. A lógica de vender a terra hoje para pagar a divida de ontem; trabalhar hoje para pagar o que comeu ontem. Nem ficar preso nessa besteira de que precisamos de tanta coisa para sobreviver que o século XX enfiou na cabeça.

A ideia que me atrai na mensagem do bem viver é a de se tirar do lugar onde está, seja do sítio, da gleba, da horta, o que é necessário para viver, comer, ter saúde. As relações serem suficientemente caras para não ficar doente de tanto conflito, conflitos internos e com as pessoas com quem convive. Independente de onde estiver, fazer exercício de autonomia, não criar tantas dependências. As relações não podem virar dependência. Se relacionar por autonomias. Essa ideia pode parecer uma coisa muito difícil de experimentar e de compartilhar com um número muito grande de pessoas, parece uma coisa que só pode acontecer em pequenos coletivos. Mas não é a ideia de ecovila, não é a ideia de ficar numa ilha separada no mundo. É diferente: pode interagir com o mundo, mas não precisa ficar subordinado a essa lógica que domina tudo, a lógica do mercado.

Tem gente que se preocupa quando lê, quando acorda, que o mercado esta nervoso. Ora, foda-se o mercado. Mas tem gente que tem infarto quando escuta alguém dizendo que o mercado esta nervoso. A expressão objetiva desse mercado nervoso são as petroleiras, mineradoras, as corporações invadindo tudo. É um bicho que se expressa nessas formas todas.

Se o bicho vier avançar nos nossos territórios, vamos encarar de pé.

4. Os extrativismos predatórios: o monstro

A prática que vem construindo desde da segunda-guerra mundial para cá, de que o mundo foi concebido de que está tudo dominado e tem que entrar nesse esquema, constrói uma visão tão abrangente que é como se não tivesse saída no mundo para além das corporações e engenharias. Essa é uma lógica que é constantemente atualizadas para sugar o planeta.

Acontece que do outro lado ainda tem gente que acha que a terra é a nossa mãe. Essa violência e essa agressão incide sobre um corpo vivo, que respira, que ama, que tem sentimento. E seus filhos, que são essa gente espalhada mundo afora, não querem ver sua mãe esquartejada, na forma de grandes buracos na terra, ou de rastelos rastelando todas as áreas possíveis, que chamam de agriculturáveis. Esses, esquadrinharam o planeta inteiro onde o extrativismo pode sacar alguma coisa, e espalharam gerência mundo afora para garantir que o suprimento está sempre no fluxo certo. Mas tem que gente que não quer isso. Eu não quero isso. E conheço milhares que não querem. Milhares que se expressam de diversas maneiras para dizer que não querem. Muitos pagam com a própria vida. Os que estão mais expostos, nos lugares onde a violência que não tem nenhum controle, são simplesmente mortos.

Essa imagem do monstro, do bicho que é o extrativismo predatório, dessa mineração, desse agronegócio, pode ser uma coisa cheia de significado mágico. Mas na verdade é isso mesmo. E a gente tem que ser capaz de enfrentar e brigar com esse bicho.

5: O ataque aos direitos dos povos indígenas

Percebi que esse ataque massivo que está acontecendo é porque perderam o instrumental que estava na mão deles. Perderam o que acharam que estava seguro. E nós conseguimos avançar, pelo menos na formalidade, na garantia desses direitos. Se temos uma boa legislação ambiental e direitos sociais, é porque avançamos em 1988. Como se esse pessoal da direita tivessem cochilados e acordaram agora, acordaram nervosos e querem morder todo mundo que está na frente. Certamente, eles queriam ter evitado isso 30 anos atrás. Não conseguiram, e esperaram.

Hoje temos uma lista de PECs, diferentes propostas de emendas à Constituição que desembocam na PEC-215, todas visando retirar direitos da Constituição Federal que foi chamada de cidadã por Ulisses Guimarães. Esta conspiração contra os direitos sociais é o único motivo de a direita ter formado maioria no Congresso, juntando os interesses mais escusos numa mesma frente golpista. Querem mesmo é rasgar a CF.

Parece que a direita no mundo inteiro é assim. Quando sentem que há uma conjuntura favorável, eles saem arrasando a terra. Até que se estabelecem, florescem, e dominam tudo.

A gente também tem que ter capacidade de avaliar o momento que estamos vivendo para fazer o contraponto. Se estamos sendo atacados, temos que nos defender. E avançar para cima dos territórios que eles acham que estão dominando.

Uma virada seria limitar as áreas aonde o agronegócio pode atuar. Nós não queremos acabar com eles, acabar com o agronegócio, isso não faz sentido. Mas eles também não podem acabar com a gente, como estão querendo. Tem que ter um limite: limitar uma área para eles aonde possam fazer o seu desenvolvimento, praticar o desenvolvimento deles.

Parece recorrente a ideia, mas nesses 500 anos a gente não conseguiu fazer com que aquelas canoas voltassem. Se a gente tivesse jogado aquelas canoas, embarcações, tudo mudo no mar, seria outra história, mas a gente não fez isso. Agora é disputar o avanço, a crescimento dessa população, que vai implicar em mais gente disputando terra, disputando água. Parece que não vai ter folga. As futuras gerações vão ter que estar cada vez mais capacitadas para garantir um lugar para viver. A agronegócio não pode sair comendo todo mundo. A mineração não pode sair comendo todo mundo. Desse jeito vai chegar uma hora em que eles vão sair comendo eles mesmo. Mas até para continuar tendo com quem brigar, eles precisam respeitar algumas autonomias.

As Unidades de Conservação, os quilombos, as terras indígenas, são lugares que a gente acha que precisam ser preservados como um bem comum. Acontece que eles estão tratorando tudo. E no campo jurídico também, estão quebrando tudo. São uns vândalos. Eles apontam o dedo para os outros, mas eles são os vândalos: os mineradores e ruralistas. Acham que podem arrasar com tudo. Isso é uma burrice. Estão queimando material importante para qualquer futuro comum.

registrado em: Felipe Milanez Ailton Krenak Mobilização Nacional Indígena Índios em Movimento


FONTE: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201cse-o-bicho-avancar-vamos-encarar-de-pe201d-diz-ailton-krenak-1118.html

sexta-feira, 13 de março de 2015

Documentário mostra luta pela conquista da cidadania e trajetória do movimento indígena



09 de Março de 2015

Fruto de um intenso trabalho de pesquisa do diretor Rodrigo Siqueira Arajeju, de 32 anos, o documentário Índio Cidadão ? , revela o processo de conquista da cidadania indígena e os bastidores dos povos indígenas e a constituinte 1987/1988. Traz uma reflexão por meio de narrativas de alguns dos principais protagonistas indígenas da luta pelos direitos até os dias atuais.

''Nasci em Brasília, onde comecei a busca por minhas raízes em meio ao concreto armado do modernismo. Aos 32 anos, onde quer que esteja, posiciono minha artilharia criativa para questionar o rumo do país decidido nos gabinetes da arquitetura do Poder. Minha família saiu do Rio de Janeiro, chegaram na Capital para a inauguração em 1960. Gente humilde e honesta em busca de novas oportunidades e de uma vida mais tranquila. Meu avô materno se entrosou com indígenas nas suas aventuras de pescador no Planalto Central, talvez uma fabulação que ficou como memória familiar. Gosto de acreditar que sigo o caminho dele, ao meu modo...'' Rodrigo Siqueira.

Em entrevista exclusiva para Equipe da Rádio Yandê ele reflete sobre o processo de realização do documentário e comenta sobre próximos projetos.

Rádio Yandê - O que te motivou na realização desse projeto ?

Rodrigo Siqueira : Foi um processo de reflexão sobre a situação dos chamados "direitos indígenas" no Brasil, a partir de experiências profissionais com demandas por autonomia de Povos Originários em outros países do Continente. A inspiração surgiu em vivências com autoridades ancestrais do Povo Maya na Guatemala, a partir de 2008, época em que também assisti aos primeiros documentários sobre lutas indígenas contemporâneas na América Latina. No ano seguinte, trabalhei na Costa Rica, no Tribunal Latinoamericano del Agua, acompanhando casos indígenas. Em 2009 também assisti, em tempo real, a cobertura de grandes levantamentos por direitos, como o Baguazo, no Peru, e a Minga, na Colômbia.

Este foi o fermento para a ideia inicial do filme, que só amadureci quando voltei a viver aqui. Iniciei a pesquisa sobre a Campanha Popular Povos Indígenas na Constituinte, em 2011, na minha área de formação acadêmica que é o Direito. Pra mim foi um fato surpreendente aquela presença constante em Brasília, com a participação de delegações, saídas direto das aldeias. Importante recordar que o ordenamento jurídico vigente definia "os silvícolas" (índios) como relativamente incapazes para atos da vida civil e determinava regime de tutela pelo Estado. Percebi a força desta história e a necessidade de evidenciar um capítulo revolucionário, porém pouco conhecido, da redemocratização no Brasil.

Encarei com seriedade o sonho de realizar o meu primeiro documentário, mesmo sem prática em produções audiovisuais, pois era clara a abordagem tendenciosa da mídia e a desinformação da opinião pública sobre o processo de conquista de direitos constitucionais específicos pelos indígenas. As emissoras de televisão, normalmente, não dão voz às lideranças como porta-vozes de suas demandas. A leitura do contexto de crescentes ataques aos primeiros Povos do Brasil fortaleceu minha convicção sobre a importância e urgência da proposta.

Idealizei o filme para a televisão, pela percepção de seu inigualável potencial comunicativo nesta era da informática. Eu quis surpreender os telespectadores com a força da oralidade - característica das culturas originárias - na condução da narrativa, através de falas públicas e entrevistas com aqueles protagonistas do Movimento Indígena na Constituinte. Se tratando de processo de desobediência civil da tutela vigente, defini que o filme só seria autêntico a partir da perspectiva indígena dos fatos.

O meu pensamento foi de lançar luz sobre os episódios marcantes da campanha popular, coordenada pela União das Nações Indígenas (UNI) nos anos de 1987 e 1988, através do resgate de registros documentais desta autodeterminação indígena no Congresso Nacional. Depois, contextualizar a percepção das lideranças que participaram da Constituinte sobre os avanços obtidos com a conquista daqueles direitos e sua visão dos desafios de futuro. Assim, formatei o projeto cultural e inscrevi em dois editais públicos em 2011, sem êxito. Insisti no ano seguinte e a proposta foi contemplada pelo Fundo de Apoio à Cultural (FAC/DF) da Secretaria de Estado de Cultura do GDF.

Minha principal motivação foi estar a serviço das resistências de Nações Originárias no Brasil e projetar suas vozes de autodeterminação na televisão, com o objetivo de contrapor o discurso midiático anti-indígena vigente há décadas. Comecei audacioso mesmo, com a veiculação do filme neste incrível meio de comunicação em massa, querendo influenciar parte da opinião pública e agregar novos aliados ao Movimento Indígena. A televisão ainda é mais popular e acessível que a internet, sendo o alcance da TV Câmara privilegiado por permitir a sintonia nos rincões do país, via antena parabólica. Pelos dados auferidos pelo IBOPE Mídia, obtivemos alcance acumulado de mais de 1 milhão de telespectadores nas 25 exibições na programação de 2014 da emissora.


Rádio Yandê - Como foi o processo de produção?

Rodrigo Siqueira: Iniciei a pesquisa em 2011, quando me aproximei de lideranças da UNI para pedir aval ao projeto. Álvaro Tukano foi o mentor, compartilhou comigo lembranças e abriu generosamente seu rico arquivo de memórias escritas, contendo referências essenciais. Ailton Krenak comentou que não tinha conhecimento de filme sobre o tema, apoiando a proposta. Indicou o acervo digitalizado do Programa de Índio (programadeindio.org), que ele produziu pelo Núcleo de Cultura Indígena, com importantes registros jornalísticos dos programas de rádio veiculados pela rádio USP, entre 1985 e 1991. Também mencionou o filme Aos Ventos do Futuro, de Hermano Penna, com documentação de grande mobilização de lideranças em Brasília para o II Encontro Nacional dos Povos Indígenas, realizado na Câmara dos Deputados pela Comissão Permanente do Índio - criada e presidida pelo deputado Mario Juruna.

A pesquisa do filme foi baseada em arquivos de vídeo e áudio, documentos, reportagens e publicações. Para conhecer mais detalhes do processo de participação, pesquisei os anais da Assembleia Nacional (http://www.senado.gov.br/publicacoes/anais/constituinte/7c%20-%20SUBCOMISSÃO%20DOS%20NEGROS,%20POPULAÇÕES%20INDÍGENAS,.pdf) e as matérias sobre a Campanha Povos Indígenas na Constituinte. Outra fonte de consulta também foi o livro Os Povos Indígenas e a Constituinte - 1987/1988, de Rosane Lacerda, publicado pelo CIMI, contendo muitas fotos que depois utilizei no filme.

As principais referências audiovisuais da Constituinte foram cedidas pelo Centro de Documentação (CEDOC) da TV Câmara. Utilizei trechos dos programas jornalísticos Diário da Constituinte, veiculados, diariamente, durante os trabalhos da Assembleia entre 1987 e 1988, com os destaques da imprensa para a participação indígena. Também cederam vídeos e fotos o CIMI, o ISA e seu sócio-fundador Beto Ricardo. Os áudios do Mario Juruna foram obtidos do acervo do Programa de Índio e do arquivo sonoro do CEDI da Câmara dos Deputados. Só finalizei a pesquisa em 2014, durante a finalização do filme.

A pré-produção começou em abril de 2013, ano em que o patrocínio do FAC/DF foi de fato recebido. A ocupação do Plenário da Câmara dos Deputados pelo Movimento no Abril Indígena 2013 impôs a atualização do roteiro, incluindo a forte mobilização contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000. Iniciamos as filmagens em junho, quando estabeleci relação com os membros da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), durante os registros das reuniões do Grupo de Trabalho Questão das Terras Indígenas. O grupo foi criado pelo presidente da Câmara, após a histórica ocupação do Plenário da Casa, composto por parlamentares e lideranças das 5 regiões do país.

Acompanhamos a saga dos representantes da APIB no GT Terras Indígenas por meses, processo de participação que, de certa forma, renovou a constância da atuação de lideranças indígenas no Congresso, como ocorreu durante os debates da Constituinte. Na sequência registramos a Mobilização Nacional Indígena em Defesa da Constituição Federal, em outubro de 2013, no marco dos 25 anos de promulgação, episódio marcante nas filmagens. Em novembro, tive o privilégio de filmar a entrevista conjunta com Álvaro Tukano e Ailton Krenak, no salão verde da Câmara dos Deputados. Finalizamos a produção, entrevistando o Davi Kopenawa, aproveitando sua presença em Brasília para participação em programa da TV Câmara.

A pós-produção foi iniciada na sequência e seguiu até abril de 2014. Tive a honra de contar com o apoio de equipe indígena nesta etapa, pela preocupação de ser fidedigno com as falas em línguas nativas dos Povos Mebengokrê e A'uwe. Patxon Metuktire colaborou na tradução da entrevista do cacique Raoni e falas públicas de outras lideranças tradicionais como a Tuíra; Tsitsina Xavante e Gedeão Butse, no depoimento do pajé José Luiz Tsereté. Como ainda não tinha recebido o patrocínio no Abril Indígena 2013, contei com a parceria generosa do cineasta indígena Kamikia Kisedjê na cessão do material histórico da ocupação do Plenário Ulysses Guimarães - também retratada no filme com imagens da cobertura jornalística, cedidas pelo apoio de produção da TV Câmara. Kamikia também disponibilizou imagens da Mobilização Nacional de outubro, assim como a cineasta Maria Emilia Coelho.

Pela quantidade e qualidade do material documentado e dos arquivos cedidos, optamos por finalizar o documentário com 52 minutos de duração - formato orientado, prioritariamente, para a veiculação em emissoras de televisão. A edição foi um processo exaustivo e só fechamos a montagem do filme no final de março, com a fundamental experiência do meu parceiro de roteiro, o montador Sergio Azevedo, da Argonautas - empresa produtora associada, ao lado da 400 Filmes e Base Audiovisual. Assinam a coprodução a 7G Documenta, produtora independente que idealizei, e a Machado Filmes. A pré-estreia do filme aconteceu no Memorial do MPF, na Procuradoria-Geral da República, no dia 14 de abril. Dia 19, foi a estreia oficial com a veiculação nacional na TV Câmara.

Rádio Yandê - O que você acha que mais marcou na conquista dos direitos constitucionais e nas manifestações de Brasília em 2013 na escolha das cenas do documentário?

Rodrigo Siqueira: A diversidade da presença dos Povos Indígenas no Congresso Nacional, com seus trajes tradicionais e manifestações culturais, são as imagens fortes da Constituinte. Utilizei o material de arquivo disponível, que é essencialmente conteúdo jornalístico, mantendo o áudio original de algumas reportagens para ressaltar a caricatura da cobertura midiática em certos momentos. A discussão sobre os índios "aculturados" também é uma provocação sobre a manutenção inalterada de percepções e discursos conservadores, quase 30 anos depois. Em termos de cenas, considero as mais simbólicas a subida da rampa do Congresso Nacional pelo cacique Raoni, na abertura da sequência da Constituinte, e o emocionante discurso do Ailton Krenak na defesa da emenda popular da UNI.

A Mobilização Nacional Indígena de outubro foi um evento muito forte. Meu sentimento hoje é que filmar ali foi algo tão imprevisível como caçar um tornado. A presença de espírito foi fundamental, pois era impossível acompanhar todos os atos e entrevistar sequer a metade das lideranças de renome presentes. Para a narrativa do filme, o mais importante foi a queima da PEC 215/2000, que funciona como o clímax daquela catarse, representada na concentração de mais de 1.000 indígenas protestando no centro do Poder Federal. Além disso, foi o recurso de evidenciar a dubiedade do discurso de alguns parlamentares sobre o arquivamento desta PEC.

Pessoalmente, o que mais me tocou foi a entrevista com a Valdelice Veron. Eu já sentia a necessidade de explicitar o genocídio continuado do Povo Kaiowa e sua demanda histórica pela demarcação de terras. A entrevista dela foi muito tocante. Ao final, toda a equipe que trabalhava comigo estava embargada em lágrimas. O compromisso com aquelas graves denúncias alterou o roteiro do filme e também desta carreira que inicio como documentarista.

Rádio Yandê - Para você o que significou aquela cena de arquivo do Ailton Krenak pintando o rosto emocionado enquanto falava sobre a questão indígena?

Rodrigo Siqueira:Primeiro, preciso desabafar que este fundamental discurso por pouco ficou de fora do filme. Existe um grave problema de gestão dos acervos públicos de imagens, que principia com a dificuldade de consulta aos conteúdos de emissoras de TV e órgãos que conservam a memória nacional. Por exemplo, a Central de Cópia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) suspendeu os serviços de pesquisa e cessão de imagens, desde 2013. A cobertura da Constituinte foi realizada pela Radiobrás e, teoricamente, o seu acervo foi incorporado à EBC. E por incrível que pareça, não havia nenhum registro do Ailton na decupagem do acervo audiovisual do Congresso Nacional. Outro impeditivo é que, via de regra, o simples acesso é condicionado a pagamento e o licenciamento para reprodução é caro.

Eu só tinha a referência escrita do discurso da defesa da emenda popular da Campanha Povos Indígenas na Constituinte pela UNI, registrado nos anais da ANC, mas sabia da relevância do material para a narrativa do filme por ser imprescindível no contexto de conquista do capítulo “Dos Índios” na Constituição. Só consegui acessar o vídeo devido à cooperação que assinei com a TV Câmara, que me permitiu assistir às fitas de material bruto do acervo do CEDOC e resgatar a marcante intervenção do Krenak. Depois também descobri outra cópia no acervo do ISA, mas foi longa e tensa a sua busca.

O próprio Ailton só tinha visto pequenos trechos e com a sonora ruim, ao assistir o filme na pré-estreia teve a surpresa de revisitar aquele momento - que ele revelou ter desvinculado de sua pessoa, intencionalmente. É muito forte a simbologia de sua imagem, de traje completo branco e o rosto pintado de preto, uma afronta ao discurso do índio aculturado. A fala é de arrepiar, uma presença de espírito impressionante! Sempre que assisto me emociona, é um dos trechos do filme que já me faz chorar algumas vezes. Pra mim representa o luto e a luta, como dizem os parentes Kaiowa. Teve a importância de gravar nos anais da Constituinte a denúncia sobre o histórico de genocídio e ataques aos Povos Indígenas no Brasil.

Foi um momento histórico e fiquei muito feliz de conseguir reproduzir a íntegra do registro no filme, sendo destaque certo nos debates e comentários. Por sua importância, postei, também, no canal de vídeos de divulgação do ÍNDIO CIDADÃO?, pois espero que muitas pessoas sejam tocadas por estas palavras. Com base na pesquisa, avalio que foi o ato de protagonismo mais marcante da ANC. A imagem foi destaque na imprensa nacional e internacional. A repercussão foi tão incrível que ele adquiriu status de parlamentar constituinte no imaginário de muita gente, informação que ainda é equivocadamente reproduzida em diversos sites. Inclusive é o único representante da sociedade civil que compõe o mural de fotos dedicado à Constituinte, no Anexo II da Câmara dos Deputados, locação do depoimento dele na sequência final do filme.

Rádio Yandê - A Valdelice Veron é hoje um símbolo de luta dos Guarani Kaiowá. Por que a escolha dela para conduzir?

Rodrigo Siqueira:Testemunhei a contundente fala da Xamiri Nhuputy na cerimônia de entrega do IV Prêmio Culturas Indígenas, em julho de 2013, no Memorial dos Povos Indígenas. Já tinha visto vídeos dela e outros lideranças Kaiowa, mas fiquei realmente impactado com a força da denúncia sobre o genocídio da sua Nação em marcha no Mato Grosso do Sul. Quando a vi na Mobilização Nacional de 2013, foi a primeira pessoa que busquei para entrevistar.

A escolha dela para conduzir surgiu no processo de edição do filme. Porque tinha memórias de infância impressionantes da participação na Constituinte, acompanhando seu pai, o cacique Marcos Veron - grande liderança que iniciou o processo das retomadas Kaiowa e derramou seu sangue nesta missão. Senti a força dos seus depoimentos, principalmente o testemunho do assassinato do pai, e o comprometimento de dedicar sua vida ao seguimento desta luta.

O principal que intuí foi o potencial para sensibilizar as pessoas que desconhecem ou são contrárias à causa indígena, este é um dos principais objetivos do filme. Qualquer pessoa que ainda guarde um pouco de humanidade vai se sensibilizar com as denúncias que a Valdelice expõe. Ao ouvir sobre aquelas crueldades contra mulheres e crianças Kaiowa e a brutalidade do extermínio de lideranças, mesmo se tiver preconceito contra os indígenas, ela vai quebrar a barreira do outro e sentir na pele aquela ferida aberta. Quando se pensa o discurso audiovisual, é obrigatório calibrar a mira para que atinja seus alvos. Acredito que foi uma escolha acertada, muitas pessoas relatam comoção com as falas da Valdelice no filme.

Rádio Yandê - Você pensa em fazer uma continuação ou um novo projeto de documentário dentro da temática?

Rodrigo Siqueira:No processo de filmagens, percebi que a questão da falta de representatividade direta no Congresso Nacional era o mote para a continuação do tema e já troquei ideias com os entrevistados a respeito. Foi intencional terminar o filme com a fala do Mario Juruna e as reflexões do Ailton, sobre a necessidade de lutar com novos parlamentares indígenas. Estou no processo de produção do curta metragem ÍNDIOS NO PODER (título provisório), projeto aprovado no Edital Curtas 2013 da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nova parceria da Machado Filmes e 7G Documenta.

O roteiro do filme se inicia com o resgate de registros da atuação do Mario Juruna, único deputado índio na história do Parlamento, e das eleições para a Constituinte, quando se consumou a impossibilidade de representatividade, que perdura até hoje. A abordagem contemporânea se baseia nas Eleições 2014, na qual o protagonista que representará as dezenas de candidaturas indígenas é o cacique Ládio Veron da Nação Kaiowa e Guarani. O caso dele é simbólico: uma liderança das retomadas, ameaçado pelos latifundiários do Agronegócio, que luta para se eleger deputado federal para travar o debate político no Congresso, dominado pela Bancada Ruralista. É isso que posso adiantar, em breve teremos novidades.

Mas o trabalho pela divulgação do ÍNDIO CIDADÃO? ainda segue e tenho me dedicado aos desdobramentos do projeto. O filme foi selecionado na IV Mostra Pajé Filmes. Será exibido em abril, em Belo Horizonte, e tem a janela de novos festivais de cinema em 2015. Também tenho a intenção é distribuir para outras emissoras de televisão e aumentar seu alcance. O filme deve ser explorado como ferramenta de conscientização da sociedade, pois as terras indígenas são patrimônio da União e sua preservação interessa a todos nós brasileiros e as futuras gerações que tem o direito constitucional de herdar um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Outro grande desafio é expandir o seu poder de convocatória para a mobilização dos Povos Indígenas. Fizemos a distribuição gratuita do filme para lideranças e organizações, com muitas exibições em assembleias e cursos de formação em terras indígenas e retomadas de diferentes regiões do país. Iniciei diálogo promissor com a Coordenação-Geral de Promoção da Cidadania da FUNAI, visando difundir o filme e promover debates nas suas atividades de mobilização social.

Outro desafio é sua utilização nas escolas da rede de ensino pública e privada, como ferramenta audiovisual educativa, adequada ao conteúdo obrigatório estabelecido na Lei 11.645/2008, proposta traçada desde a concepção do projeto. Já existem instituições de ensino superior se valendo do filme, em graduações regulares e interculturais. Gosto de pensar sua difusão de forma ampla.

''Preciso viver com a esperança em lugar seguro, com atitudes cotidianas que alimentem meus sonhos pelo buen vivir para toda a humanidade e seres do planeta. Me recordei agora do final do filme, perfeito pra encerrar a entrevista. Dedico essa obra à Resistência de todos os Povos Originários e ao novo amanhecer dos curumins e das nossas crianças. Minha gratidão sincera pela oportunidade. E diga ao Povo que avançaremos!'' Rodrigo Siqueira.

Mais informações: http://indiocidadao.org/

FONTE:
Redação Yandê
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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Líder indígena vê influência das tabas de Tom Jobim a Sepultura

Ambientalista, líder indígena, ex-deputado federal, coordenador da Rede Povos da Floresta, Ailton Krenak é um dos principais articuladores dos direitos indígenas. E para ele, é preciso fazer uma reparação histórica, não apenas do genocídio pelo qual os primeiros brasileiros foram submetidos - e ainda são- , mas também em relação à influência e a presença da música indígena em nossa canção, da bossa nova de Tom Jobim ao metal do Sepultura. "Os pesquisadores como Anthony Seeger, Marlui Miranda e mesmo Roquete Pinto insistem que a base da criação da chamada música popular brasileira ou cancioneiro brasileiro é feita de índio, branco e negro, sem que tenha de ser percebido nesta ordem, claro! Uns tons de negro mais carregado chegam primeiro aos ouvidos que depois de afinados são também alcançados pelos timbres vindos de debaixo do chão, como diz o mestre (Gilberto) Gil, de onde vem o xaxado? vem debaixo do barro do chão... Bené Fonteles, Marlui Miranda, Caetano Veloso e Sepultura, todos, e Tom Jobim, também cantam este timbre vindo das tabas indígenas", defende o líder, que protagonizou uma cena marcante no Congresso Nacional, quando se pintou o rosto com tinta preta de jenipapo, nos anos 80. Krenak afirma que na cultura indígena, a música e rito, são cantos de guerra, de caçadas rituais "onde são evocados os espíritos dos animais a serem caçados,assim como é cantado o nome dos inimigos que serão guerreados". "São cantos de cura, onde a palavra cantada é medicina poderosa e veículo de trânsito entre o visível e outros mundos ou paisagens. Músicos como Milton Nascimento e Peter Gabriel já exploraram áreas da sonoridade-musicalidade indígenas em seus trabalhos que alcançaram ótima aceitação de público dando a eles um Grammy na década de 90", aponta. O líder indígena também lembra da parceria entre Egberto Gismonti e o pajé Sapaín. "Mesmo outros músicos e bandas contemporâneas seguem descobrindo novas sonoridades naquilo que podemos ouvir como música de 'índios'. Egberto Gismonti fez um memorável disco intitulado Sol do Meio Dia com o pajé Sapaím no Xingu, que até hoje continua sendo um marco no diálogo entre as tradições musicais modernas", afirma. Entre suas preferências particulares, de músicos não-indígenas, Krenak destaca Tom Jobim, compositor e maestro que antecipou as preocupações com temas ambientais, quando o assunto não era recorrente, e Caetano. "Muitas músicas que falam explicitamente de 'índio' me agradam, mas Borzeguim do Tom Jobim é minha preferida sempre e de longe. Tem a canção mágica Um Indio do Caetano, enfim músicas que tem uma poética direta falando de índio são a parte visível da coisa toda, que tem raízes profundas muita além das letras e poesia. (Heitor) Villa-Lobos é coisa de índio, assim como a obra de Tom Jobim foi insistente canção indígena dentro da bossa nova, que todos dizem que tem jazz nas suas origens. Vai dormir com um barulho destes vindo de debaixo do chão", provoca. FONTE:http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/musica/2013/04/26/324607-lider-indigena-ve-influencia-das-tabas-de-tom-jobim-a-sepultura 27/04/2013 08h24 • Fabiano Alcântara

terça-feira, 16 de abril de 2013

Lideranças indígenas participam do Fórum Social Mundial na Tunísia

Na foto: As lideranças indígenas Ailton Krenak, o tradutor Luiz Guilherme, Tom Goldtooth e Biraci Brasil, do povo yawánawá. Eles defenderam o uso tradicional das medicinas ancestrais como forma de autodeterminação dos povos. Ricardo Moebus* Terminou no último dia 30 de março o Fórum Social Mundial 2013, o primeiro realizado em terras do mundo árabe, na Tunísia, em sua capital Tunis, onde há dois anos atrás deflagrou-se a revolução que deu origem à chamada primavera árabe de 2011. Esse Fórum, como era de se esperar, teve presença massiva e preponderante em seus debates da temática islâmica, em especial da luta pelo reconhecimento e respeito pelos territórios da Palestina.. Mas houve espaço também para inumeráveis outras temáticas, em aproximadamente mil atividades auto gestionadas por centenas de organizações de todo o mundo. E, dentre essas, teve lugar o debate acerca do exercício das Medicinas Tradicionais como parte integrante e indispensável do direito à auto determinação dos povos originários, autóctones, indígenas. Esse debate foi proposto pela organização não-governamental Primatas da Montanha, ONG PRIMO, com a participação do cacique Biraci Brasil Yawanawa do estado do Acre, da liderança indígena Ailton Krenak do estado de Minas Gerais e da liderança indígena norte americana Tom Goldtooth. Tom Goldtooth estava no Fórum Social em campanha mundial contra a implantacao do sistema REED, que vem impedindo as comunidades que aderiram a esse sistema de fazerem o uso tradicional de seus recursos naturais dentro de suas próprias florestas. Tom esteve com as lideranças indígenas brasileiras Biraci e Ailton, e aderiu ao debate sobre o direito de exercício das Medicinas Tradicionais. O debate representou uma oportunidade única dentro do Fórum Social Mundial de apresentação das Medicinas Tradicionais também como uma proposta política de efetiva defesa dos modos de vida originários, com autonomia, com acesso, uso sustentável e preservação dos recursos naturais que compõem essas Medicinas Tradicionais. O debate também marcou historicamente o lançamento internacional da proposta de uma Rede Mundial de Medicinas Multiculturais – Rede 3M, que seguirá sendo articulada a partir das experiências brasileiras e ameríndias. * Ricardo Moebus é autor do livro “Psico Trópicos” que trata do uso tradicional dos denominados enteógenos ou plantas de conhecimento. VÍDEOS NO SITE: http://www.fechos.org.br/ FONTE: http://www.juruaonline.com.br/cidades/liderancas-indigenas-participam-do-forum-social-mundial-na-tunisia/

terça-feira, 17 de julho de 2012

Rio+20: Ciudadanía global por el respeto de los derechos humanos

José Pedro Martins 12/07/2012 Cumbre de los Pueblos acuerda mayor movilización en defensa de la vida y el respeto de los bienes comunes. “Necesitamos, con una movilización mundial, luchar por una reforma completa de la gobernanza socioambiental, pues la actual no responde en modo alguno a los intereses de los pueblos del mundo y de la Madre Tierra”. Así resumió Ailton Krenak, uno de los más conocidos líderes indígenas de Brasil, miembro de la Red Pueblos del Bosque, el rumbo que a partir de los resultados de la Conferencia de las Naciones Unidas sobre Desarrollo Sostenible, Rio+20, las organizaciones y movimientos sociales deben dar a su lucha por proteger el medio ambiente en el planeta. Krenak participó en la Cumbre de los Pueblos por la Justicia Social y Ambiental y en Defensa de los Bienes Comunes que reunió a miles de representantes de organizaciones no gubernamentales y movimientos sociales de todo el mundo, que tuvo lugar en el Parque del Flamengo, en Rio de Janeiro, de forma autónoma y paralela a la oficial Rio+20. “Están secuestrando simbolismos importantes para el pueblo, en beneficio de intereses corporativos”, afirmó, en referencia a la expresión “economía verde”, uno de los temas oficiales de Rio+20. El líder indígena hizo esta afirmación en la Arena Socioambiental, principal espacio de diálogo del gobierno brasileño con la sociedad civil en Rio+20. Para Krenak, ante la falta de firmeza de la Organización de las Naciones Unidas (ONU) y de los representantes de los países desarrollados, Brasil debió ser más audaz en el liderazgo de las negociaciones en Rio+20. “Pero lo que está sucediendo en Brasil es la repetición de los actos de la dictadura [militar que gobernó entre 1964 y 1985], cuando grandes proyectos en la Amazonia fueron muy destructivos para los pueblos indígenas y habitantes de los bosques en general”, protestó. Intereses corporativos La creciente influencia de las grandes corporaciones en el sistema de la ONU, en consonancia con la búsqueda de la mercantilización de la naturaleza, fue una constante en las críticas que los movimientos sociales y organizaciones no gubernamentales, especialmente en el ámbito de la Cumbre de los Pueblos, hicieron a todo el proceso de Rio+20. “Las posiciones gubernamentales han sido cada vez más invadidas por estrechos intereses corporativos ligados a industrias contaminantes y sectores empresariales que buscan lucrar con el medio ambiente, el clima y las crisis financieras”, afirmó Nnimmo Bassey, presidente de Amigos de la Tierra Internacional. La organización lanzó el 19 de junio un informe que denuncia la “captura” de la ONU y de Rio+20 por las grandes corporaciones, citando entre otros ejemplos los casos de la Iniciativa Energía Sostenible para Todos (SE4ALL), el Fondo Internacional de Desarrollo Agrícola (FIDA) y el Convenio sobre la Diversidad Biológica, “cada vez más impulsados por actores sociales interesados en la financiarización de la naturaleza y no por la necesidad de conservar la biodiversidad”. De hecho, los pueblos indígenas han sido particularmente críticos de los resultados de Rio+20. “La ONU está perdiendo cada vez más presencia real, y con ello aumenta la influencia de las corporaciones en los organismos multilaterales y del sistema de las Naciones Unidas”, señala Krenak. Actividades y conclusiones La preparación de un Día Mundial de Huelga General y la movilización de la ciudadanía global contra la militarización de los Estados y territorios, la criminalización de las organizaciones y movimientos sociales, la violencia contra las mujeres y las personas lesbianas, gays, bisexuales, transexuales y transgéneros, y a favor de la garantía del derecho de los pueblos a la tierra y el territorio urbano y rural, el cambio del modelo energético, la reafirmación de los derechos humanos y la democratización de los medios de comunicación. Estas fueron algunas de las conclusiones de la Cumbre de los Pueblos que tuvo en su agenda cerca de 500 eventos, protagonizados por grupos diversos. Se realizaron también sesiones plenarias, en torno a tres ejes: Causas estructurales y falsas soluciones, Nuestras soluciones y Agenda de Luchas y Campañas. El 21 de junio fue promovida la Asamblea de los Pueblos, para aprobación del documento final e indicación de los próximos pasos de movilización de la ciudadanía planetaria. “No aceptamos paliativos, que dejen intactas las causas estructurales de los problemas sociales, económicos y ambientales, reproduciendo y agravando las múltiples formas de desigualdades vividas por las mujeres, así como las injusticias socioambientales”, dice el documento “Del Territorio Global de las Mujeres en la Cumbre de los Pueblos para la Conferencia de las Naciones Unidas sobre el Desarrollo Sustentable (Rio+20)”, emitido por la Marcha Mundial de las Mujeres. “Proponemos el pacto de Rio de Janeiro de los pueblos en lucha para que volvamos a nuestros lugares de origen y todos los días llevemos adelante luchas contra nuestros verdaderos enemigos”, dijo el dirigente de Vía Campesina, João Pedro Stédile, en la manifestación más grande asociada con Rio+20 que tuvo lugar el 21 de junio, cuando más de 80,000 personas marcharon por el centro de Rio de Janeiro. Diversas acciones se lanzaron durante la marcha, con críticas al curso oficial de Rio+20 y reiterando la necesidad de una mayor movilización global contra la mercantilización de la naturaleza. —Noticias Aliadas. FONTE: http://www.noticiasaliadas.org/articles.asp?art=6671

sexta-feira, 8 de junho de 2012