quinta-feira, 6 de junho de 2019

Museu de Arte do Rio tem entrada gratuita até 25 de junho

Visitantes poderão conhecer as exposições “O Rio dos Navegantes”, “Rosana Paulino: a costura da memória” e “Mulheres na Coleção MAR”, além da instalação “FLUXO”, primeira sala imersiva do museu

Até o dia 25 de junho, cariocas e turistas poderão conhecer gratuitamente as exposições em cartaz no Museu de Arte do Rio – MAR, sob a gestão do Instituto Odeon. A ação acontece para marcar a inauguração da principal mostra do MAR em 2019, “O Rio dos Navegantes”, e também a abertura da primeira sala imersiva da instituição, o projeto “FLUXO”. Além de visitar as mostras recém-inauguradas, o público terá a oportunidade de conhecer as exposições “Rosana Paulino: a costura da memória” e “Mulheres na Coleção MAR”. Às terças-feiras o MAR funciona com horário estendido até as 19h. De quarta a domingo, o museu abre das 10h às 17h. Já às segundas, o museu fecha para o público.

Exposições em cartaz:

O Rio dos Navegantes (em cartaz até março de 2020):
A mostra traz uma abordagem transversal da história do Rio de Janeiro como cidade portuária, do ponto de vista dos diversos povos, navegantes e imigrantes que desde o século XVI passaram, aportaram e por aqui viveram. “O Rio dos Navegantes” ocupa integralmente o terceiro andar do pavilhão de exposições e a Sala de Encontro, localizada no térreo, até março de 2020. O diretor cultural do MAR, Evandro Salles, é o idealizador e coordenador de curadoria e Francisco Carlos Teixeira, o consultor histórico. Também assinam a curadoria e a pesquisa Fernanda Terra, Marcelo Campos e Pollyana Quintella.

“O Rio dos Navegantes” reúne cerca de 550 peças históricas e contemporâneas, entre pinturas, fotografias, vídeos, instalações, objetos, documentos, esculturas, etc. Estão presentes trabalhos de artistas como AILTON KRENAK, Antonio Dias, Arjan Martins, Augusto Malta, Belmiro de Almeida, Custódio Coimbra, Guignard, Iran do Espírito Santo, João Cândido (João Cândido Felisberto), Kurt Klagsbrunn, Lasar Segall, Mayana Redin, Mestre Valentim, Osmar Dillon, Rosana Paulino, Sidney Amaral, Virginia de Medeiros, além de jovens artistas como Aline Motta e Floriano Romano.

FLUXO (até novembro de 2019):
O primeiro espaço imersivo do MAR tem o objetivo de propor ao visitante uma experiência sensorial. A instalação de estreia, FLUXO, foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar liderada pela diretora criativa Liana Brazil, da SuperUber. A sala localizada no primeiro andar do pavilhão de exposições é uma aposta da direção do museu, por meio de sua diretora executiva, Eleonora Santa Rosa, e faz parte de um novo núcleo de trabalho da instituição.

FLUXO é uma experiência imersiva que explora o movimento contínuo, fluido, espontâneo. Ao entrar na sala escura, o visitante perceberá que suas pegadas criam rastros que o conectam a um núcleo onde imagens e sons inspirados na exuberante natureza do Rio de Janeiro surgem de todos os lados. Constelações, águas, tempestades e traçados ancestrais são projetados em telas que envolvem o público e o transportam para um espaço-tempo outro, fora da história, livre de começos-meios-fins.

Rosana Paulino: a costura da memória (em cartaz até agosto de 2019):
Após temporada de sucesso na Pinacoteca, em São Paulo, a maior individual da artista já realizada no Brasil chegou à cidade com 140 obras produzidas ao longo dos seus 25 anos de carreira. Assinada por Valéria Piccoli e Pedro Nery, curadores do museu paulistano, a mostra reúne esculturas, instalações, gravuras, desenhos e outros suportes, que evidenciam a busca da artista no enfrentamento com questões sociais, destacando o lugar da mulher negra na sociedade brasileira.

Mulheres na Coleção MAR (em cartaz até agosto de 2019):
A exposição faz um recorte de obras de mais de 150 artistas históricas e contemporâneas, brasileiras e estrangeiras, que integram o acervo do museu. Estão presentes: Tarsila do Amaral, Tomie Ohtake, Beatriz Milhazes, Güler Ates, Marie Nivouliès de Pierrefort, Abigail de Andrade, Louise Bourgeois, Neide Sá, Jenny Holzer, Leila Danziger, Vânia Mignone e Célia Euvaldo.

Pela primeira vez na história do MAR, a curadoria foi realizada a partir de um processo colaborativo que envolveu cerca de 30 mulheres de todos os setores do museu, entre seguranças, recepcionistas, produtoras, auxiliares administrativas e de serviços gerais, advogadas, jornalistas, designers, museólogas e gestoras. Em uma série de encontros realizados ao longo de dois meses, sob a orientação da equipe de Curadoria e Pesquisa, as funcionárias trocaram experiências de vida e de trabalho, conversaram sobre o universo feminino e a respeito das múltiplas representações da mulher na arte, nos espaços culturais, na família e na sociedade.

Serviço

Entrada: Visitação gratuita de 25 de maio a 25 de junho.

Horário de funcionamento: às terças-feiras o MAR funciona com horário estendido até as 19h. Quarta a domingo, das 10h às 17h. Às segundas o museu fecha para o público. Para mais informações, entre em contato pelo telefone (55) 21 3031-2741 ou acesse o site www.museudeartedorio.org.br.

Endereço: Praça Mauá, 5 – Centro.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

‘Os Índios na Constituição’: livro comenta os 30 anos da Constituição Cidadã

31/05/2019 Davi Costa

É preciso explicar um pouco antes de falar sobre Os Índios na Constituição. Em 1500, os índios tiveram suas terras invadidas e usurpada em troca de espelhos e outros utensílios. Muitos morreram de gripe, outros no embate contra a invasão; homens mortos ou escravizados, mulheres violentadas, crianças órfãs.

Mesmo com toda essa barbárie, a Constituição seguiu omissa em relação aos direitos fundamentais da população indígena até 1988. Ano este em que a Constituição Cidadã finalmente reconheceu a legitimidade social das organizações indígenas e suas tradições culturais. Sobretudo, o direito às terras que ocupam desde sempre.

Ano passado, Camila Loureiro Dias, doutora em História, e Artionka Capiberibe, doutora em Antropologia, realizaram o Fórum “30 Anos da Constituição e o capítulo ‘Dos Índios’ na Atual Conjuntura”, dentro da Universidade de Campinas. Hoje, elas lançam Os Índios na Constituição, publicado pela Ateliê Editorial.

Em entrevista para o blog da editora, Camila explica que a ideia central de Os Índios na Constituição é promover o encontro entre duas gerações. “Os que atuaram na definição dos direitos indígenas durante a Constituinte e os que atuam na linha de frente, hoje, na defesa desses direitos. Assim seria possível aprender, pela história e pela memória, sobre o modo como os atuais direitos foram construídos, e isso nos seria um subsídio à nossa reflexão e atuação hoje”, esclarece.

O livro compila depoimentos de pesquisadores e intelectuais excepcionais na comungação dos direitos indígenas na Constituição Cidadã, além de outros defensores desta pauta. Entre as principais participações, o professor Dalmo Dallari se destaca. O jurista dirigiu à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, foi secretário dos Negócios Jurídicos da prefeitura de São Paulo sob mando da prefeita Luiza Erundina e trabalhou junto de outros profissionais na Constituição Cidadã.

Além de Dallari, a doutora em História lembra de outros nomes. “Ailton Krenak, nascido no Vale do Rio Doce, um intelectual iluminado, ilustre representante do movimento indígena, que fez uma memorável performance no Plenário em 1987 e hoje continua na luta depois de tantos reveses. Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e articuladora da mobilização política e intelectual que foi responsável pela redação dos dois artigos e que também continua ativa e combativa, pautando a maneira de encaminhar o debate”, conta.

“Por fim, José Carlos Sabóia, deputado constituinte, que nos revela a maneira como eram negociados os direitos no Congresso sem os freios do politicamente correto. As duas jovens lideranças indígenas que também vieram conversar conosco são igualmente figuras de destaque no cenário”, finaliza.

Os Índios na Constituição está à venda na loja digital da Ateliê Editorial por trinta reais.

FONTE: https://epilogo.art.br/os-indios-na-constituicao-atelie-editorial/

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A maratona de lançamentos até a Flip


Reportagem de Guilherme Amado

Convidados para participar da Flip deste ano, os autores Karina Sainz Borgo, Ailton Krenak, Stuart Firestein e David Wallace-Wells também se preparam para lançar novos trabalhos no Brasil daqui até lá.

A jornalista venezuelana Sainz Borgo publicará pela Intrínseca, ainda no próximo mês, seu primeiro romance, Uma noite em Caracas , que conta a história de uma mulher lutando pela sobrevivência após a perda da mãe e em meio ao cenário desolador em que vive o país.

Já o ambientalista e líder indígena Ailton Krenak escreve sobre a resistência das tribos e critica o conceito da humanidade separada da natureza, em Ideias para adiar o fim do mundo , que sairá pela Companhia das Letras, também em junho.

Na mesma editora, o professor e pesquisador nas áreas de neurociência e biologia Stuart Firestein e o jornalista americano David Wallace-Wells chegam às livrarias brasileiras com Ignorância — como ela impulsiona a ciência e A terra inabitável: uma história do futuro , respectivamente.

Em uma abordagem sobre a natureza da pesquisa, o primeiro faz um elogio às incertezas que motivam os cientistas a buscar o conhecimento, mostrando que a ignorância é o verdadeiro motor da ciência.

O livro de Wallace-Wells saiu de uma reportagem dele no New York Times , em que o repórter fez um retrato do que será o mundo se o aquecimento global não for contido: falta de alimentos, emergências em campos de refugiados, enchentes, destruição de florestas e desertificação do solo.

FONTE: https://epoca.globo.com/guilherme-amado/a-maratona-de-lancamentos-ate-flip-23680842

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O projeto Amazônia das Palavras 2019 acontece em outubro

Cidades publicado 23/04/2019-14:15 Atualizado:14:17

O Amazônia das Palavras, projeto que leva literatura a cidades da Amazônia Brasileira, se prepara para a edição 2019, prevista para acontecer no mês de outubro



O Amazônia das Palavras, projeto que leva literatura a cidades da Amazônia Brasileira, se prepara para a edição 2019, prevista para acontecer no mês de outubro, navegando 1.300 Km pelos Rios Negro, Amazonas e Madeira e visitando as cidades de Porto Velho, Humaitá, Manicoré, Novo Aripuanã, Borba, Nova Olinda do Norte, Itacoatiara e Manaus.

Diante do sucesso na primeira edição do Amazônia das Palavras, os produtores acreditam que neste ano de 2019 o projeto irá envolver um público ainda maior, superando as mais de cinco pessoas, entre alunos e professores, comunidades ribeirinhas, população indígena e quilombola e as comunidades que participaram das atividades culturais durante o mês de novembro de 2018, quando se realizou a primeira edição.

Com o objetivo de estimular a leitura e o hábito de acesso aos livros para jovens e adolescentes das redes públicas de ensino das oito cidades visitadas pelo Amazônia das Palavras, o projeto está dividido em várias atividades culturais, todas gratuitas. Durante o dia são realizadas as Oficinas Literárias, onde escritores e artistas reconhecidos nacionalmente tratam de temas variados e ensinam os alunos como produzir contos e histórias, a importância da escrita e da narrativa na construção de suas histórias de vida.

Na Edição 2019, as Oficinas Literárias serão ministradas por Marcos Magalhães, com a oficina Palavra Animada, Thiago Thiago de Mello com Sons do Cotidiano, Eliakin Rufino com Produção de Cultura Indígena e Poesia, Celdo Braga com a oficina Poesia: Narrativa e Escuta e Bete Bullara na oficina Imagens da Amazônia.

No período noturno, o Amazônia das Palavras reúne as comunidades visitadas para a apresentação da Aula Espetáculo Memórias da Amazônia, onde o escritor Ailton Krenak irá partilhar as suas experiências literárias e destacar a importância da leitura como formação da cidadania. Logo após o público assiste a um Espetáculo Circense, este ano a cargo do ator Luiz Carlos Vasconcelos, que interpreta o Palhaço Xuxu com o espetáculo Silêncio Total.

A Edição 2019 do Amazônia das Palavras fará duas homenagens. A primeira ao escritor amazonense Milton Hatoum, um dos mais premiados escritores brasileiros da atualidade, e à cidade de Manaus, que completa no dia 24 de outubro 350 anos de história.


FONTE: https://www.portalam24h.com/cidades/o-projeto-amazonia-das-palavras-2019-acontece-em-outubro.shtml

'Não somos indígenas só em abril. Somos indígenas nos 365 dias do ano'



A frase que dá título a esta matéria foi um desabafo de Jocelino Tupinkim, jovem liderança da aldeia de Caieiras Velha, em Aracruz. Temos um ano inteiro para discutir o tema indígena, convidar as diferentes etnias para falar e nos mostrar sua cultura, mas a maioria dos convite vem justo nessa época, quando possuem as agendas já apertadas com as próprias celebrações nas aldeias por conta do Dia do Índio, 19 de abril.

Mas tudo bem, eles dão um jeito de atender as agendas de cá. "Se em outros tempos nós tivemos que nos esconder da violência do Estado, eu diria que hoje, como nunca antes, temos denunciar e dizer que o tempo do silêncio definitivamente acabou e agora nós vamos protagonizar nossas lutas pra valer", disse Edson Kayapó, doutor em História, que foi um dos palestrantes convidados no dia 17 de abril para o evento Aliança Indígena, realizado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em Vitória.

Importantes lideranças e grupos culturais indígenas tupinikim e guarani do estado, junto a convidados do povo kayapó, participaram do evento repleto de emoções, memórias, falas contundentes, críticas ao racismo institucional e também celebrações e mostras da cultura.

No dia seguinte, mais um encontro na capital. Dessa vez com o governador Renato Casagrande (PSB), que recebeu um documento com as principais reivindicações. "O Governo do Estado, como um todo, está à disposição de vocês. Sabemos o que vem acontecendo com os indígenas a nível nacional e podem contar integralmente com meu apoio político nas suas lutas", afirmou o governador.

Porém, o desenrolar dos debates na Ufes, mostram que o avanço das lutas e conquistas dos povos originários, tão diversos entre eles mas marcados pela violência do rolo compressor colonial, dependem mais do que da simpatia das lideranças políticas. Necessitam de um compromisso real e permanente e políticas públicas que permitam não só incluir, mas também transformar as estruturas de poder. Junto com o povo negro e outras comunidades tradicionais, os indígenas sofrem com o racismo institucional, arraigado nos dirigentes e funcionários, imperceptível a muitos olhos que acostumaram a ver as coisas a partir de um Estado com instituições construídas tendo como base o pensamento branco e colonial.

Pode parecer exagero discursivo e talvez até uma retórica abstrata, mas pergunte aos indígenas e aos negros como se manifesta concretamente esse racismo nas coisas grandes e pequenas, no cotidiano do que é viver numa comunidade periférica urbana ou rural, ou no que significa frequentar o espaço essencial de produção de saber da modernidade, a Universidade.

Estudante de direito, Alyne Kayapó, outra brilhante jovem indígena que busca na espiritualidade uma fortaleza para enfrentar todas essas realidades, falou sobre o tempo indígena, diferente do "kronos" ocidental. E falou de memória, oralidade e educação. "Por que a sociedade nacional quer cobrar de nós povos indígenas que a gente tenha o mesmo comportamento da época da invasão? Porque eles estão acostumados com livro que é uma coisa que engessa, não olham para a dinâmica das coisas. Nós todos somos super dinâmicos, a história está em constante movimento".

Os direitos indígenas antecedem ao Estado, são direitos originários, lembra Paulo Tupinikim. Mas para sobreviver física e culturalmente os indígenas precisam que o Estado faça a demarcação e proteção de territórios que permitam a reprodução de seu modo de vida. Territórios que na verdade lhes foram usurpadas com apoio direto ou velado desse mesmo Estado. Imagina então o tamanho dessa luta. “Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir”, declarou no ano passado Ailton Krenak, diante de um momento de acirramento na sociedade brasileira.

"Nossos grandes líderes lutaram para nós, esses direitos não foram ganhos de mão beijada", afirmou na Ufes o cacique guarani Werá Kwarai "Nossos grandes líderes foram vistos como se fossem selvagens. Selvagem são aqueles que jogam bombas para destruir a vida. Selvagem é aquele que destrói todo saber, viola o saber de outros, explora a força física de outro. Esses são os selvagens".

Nas redes sociais, Célia Xakriabá, importante liderança jovem de Minas Gerais, ironizou: "Eu tô aqui pensando, onde está o tanto de gente que usou cocar no carnaval para homenagear nosso povo indígena, será que vai estar com nós na próxima semana na Mobilização Nacional Indígena em Brasília?"

Os que "homenagearam" os indígenas no carnaval, os que lembraram desse 19 de abril com imagens daqueles indígenas idealizados, os que trocaram seu sobrenome para Guarani Kayowaá no Facebook, estarão acompanhando as lutas e reivindicações dos povos originários o ano inteiro?

É verdade que o "kronos" da cidade é brutal. Que a instantaneidade e excesso de informação das redes atropela e confunde diante de uma luta ancestral. Mas como provocou Célia, um primeiro desafio pode ser tentar acompanhar e apoiar as mobilizações do Acampamento Terra Livre, que reúne inúmeras etnias na próxima semana, de 24 a 26 de abril em Brasília, organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O governo federal desses tempos de trevas já autorizou o uso da Força Nacional contra os povos indígenas que ali estarão acampados.

Tradicionalmente o Acampamento Terra Livre sempre foi um espaço de paz, diálogo e reivindicação. Os indígenas capixabas estarão presentes, assegurou Paulo Tupinikim. E você? No que resta deste abril, deste ano, deste governo e dos tempos que virão, como você pretende apoiar a luta mais justa e mais antiga desse país?

14ª edição do Flipoços valoriza pautas indígenas e dos povos originários



Diante de tanta intolerância, é necessário levantar a visibilidade e representatividade de diversos povos, principalmente dos indígenas que carregam vários problemas sociais há anos, consequentemente prejudicando as culturas e modo de viver. E, apesar, de muitos tentarem apagar suas histórias e origens, a Flipoços, o Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, colocou em pauta as causas indígenas e povos originários nesta edição.

Marcada para iniciar no dia 27 de abril e finalizar somente em 05 de maio, a Flipoços confirmou a presença de várias mesas, fóruns e atividades voltadas às pautas indígenas e discute, essencialmente, o genocídio indígena no Brasil.


Algumas atrações já foram reveladas para o público que estarão estendendo essas pautas para os leitores, como Teatro da Urca realizado na segunda-feira (29) às 20h com o tema “Vidas entrelaçadas às dos primeiros habitantes – diálogo com os povos da floresta e sua importância na formação cultural brasileira“, com o líder indígena Ailton Krenak, autor de livros como “O lugar onde a terra descansa“, a antropóloga e escritora Betty Mindlin, a pesquisadora de povos indígenas e atriz Andreia Duarte, atriz da peça “Gavião de Duas Cabeças“, que denuncia o genocídio e a situação dos povos indígenas e a escritora e cineasta Rita Carelli, autora do livro “Minha Família Enauenê” e também da coleção “Um dia na Aldeia“, feita em parceria com a ONG Vídeo nas Aldeias, cujo o título “A história de Akykysia, o dono da caça” foi premiado pelo White Ravens e com o selo Altamente Recomendável pela FNLJ.

Além da mesa, na terça-feira (30 de abril) às 09h o Flipoços recebe o 1º Fórum de Debates Indígenas, com duas mesas, a primeira “Palavra criadora: narrativas tradicionais indígenas” que será com Angela Pappiani, Betty Mindlin e mediação de Susana Ventura. Na sequência, ocorre a mesa “Povos Indígenas e Questões Territoriais: aspectos históricos e atualidade” com Ailton Krenak, Robson Antonio Rodrigues, Carla Cunha Pádua, Fernanda Borges, Adenilson Kiriri, Fabiano Melo e mediação de Taciana Oliveira Ruellas.

“Nós tivemos o cuidado de pensar esta temática e de, com o apoio da Betty Mindlin, formatar a primeira mesa, em que o debate sobre o genocídio dos povos indígenas e a literatura, bem como a arte, feita a partir desta pauta, torna-se obrigatório. Será uma mesa de altíssima qualidade intelectual e indispensável na nossa programação, visto que os povos indígenas são inerentes à nossa formação”, declarou a organizadora e curadora do evento, Gisele Corrêa Ferreira.


Como o evento abrange um público muito grande, também haverá espaço infantil dedicado ao indígenas. Essa ação será realizada no Sesc Flipocinhos com dois autores indígenas, que são Daniel Munduruku e Auritha Tabajara e ficarão responsáveis por bate-papos e contação de histórias ao público infanto juvenil do festival.

FONTE: https://desencaixados.com/noticias/14a-edicao-do-flipocos-valoriza-pautas-indigenas-e-dos-povos-originarios/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Sobre o apoio à retomada Guarani da Ponta do Arado ou à causa indígena de forma geral (por Douglas Freitas)

FONTE: https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2019/01/sobre-o-apoio-a-retomada-guarani-da-ponta-do-arado-ou-a-causa-indigena-de-forma-geral-por-douglas-freitas/

Publicado em: janeiro 18, 2019




Douglas Freitas (*)

Airton Krenak, da etnia Krenak (assolada pela lama tóxica no Rio Doce, maior crime socioambiental da história, das empresas impunes Samarco/Vale do Rio Doce), certa feita, em uma aula inaugural da UFRGS em 2017, comentou sobre o fato da luta pela demarcação de terras indígenas ser uma medida de garantia para os povos, mas ainda assim ser uma medida colonial, por legitimar a demarcação, o limite, a fronteira, referenciais territoriais do homem branco. Essa discussão complexa parece tão distante no contexto em que vivemos no Brasil, em que, há anos, as demarcações já não vinham acontecendo como reivindicadas e que, atualmente, com o presidente Jair Bolsonaro (PSL), o cenário já piorou, no nível de demarcações já feitas serem revistas e terras indígenas serem invadidas por pistoleiros e madeireiros.

No entanto, a fala do Ailton Krenak me despertou um sentimento de que, às vezes, a luta mais progressista pode trazer uma essência colonialista, tanto no âmbito individual quanto coletivo (partidário, sindical). A provocação de Airton coloca em questão o nosso repertório e postura de atuação nas lutas, principalmente nas de apoio aos povos originários. Essa sensação me voltou neste começo de ano, após o novo governo assumir, ao ver o crescimento nas redes sociais do apoio dado aos povos indígenas após as invasões de territórios no Pará, no Maranhão e, aqui em Porto Alegre, do suporte que vem sendo dado aos guaranis mbya da Retomada da Fazenda da Ponta do Arado no Belém Novo.

No domingo dia 13, aconteceu a vigília na Praça do Belém Novo em solidariedade aos guaranis após serem atacados, na madrugada de quinta para sexta, por tiros disparados por dois homens encapuzados. Segundo os indígenas, os atiradores seriam seguranças da Zeladoria CFV, que presta serviço a Arados Empreendimentos Imobiliários, megaempreendimento que disputa o território com os mbya.

Nesta quarta, dia 16, outro ato, puxado por lideranças indígenas de aldeias de Porto Alegre e região e que teve uma caminhada do Incra até o Ministério Público Federal, também denunciou o ataque e, ainda, repudiou as medidas do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de transferência de responsabilidades da Funai para o Ministério da Agricultura, inclusive a da demarcação de terras. Em ambos os atos, bandeiras, faixas e falas de coletivos políticos, independentes ou vinculados a partidos.

Na vigília, vi pessoas com camisetas de outras lutas, inclusive a de “Lula Livre”. Bolsonaro é a barbárie para os povos originários, isso é indiscutível e precisa ser combatido. Mas é preciso lembrar a nulidade do do governo petista na garantia dos territórios indígenas e de novas demarcações. Pelo contrário, inclusive pondo em risco vidas, como no caso da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Após o ataque aos indígenas da Ponta do Arado, apoiadores estão se revezando para pernoitar na retomada. Decisão tomada pelos guaranis. Na quarta (16), a Brigada Militar foi chamada pelos seguranças da Zeladoria CFV para intervir e questionar a presença dos brancos no território. Os policiais atenderam o chamado, ficharam os dois apoiadores presentes, ameaçaram de os levarem para fazer uma ocorrência na 21º Delegacia de Polícia, que está acompanhando o caso. Depois de muito papo, de os apoiadores garantirem que era um direito estar ali, de informarem que estavam amparados por uma rede de apoio, os policiais foram embora. Durante a conversa, um investigador à paisana perguntou se os dois apoiadores faziam parte de algum coletivo político, como por exemplo o CPERS (sindicato dos professores estaduais do Rio Grande do Sul). Esta pergunta é emblemática.

É preciso dizer que repudio toda e qualquer perseguição política, seja da polícia, seja de grupos fascistas reais e virtuais, aos coletivos e partidos que apoiam os guaranis. Não é isso que guia minha reflexão, mas o cuidado de não nos apropriarmos e de garantirmos o protagonismo dos indígenas na luta. Também considero importante o apoio dado através das articulações, solidariedade, doações e presença corporal. O que questiono é a necessidade de demarcar a presença dos coletivos, com camisetas, bandeiras e faixas, sempre com os logos dos respectivos grupos. Não podemos nos permitir usar a luta dos povos originários para angariar visibilidade política e projeção.

No âmbito individual, é preciso estarmos sempre atentos no que diz respeito ao nosso apoio à luta, neste momento, dos mbya guaranis na Ponta do Arado ou à luta indígena de forma geral. Ao risco constante de assumirmos uma conduta colonizadora ou apropriadora da luta. É preciso lembrar, nos autolembrar, a todo instante, que o protagonismo da luta é dos guaranis. Estamos apoiando. É necessário escutá-los com atenção, com o ouvido consciente que o tempo de fala e o valor dado à palavra são outros. É preciso estar atento à postura de estar fazendo “caridade”. É preciso estar atento à nossa autopromoção nas redes sociais (se autoagregar capital social entre amigos ou relações com outras pessoas brancas se valendo da luta dos povos originários, mesmo sem se dar conta disso).

Trago essas reflexões, que também me faço, com muito respeito à luta e ao apoio das pessoas autônomas e dos coletivos que estão do lado dos guaranis e dos povos indígenas do Brasil. Contudo, enquanto levantamos bandeiras e trazemos conosco todos as nossas disputas, acúmulos, nossas forças e nossos desgastes de outras lutas e disputas – inclusive a eleitoral -, o corpo que está em jogo não é o nosso, o território que está em jogo não é o nosso. São desafios que se colocam nesse momento de reorganização das prioridades. Do surgimento de novos apoios. Os povos originários nunca deixaram de lutar.

(*) Jornalista e fotógrafo independente