quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa"... VÍDEO



No terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa", sobre iniciativas e atitudes que contribuem para um mundo melhor, o ambientalista, escritor e líder indígena Ailton Krenak fala sobre a importância de entender a Terra como parte de nós, seres humanos. "Se você disser que a natureza é um recurso, ela é um recurso para que e para quem? Além desse grave equívoco de acreditar que a natureza é um recurso, ele vem acompanhado de uma outra percepção: de que a natureza é uma coisa diferente de nós, os seres humanos", diz. O escritor, que lançou em junho deste ano o livro "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", faz uma reflexão sobre a humanidade e a natureza nos tempos atu... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


Vídeo da entrevista no link: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1




FONTE: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


A instigante experiência da “comuna” originária

Criado em 1989, em Goiás, Centro de Pesquisa Indígena congregava diversas etnias. Propagava os saberes ancestrais, acolhia acadêmicos, sem-terra e seringueiros e propunha modelos econômicos sustentáveis. Inspirou uma geração de ativistas

Por Angela Pappiani | Imagem: Beto Ricardo/ISA

Convivendo com povos indígenas há tanto tempo, aprendi a valorizar as histórias antigas, as narrativas que nos ensinam sobre os fundamentos, sobre a origem e o passado, consolidando o presente e o futuro. O que tenho feito, ao escrever para o site Outras Palavras, é buscar compartilhar essa vivência.

Nestes tempos de tantas incertezas, versões contraditórias sobre a verdade, questionamentos sobre os rumos do país, sobre o incômodo representado pelos “índios” que desafiam o progresso e a modernidade, decidi resgatar algumas histórias, não tão antigas assim, mas que talvez possam ajudar a entender as lutas e trajetória do movimento indígena, as ações de afirmação e assim enxergarmos o momento presente e o que vem por aí. Assuntos que não estão na mídia, que ficaram perdidos em registros esparsos num tempo em que o Google não era onipresente.

A primeira história é sobre o Centro de Pesquisa Indígena (CPI) e seu legado.

Uma publicação do Núcleo de Cultura Indígena, de circulação restrita, editada em 1996, apresentava essa iniciativa pioneira nas palavras de seu coordenador Ailton Krenak:

“O Centro de Pesquisa Indígena não é um lugar, é um caminho que liga a memória da criação do mundo, presente nas narrativas tradicionais, no conhecimento antigo, com o conhecimento sobre o novo que é o trabalho do cientista e do pesquisador”.

O CPI foi criado em 1989, logo após a promulgação da nova Constituição que, graças ao trabalho incansável das comunidades indígenas e seus aliados, garantiu direitos básicos aos povos originários.

Espaço físico de convivência interétnica e experimentação, a partir de um sítio nos arredores de Goiânia, o CPI seria o local de implementação do Programa de Formação e Apoio à Pesquisa das Comunidades Indígenas, com o encontro entre o conhecimento tradicional, as novas tecnologias, o conhecimento científico ocidental e acadêmico.

A criação do Centro de Pesquisa Indígena foi inspirada num sonho de Sibupá, importante ancião e xamã do povo Xavante. Sibupá sonhou com o “dono dos animais” que lhe pedia uma ação urgente, mostrando a devastação que os warazu – os estrangeiros, que estavam causando danos à natureza, tirando a possibilidade de sobrevivência dos animais silvestres, base da alimentação do corpo e do espírito dos guerreiros desse povo. Sem o cerrado, sem as frutas, a água e os animais, a vida não seria mais possível. A única chance de sobreviver, segundo os anciãos Xavante, era encontrar aliados e novas tecnologias que dessem conta do ritmo acelerado da destruição. Assim entra na história o Núcleo de Cultura Indígena, organização formal criada pela União das Nações Indígenas (UNI) em 1984 para implementar suas ações e projetos, já que a UNI fora impedida de se formalizar por trazer em seu conceito a diversidade de nações existentes no país. Depois de toda a luta pela Constituição, com as garantias asseguradas aos territórios indígenas, o próximo passo na estratégia era buscar a proteção e gerenciamento desses territórios, afirmação das identidades e alternativas econômicas sustentadas nas tradições para dar respostas ao novo tempo.

Assim, em 1988, começava a ser construída, a partir das demandas dos povos indígenas, uma parceria pioneira com a Universidade Católica de Goiás (UCG), com a mediação do Professor Wanderlei de Castro. Um programa pioneiro, muito anterior à ideia de cotas, e com uma proposta de intercâmbio de saberes e conhecimentos envolvendo jovens estudantes e os anciãos das aldeias. Essa iniciativa não tinha como proposta a criação de profissionais para o mercado de trabalho, mas sim de pesquisadores com ampla formação, com acesso ao conhecimento acadêmico e valorização de suas tradições, buscando respostas para os desafios contemporâneos, com foco na preservação do patrimônio físico, cultural e espiritual dos territórios ao lado da melhoria nas condições de vida das comunidades.

O Programa de Apoio à Formação e Pesquisa das Comunidades Indígenas é implantado a partir de um sítio, nos arredores de Goiânia. Em casas tradicionais construídas pelo povo Xavante, conviveram, durante quatro anos de formação em Biologia Aplicada, os oito estudantes indígenas enviados por suas comunidades. Um currículo especial permitia que esses estudantes indígenas, mesmo sem formação escolar, frequentassem a universidade, as aulas e laboratórios, tendo acesso ao conhecimento acadêmico. Ao mesmo tempo, o espaço do CPI recebia professores e estudantes nas atividades de experimentação, na convivência com os mestres vindos das aldeias. Para essa formação, vieram de Roraima dois jovens do povo Yanomami (Geraldo e Abrahão), dois jovens Tikuna, do Amazonas (Gilson e Bruno), um jovem do povo Suruí, de Rondônia (Almir – que se tornaria depois um grande líder, reconhecido internacionalmente), um jovem Xavante (Jamiro) e dois do povo Krenak (Carlos e Mário). No espaço do sítio foi montado um viveiro de mudas nativas com estudos sobre germinação, viveiros de peixes e camarões nativos, criatório de cateto e queixada, áreas de agrofloresta e recuperação de solos, com assessoria de José Lutzenberg da Fundação Gaia, laboratórios de pesquisa em processamento de frutos nativos.

Toda a estrutura física de ponta montada no sítio, os programas e parcerias e o gerenciamento do Centro de Pesquisa eram de responsabilidade de uma equipe de profissionais do Núcleo, uma organização indígena que pela primeira vez recebia investimentos de várias fontes internacionais para o desenvolvimento independente desse trabalho.

Ao longo desse processo, se juntaram outros centros de excelência como a Esalq (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz), Embrapa, CPAC (Centro de Pesquisas agropecuárias do cerrado), CPAP (Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal) e IBAMA.

Além desse programa, cinco estudantes das etnias Baré, Pankararu, Terena e Kaingang, com segundo grau completo, iniciaram o curso de Direito com a proposta de formação dos primeiros advogados indígenas. Essa iniciativa foi interrompida no segundo ano diante da recusa do Conselho Federal de Educação, do Ministério da Educação, em reconhecer a legitimidade e especificidade dos cursos.

A proposta do Centro de Pesquisa Indígena estava muito além de seu tempo e deixou um legado importante para todos os envolvidos direta ou eventualmente no trabalho. O espaço do sítio reuniu etnias diferentes trocando saberes e impressões do mundo, produzindo cultura e intercâmbios, juntou educadores e estudantes da universidade em torno de conhecimentos milenares, com respeito, escuta, trocas verdadeiras, acolheu trabalhadores rurais sem terra e seringueiros e extrativistas da Amazônia com seus conhecimentos sobre a natureza, provocou novas pesquisas e descobertas nas parcerias com outras instituições, abriu caminhos novos para comunidades indígenas reafirmarem sua identidade, autonomia e relações com a sociedade não indígena.

Depois de quatro anos de atividades a partir desse lugar, no centro-oeste do país e com a parceria com a Universidade Católica, a proposta se expandiu, com pesquisas e formações em outros pontos do país. O território Krenak, que acabava de ser retomado legalmente, depois de décadas de luta, foi um dos núcleos de ação do CPI com o Programa de Reflorestamento e criação controlada de animais silvestres. Todo o esforço do povo Krenak na recuperação de sua terra reconquistada, de sua cultura e autonomia foi brutalmente alterado pelo rompimento da Barragem de Mariana, em 2015, que provocou o estado de coma do Rio Doce e de muitos sonhos da comunidade.

No Estado do Mato Grosso, o Projeto Jaburu, com o povo Xavante, recuperou 20% do cerrado que havia sido devastado pela cultura de arroz e pasto, conseguiu o aumento na população de animais silvestres, adensamento de árvores frutíferas, monitoramento e controle do território.

No Estado do Acre as ações do CPI fortaleceram pesquisas e projetos práticos nas áreas Kaxinawá/Huni Kuin do Rio Jordão e Yawanawá do Rio Gregório, com manejo de caça e pesca, plantio e comercialização de urucum e desenvolvimento e produção do “couro vegetal” – tecido emborrachado com látex para manufatura de diversos produtos, melhorando o ganho para as comunidades extrativistas. Além dos projetos de autonomia econômica, esses povos fortaleceram sua identidade, cultura e tradição em grandes Festivais Culturais que reúnem hoje centenas de pessoas, das velhas e novas gerações, e aliados de vários cantos do mundo em torno da celebração da vida. Na área Ashaninka do Rio Amônia o trabalho se fortaleceu com o manejo de caça e pesca, recuperação de áreas degradadas e pesquisa de essências e princípios ativos florestais para possíveis usos nas áreas da cosmética e medicina, além de coleta de sementes de árvores nativas para reflorestamento comercializadas pela Esalq, a partir de Araraquara, São Paulo. Desde 2007, o Centro Yorenka Ãtame, no município de Marechal Thaumaturgo, consolidou e aprimorou os princípios do Centro de Pesquisa, tornando-se uma referência para os povos indígenas e não indígenas de todo o país, firmando- se como um espaço de diálogo, troca e difusão de saberes da floresta.

Em Rondônia, Almir Suruí e representantes das novas gerações dão continuidade a pesquisas e projetos de proteção da biodiversidade, recuperação e fortalecimento de saberes milenares, geração de renda a partir dos recursos da floresta em pé. A Associação Metareilá foi pioneira na fiscalização do território usando a tecnologia em parceria com o Google Earth e a firmar um acordo de compensação ambiental por sequestro de carbono. Essas e outras iniciativas confrontam as políticas desenvolvimentistas do Estado que causaram a perda de quase toda a cobertura florestal do Estado, de sua biodiversidade, e ainda gerando conflitos e mortes decorrentes da falta de controle sobre garimpos ilegais de ouro e diamantes.

No território Yanomami o legado desse trabalho também floresceu. Davi Kopenawa foi sempre um importante aliado, incentivador e participante ativo da construção do Centro de Pesquisa, contribuindo ao trazer o conhecimento milenar dos Yanomami sobre a floresta. O conhecimento sobre as relações com instituições e outros povos, incorporado na vivência dentro do Centro de Pesquisa, é ainda importante ferramenta para afirmação dos valores do povo Yanomami, em sua relação com o Estado e a sociedade não indígena.

O que essa breve história, apesar de muito resumida, revela? Que depois de lutarem durante anos por uma lei que respeitasse os povos indígenas em sua diversidade, especificidade e em seus direitos dentro da nação brasileira, esses povos continuaram a se mover em direção ao futuro, buscando garantir a integridade de seus territórios, a vida em abundância para as novas gerações, a relação de troca verdadeira com os não indígenas, com a ciência e a academia. Muitas das ações iniciadas na década de 1980 se consolidaram e expandiram trazendo melhoria de vida a essas populações, a partir de sua vontade e determinação, independentemente dos Governos e, muitas vezes, com a própria vida em risco. Benke Pyanko Ashaninka, Almir Suruí, Davi Kopenawa Yanomami e tantos outros líderes têm suas vidas ameaçadas por madeireiros, garimpeiros, grileiros, políticos corruptos, pelos interesses econômicos de grandes corporações. Apesar do reconhecimento nacional e internacional ao empenho desses líderes na valorização da diversidade de culturas e formas de vida, essa luta parece estar sempre na contramão dos interesses do Estado que não garante a integridade de suas vidas.

As conquistas nunca foram e não serão fáceis pois o confronto é com um modelo que valoriza as conquistas materiais, colocando o lucro e a exploração acima de tudo e todos. Só a conexão com os ancestrais e o mundo espiritual pode dar a proteção e o ânimo para que a luta continue.

As leis escritas no papel, infelizmente estão sujeitas aos desejos dos grandes poderosos e a eles se dobram. Todas as descobertas da ciência ocidental sobre a importância das florestas para o planeta, que vêm confirmar o conhecimento milenar dos povos indígenas, não conseguem dialogar com a mentalidade egoísta e mercantilista de boa parte da humanidade. Os povos tradicionais sabem que cada ser da natureza é vivo, tem humor e um papel crucial na sobrevivência de todo o coletivo. Que sendo parte da natureza, os homens têm responsabilidade sobre suas ações e o futuro de nossa casa comum, o planeta. E esses povos fazem sua parte, conquistam novos conhecimentos, criam novas oportunidades, mostram caminhos, se alegram em contar suas histórias. A quem quiser escutar.

FONTE: https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/a-instigante-experiencia-da-comuna-indigena/



terça-feira, 3 de setembro de 2019

AMAZÓNIA É O SÍMBOLO DA NECESSIDADE DO FIM DA ERA DO ANTROPOCENO

Publicado por Mário Jorge Branquinho | Ago 27, 2019 | Opinião / Entrevista


A Amazónia está arder. O pulmão da Mãe Terra mirra a olhos vistos com a desflorestação ilegal e as queimadas não autorizadas que teimam em desventrar um património que é de todos Nós. Da Humanidade. Das futuras gerações.

Em 2018, aquando da realização da 24º edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, temia-se o pior. O espectro do resultado eleitoral fazia antever o que hoje é a mais dura e cortante das realidades. Mesmo para quem vive noutro país, que não o Brasil e sem qualquer laivo de intromissão na soberania de um país.

Mas o facto é que se assiste à destruição do bioma Amazónia e, consequentemente, a aniquilação dos direitos dos povos indígenas, a usurpação das terras nativas e das unidades de conservação estão a ser subtraídas a olhos vistos e à luz da impunidade. Com uma voracidade alarmante. As estatísticas revelam que, comparativamente com o ano passado, no Brasil, o número de fogos cresceu 82%. O bioma mais afetado é, claro, a Amazónia. Este é o legado da chamada Era do Antropoceno. Um legado economicista. O divórcio entre o Homem e a Natureza.

Num discurso emotivo no I Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, AILTON KRENAK, escritor, pensador ambiental e uma das mais importantes vozes dos direitos indígenas, alertava para a consciencialização das massas face ao rumo político do Brasil. No momento em que escrevo este artigo, a Amazónia arde há mais de 10 dias! Estamos em pleno agosto de 2019 e o cenário é de calamidade. Há quem já fale em “Holocausto Ambiental”. Exagerado?

A ONU está preocupada, e de muitas partes do mundo, que não só do Brasil, emergem preocupações e manifestações.

Certo é que os dias pereceram e deram lugar à fumaça e a noites forçadas em várias cidades brasileiras. Dias tristes estes que se avizinham nos “Trópicos”. O verde aos poucos vai sendo substituído por um manto negro. Mas, como vaticina o livro de Ailton Krenak, é preciso adiar o fim do mundo. Como? Com a Educação das Gerações que hoje assistem à calamidade e sabem que algo tem de ser feito e assumido JÁ.

A juventude da Emergência Climática encabeça um movimento que deve ser abraçado por todos nós. Até pela Geração que tudo sabe e nada fez! Curiosamente, na edição em que comemoramos 25 anos de CineEco assistimos ao pior dos episódios ambientais à escala planetária. Estaríamos longe de imaginar que, no ano em que idealizamos um Festival Internacional de Cinema Ambiental, em 1995, a nossa missão de consciencialização e papel de Educação das camadas jovens seria ainda mais premente. Não nos passava pela cabeça que iríamos chegar a este patamar de Emergência Climática em 2019. Na verdade, estamos numa situação limite em quase todas as frentes, como aliás testemunham as centenas de filmes e documentários ambientais que nos chegam de todo o mundo.

O CineEco tem mostrado ao longo das suas 25 edições, ser um instrumento fundamental para a Educação Ambiental. Somos durante uma semana o grande ecrã do mundo e da crise ambiental que chegou a uma situação perto do irreversível. Com a exibição de centenas de filmes apresentados ao longo da nossa história encontrámos a nossa missão e a melhor forma de contribuir para a mudança, valorizando a maneira como pensamos e agimos em relação ao nosso planeta.

Como um dos mais antigos Festivais do mundo dedicado ao Cinema de temática ambiental, assumimos pois a nossa responsabilidade e empenho em mudar. Por mais 25 anos ou mais… até quando a Terra permitir e a Humanidade acordar.

Nunca é tarde para AGIR!

FONTE: http://smart-cities.pt/opiniao-entrevista/amazonia-cine-eco2708/

As cinzas funerais e a resistência indígena

Em SP, o céu parecia dobrar-se sobre a terra. Mas se não era a profecia Yanomami do fim do mundo, poderia significar um recomeço: levantar-nos contra os crimes na Amazônia e garantir qualidade de vida para os povos das florestas


As nuvens negras que na segunda feira, dia 19 de agosto, transformaram o dia em noite em São Paulo, não trouxeram para o sudeste somente fumaça e fuligem das queimadas da floresta. O que elas trouxeram e despejaram sobre nossas cabeças foram cinzas funerais, os restos mortais de árvores centenárias, ervas de cura e flores, aves, mamíferos, infinidades de repteis, insetos e microrganismos, seres vivos que constituíam um sistema complexo construído ao longo de milhares de anos. São restos mortais que continuam sendo trazidos pelo mesmo vento que deveria nos trazer o ar puro gerado pela floresta, a umidade que garante a chuva, o equilíbrio da temperatura.

A chuva negra lavou a fuligem e fez voltar à terra essas partículas transformadas pelo fogo. A atmosfera recebeu a outra parte desses corpos transformados em gases que vão se acumular a outros gases que já alteram o clima do nosso planeta.

Mas boa parte dos humanos, cidadãos comuns e aqueles com poder sobre leis, corporações, governos e sistemas financeiros não enxergam o que está acontecendo, recusam os números apresentados por instituições sérias que revelam o crime contra a humanidade e o planeta que está em curso.

O assombro da população das cidades diante da escuridão e da água negra da chuva dura o tempo de um telejornal. A água da chuva reservada para molhar as plantas ou lavar o quintal foi descartada, a roupa suja foi lavada de novo e a vida segue. É muito difícil mudar hábitos, abrir mão das facilidades ilusórias de nosso mundo consumista. A ruptura entre humanos e natureza é tão profunda que a maioria das pessoas não percebe que suas ações geram reações, que todos nós somos responsáveis pela degradação do planeta e seremos cobrados duramente por todo desrespeito e equívoco.

Para quem já presenciou uma mata em chamas, e eu tive a infelicidade de ver tratores arrastando árvores e homens colocando fogo no que resta depois da retirada da madeira de interesse comercial, a imagem fica guardada na memória para sempre. A imagem, o cheiro sufocante, o calor, a fuligem, os sons assustadores, gritos e gemidos de árvores e animais tentando sobreviver.

Os últimos acontecimentos trouxeram à minha memória cenas da década de 1980 quando a Amazônia também ardia e era transportada em caminhões para as serrarias, quando a mata queimava e deixava um rastro de destruição que logo era “recuperado” pelos pastos e vilas que se formavam naquele lugar remoto e “desabitado” que o governo militar queria incorporar ao território brasileiro, salvando-o da selvageria e do atraso.

Naquela época, a abertura de estradas, o desmatamento e a exploração da floresta eram pautas do governo, publicamente incentivados e festejados. O desmatamento era cláusula de contratos de cessão de terras pelo INCRA aos colonos que ocupavam Rondônia e Acre. Substituir a floresta por plantações e pastos era o grande objetivo. E esse movimento ocupacionista, desenvolvimentista, passava por cima das populações indígenas, de seringueiros e ribeirinhos, de pessoas que sabiam viver e conviver com a floresta, protegendo sua biodiversidade, contribuindo para seu enriquecimento e fortalecimento.

O Polonoroeste (Programa de Desenvolvimento Integral do Noroeste do Brasil), criado em 1981 no governo do General Figueiredo e herdado por José Sarney, primeiro presidente civil depois de 20 anos de governo militar, tinha como objetivo o asfaltamento da BR-364, ligando Cuiabá a Porto Velho e Rio Branco e a ocupação desse território. Para mascarar o problema agrário do país, a luta pela Reforma Agrária, o Programa levava para a região norte milhares de trabalhadores sem-terra desalojados de suas pequenas ocupações no sul e sudeste do país, onde um novo modelo de agricultura, mais “eficiente”, mecanizado e capitalizado, voltado para a melhoria na produção de grãos para a exportação que começava a se desenvolver. Os pobres brancos do sul foram despachados para ocupar as florestas com a obrigação de transformar as áreas cobertas de “mato” em propriedades agrícolas exitosas. Em outro artigo já contei um pouco dessa história, do conflito a que foram jogadas essas pessoas, sem nenhum preparo ou vocação para viverem na floresta, confrontando-se com as populações que ocupavam tradicionalmente aqueles lugares. O traçado dos lotes quadradinhos era desenhado no mapa, com linhas retas, indicando as estradas principais e as vicinais, até hoje denominadas por Linhas e numeradas, sem levar em consideração a topografia, a hidrologia, o tipo de solo. Um absurdo que levou ao abandono ou à venda dos lotes para os grandes proprietários que assim acumularam grandes extensões de terra.

Esse desastre foi financiado pelo Banco Mundial num acordo onde a proteção ambiental e às populações indígenas eram cláusulas condicionantes. Mas nada do que estava prometido no papel, nem mesmo a solução do caso dos colonos, foi cumprido. E durou muito tempo sem que o crime oficial fosse reconhecido. Os povos indígenas foram os primeiros a se manifestarem, pois estavam perdendo seus territórios, suas vidas e o patrimônio ambiental de que dependem para viver. Os seringueiros e extrativistas se juntaram à luta e alguns ambientalistas, jornalistas e antropólogos trouxeram mais informações e estudos científicos para legitimar um grito que, por si só, já era potente e dramático.

Chico Mendes, AILTON KRENAK, Davi Yanomami e o grande ambientalista José Lutzenberger foram algumas das lideranças a denunciar a devastação e o desrespeito aos direitos humanos ao Congresso Norte Americano, à ONU, ao Banco Mundial, à população. O Programa de Índio, programa de rádio realizado pelo Núcleo de Cultura Indígena e veiculado pela Rádio USP de 1985 a 1991, cobriu as ações, as denúncias, trouxe matérias e depoimentos sobre o assunto. A série de documentários A Década da Destruição acompanhou durante dez anos, de 1980 a 1990, o drama e as consequências dessa política de ocupação da Amazônia. Um trabalho de muita dedicação e coragem do diretor Adrian Cowell e sua equipe brasileira, ligada à Universidade Católica de Goiás, Vicente Rios e Wanderley de Castro. Em quatro episódios, a série desvenda os fatos, traz depoimentos de pessoas do governo e das vítimas desse massacre, acompanha o drama dos colonos sucumbindo às doenças e hostilidade de um ambiente que não conheciam, o drama dos povos indígenas ainda sem contato ou os que lutavam contra a invasão de seus territórios, apresenta dados e comove pela força das imagens.

Esses documentários foram exibidos no Brasil e exterior, causando grande impacto no público e contribuíram para escancarar o crime que se cometia na época. Os realizadores enfrentaram ameaças, emboscadas, tentativas de difamação, mas sua obra foi reconhecida e permanece até hoje como testemunho desse período.

A sensação agora é de que entramos numa máquina do tempo e voltamos mais de 30 anos. Os mesmos argumentos, a mesma busca por um modelo de progresso ultrapassado, ocupação dos “territórios vazios”, exploração sem limites da natureza, entrega de riquezas e patrimônios ao capital mais obtuso, a negação do direito dos povos indígenas viverem sua cultura e modo de vida, a criminalização de lideranças e organizações não governamentais, a violência e mortes.

Não que a situação dos povos indígenas e extrativistas tenha sido fácil ao longo do tempo. Independentemente da posição ideológica dos governos, a miopia para a questão ambiental parece impedir a visão da realidade. A luta tem sido diária, permanente, mas, de alguma forma, nos últimos 30 anos, protegida por leis e acordos internacionais que não permitiam as ações descaradas e impunes que voltam agora, com o aval do governo, com a promessa de mudanças na lei, oficializando o assalto à floresta e aos minérios do subsolo, com acordos anunciados com orgulho.

Como há três décadas, os povos indígenas, guerreiros e guerreiras, estão buscando o espaço público para denunciar os crimes e afirmarem que não lhes interessa engrossar as estatísticas da pobreza no Brasil. Que é possível um outro modelo de desenvolvimento com foco na natureza e na qualidade de vida das pessoas que habitam a floresta.

Milhares de mulheres de dezenas de etnias ocuparam Brasília entre 9 e 13 de agosto na I Marcha das Mulheres Indígenas com sua beleza, pinturas, cantos, apoiadas por seus companheiros e filhos, juntando sua força a outras milhares de mulheres do campo na Marcha das Margaridas acontecida no dia 14. Uma demonstração de força e resistência.

Os povos indígenas querem a floresta em pé, os rios sem mercúrio e pesticidas, o ar sem veneno, a natureza viva e generosa como sempre foi, dando em troca do cuidado e do respeito com que é tratada, o ar puro e a cura para a fome e as doenças do corpo e da alma. Quando vamos acordar? Na segunda feira, dia 19, parecia que profecia dos Yanomami se cumpria, era como se o céu desabasse sobre a terra. Precisamos de consciência e ações para adiar o fim do mundo. Davi Yanomami e Ailton Krenak têm falado sobre isso.

Os quatro documentários da série A Década da Destruição: Na trilha dos Uru Eu Wau Wau, O caminho do fogo, Nas cinzas da floresta e Tempestades na Amazônia podem ser adquiridos junto com outros trabalhos de Adrian Cowell através do IGPA (Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia). Os livros A Queda do Céu de Davi Yanomami e Bruce Albert e Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak estão nas livrarias.

FONTE: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/as-cinzas-funerais-e-a-resistencia-indigena/

Para quem valoriza a arte e a cultura, e felizmente a turma ainda é grande, uma boa notícia: o 26º Porto Alegre em Cena estará nos palcos da cidade de 10 a 23 de setembro

Para quem valoriza a arte e a cultura, e felizmente a turma ainda é grande, uma boa notícia: o 26º Porto Alegre em Cena estará nos palcos da cidade de 10 a 23 de setembro. Ao lado de espetáculos nacionais e de vários outros países, a edição deste ano terá 53 atividades que incluem mesas, palestras e residências artísticas. Uma das propostas mais interessantes, a discussão da nossa identidade a partir dos povos originários do Brasil, trará a Porto Alegre Ailton Krenak e Davi Kopenawa, duas das mais importantes lideranças indígenas de hoje, que permanecerão na cidade durante o festival. Segundo Fernando Zugno, diretor-geral do Em Cena, a ideia é provocar uma reflexão sobre a humanidade, suas potências e fragilidades, o que vai incluir também questões como a natureza e os processos migratórios.

O Em Cena une, ao longo da sua programação, elencos de fora com artistas locais, variando das temáticas mais densas às montagens populares, todas bem avaliadas pela crítica e pelo público. A seguir, alguns destaques. Lembrando que quem for aos espetáculos vai encontrar, na grande maioria deles, com a Alice Urbim, madrinha do festival e uma das grandes incentivadoras do teatro e da cultura em Porto Alegre. Homenagem mais do que merecida a ela.


Dakh Daughters (Ucrânia) - Dia 10/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Composta por sete mulheres que tocam mais de 15 instrumentos em cena e cantam em diferentes línguas e dialetos, a banda ucraniana Dakh Daughters faz uma junção de estilos e musicalidades, misturando canções folclóricas da Ucrânia, rap francês e ritmos orientais, em uma potência criativa-experimental de tirar o fôlego.

Las Flores del Mal o La Celebración de la Violencia (Uruguai) - Dia 12/9, às 20h, no CHC Santa Casa

Interpretado pelo próprio autor, Sergio Blanco, o solo em forma de conferência trata de forma poética a questão da violência em suas mais diversas faces.

Happi - A Tristeza do Rei (França) - Dias 18 e 19/9, às 20h, na PUCRS

Espetáculo de dança contemporânea criado por dois artistas de origem africana radicados na França, o camaronês James e o algeriano Heddy Maalen.

Protocolo Elefante (SC) - Dias 11 e 12/9, no Teatro Renascença

O espetáculo do Grupo Cena 11 propõe uma metáfora sobre separação e exílio a partir do afastamento e isolamento do elefante na iminência de sua própria morte.

PI Panorâmica Insana (RJ) - Dias 14 e 15/9, às 20h, no Teatro do Sesi

Em um impactante cenário composto por 11 mil peças de roupas com as quais os atores se vestem durante a ação, o espetáculo de Bia Lessa - que trouxe ao festival, no ano passado, sua monumental adaptação do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas - apresenta Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo interpretando mais de 150 personagens.

Gota D'água {Preta} (SP) - Dias 21 e 22/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Montagem do premiado ator, diretor e dramaturgo Jé Oliveira - fundador do Coletivo Negro e indicado ao Prêmio Shell 2019 na categoria Inovação, pela releitura desta obra. O musical escrito originalmente por Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1975, inspirado na Medeia de Eurípedes, é encenado pela primeira vez com elenco predominantemente negro, misturando clássicos de Chico com estilos da periferia, como funk e hip hop.

E.L.A. (CE) - Dias 20 e 21/9, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa

Solo da atriz Jéssica Teixeira com temática diretamente relacionada ao corpo, trazendo questões como beleza, saúde, política, feminilidade e acessibilidade. A peça mistura vídeo, artes plásticas e dramaturgia por meio de colagens e textos autobiográficos que refletem acerca da aceitação e do nosso lugar no mundo.

O Silêncio do Mundo - Dia 19/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Em tempos de natureza ameaçada, o Em Cena examina a temática indígena brasileira a partir de alguns questionamentos: o que nos é invisível? Com o que estamos nos conectando? Até quando poderemos dançar para segurar o céu? O trabalho reúne o líder indígena e ambientalista AILTON KRENAK, a artista performer Andréia Duarte, o embaixador indígena Davi Kopenawa e o xamã Levi Yanomami.

FONTE: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/claudia-tajes/noticia/2019/08/viva-o-teatro-cjzx5mdqr07hx01qmqjg7t0x2.html

Ailton Krenak pede ‘condenação internacional’ de Bolsonaro por política ambiental

O líder indígena Ailton Krenak afirma que o presidente Jair Bolsonaro deve ser “condenado internacionalmente” por sua ofensiva contra as reservas indígenas, que ele pretende abrir à mineração, uma ameaça para a Floresta Amazônica e o equilíbrio do clima no planeta.

O dirigente, de 65 anos, sabe do que fala. Os Krenaks vivem como “refugiados em seu próprio território” nas margens do rio Doce, atingido em 2015 pelo rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton), no município de Mariana (Minas Gerais).

Em seu último livro, “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak alerta sobre o crescimento em todo mundo de uma “intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar” e afirma que sem uma transformação profunda nos tornaremos uma humanidade de “zumbis”.

– O constituinte pintado –

Krenak ficou conhecido em 1987 quando discursou no plenário Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte em defesa dos direitos dos povos indígenas, vestindo um terno branco, enquanto pintava o rosto com as mãos usando tintura de jenipapo, segundo as tradições de seu povo, para expressar sua tristeza.

A Constituição de 1988, elaborada após a longa ditadura militar (1964-1985), finalmente garantiu aos povos indígenas o direito de ocupar suas terras ancestrais, demarcadas pelo Estado.



A aplicação dessa medida sempre foi envolvida por conflitos e sob suspeita dos militares nacionalistas de comprometer a soberania do Brasil, com o apoio de ONGs internacionais.

Mesmo assim, atualmente existe 1,17 milhão de km2 de terra demarcada (13,8% da superfície do país), onde vivem 800.000 indígenas.

“Muita terra para pouco índio”, disse Bolsonaro na semana passada, quando os incêndios se multiplicaram na Amazônia, principalmente por causa das atividades de desmatamento, segundo especialistas. Em meio a essa tragédia ambiental, o presidente acrescentou que acabaria com a “psicose da demarcação”.

Krenak multiplica suas ações para combater essa ofensiva e considera que conceder o Prêmio Nobel da Paz ao cacique Raoni – que recentemente teve um encontro com o Papa Francisco – seria uma “excelente” oportunidade para o mundo entender a importância da causa indígena.

A AFP entrevistou Krenak na noite de sábado no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde apresentou uma exposição da fotógrafa Claudia Andujar sobre os Ianomâmis, uma etnia que trava uma longa luta pela sobrevivência na fronteira entre Brasil e Venezuela.

A seguir, algumas de suas declarações.

– Novos perigos para a Amazônia

“Eu acho que (a situação atual) é um perigo novo. É um perigo novo porque o capitalismo nunca esteve tão enlouquecido como agora. As corporações derrubam governo e elegem governo. (…) Aí, abre uma situação de violência, de descontrole, onde o interesse privado governa as nações e os povos, e o interesse público está cada vez mais reduzido, negado. O interesse público é como se fosse um absurdo. As políticas públicas são como se fossem uma palhaçada”.

– Mineração nas reservas indígenas

“Com o contexto de mudanças climáticas no planeta, a corresponsabilidade dos povos, inclusive dos povos indígenas, é diminuir a intensidade das atividades de regiões onde a ecologia tem o papel regulador do clima planetário, que é o caso da Amazônia, e outras regiões onde os povos indígenas guardam diferentes territórios. Esse tipo de comentário é uma ofensa e deveria ser punido com uma condenação internacional”.

– Soberania nacional e ONGs

“Esse assunto nem me toca na verdade, porque nós somos ocupados pelas corporações (…) Se o Estado tem algum problema com as ONGs, deveria ter algum problema com as corporações também”.

– Resistências

“Se os brancos não forem capazes de resistir à agressão contra as florestas, aos rios, ao meio ambiente, vão destruir tudo”.

– Nobel para Raoni

“Eu acho que qualquer espaço que for dado para a voz e para o pensamento indígena é bom. Se Raoni receber o Nobel, o qualquer outro prêmio, ele vai estar compartilhando isso com o povo Caiapó, com os povos indígenas, com todos nós, e isso é ótimo”.

– Situação do povo krenak

“Não é de agora. Nós estamos há três anos no rio Doce sendo abastecidos por caminhão-pipa, sendo supridos por água mineral que vem de fora, e recebendo ração, né? Recebendo as cestas básicas para manter o povo acampado à beira de um rio que está em coma. Então isso é uma situação alarmante, é grave. Gente refugiada dentro de seu próprio território, já é uma ofensa e é grave. E as mineradoras, as empresas que causaram isso, estão por aí, operando com licença pública, com licença do governo. Eu acho escandaloso a situação que nós estamos vivendo no país”.

Fonte: https://www.istoedinheiro.com.br/ailton-krenak-pede-condenacao-internacional-de-bolsonaro-por-politica-ambiental/

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fé, calma e sabedoria contra o caos: o que recomenda este líder indígena

Autor de 'Ideias para adiar o fim do mundo', Ailton Krenak debateu-as em BH, durante o Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21


(foto: Neto Gonçalves/Divulgação)

Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak fez um gesto que entrou para a história. Em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos indígenas, ele pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional, em Brasília. “Se for para repetir esse gesto, tomara que seja com mais gente. Um homem sozinho não consegue nada. Mas não adianta ficar estressado, angustiado. Mesmo diante desse caos, precisamos não perder a fé e a calma. É preciso resolver as coisas com sabedoria”, afirma Krenak, que esteve em Belo Horizonte na quinta-feira passada (22), como convidado do Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21, promovido pela Prefeitura.


Apesar do tom sereno, Krenak não esconde a preocupação, sobretudo com relação às mais recentes tragédias ambientais, como as queimadas em curso na Amazônia. “A Amazônia é um bioma complexo e regulador do clima e distribui chuvas, além de reciclar e limpar o oxigênio do planeta. Os governos europeus sabem dessa importância e por isso estão se manifestando, preocupados com a situação”, observa Krenak. Para os povos indígenas, no entanto, a relação é outra. “É como se fosse uma entidade à qual muitos povos se sentem vinculados e na obrigação de protegê-la.”


Embora valorize a preocupação dos governantes europeus, o líder indígena avalia que eles deveriam ter tomado decisões em relação à proteção da Amazônia há muito tempo, como a suspensão das importações de carne de boi, de frango, soja e minério. “A pecuária, a mineração, tudo isso está devastando nossas paisagens, nosso meio ambiente. França, Alemanha e outros países deveriam colocar alguma restrição na hora de importar esses produtos. Já que nosso presidente decidiu avacalhar tudo, ele mesmo poderia fazer algo nesse sentido. Proibir a venda dessas mercadorias, por exemplo”, sugere.

Krenak é pessimista com as perspectivas do governo de Jair Bolsonaro. Particularmente, ele se refere ao presidente como Nero, o imperador romano famoso por ter incendiado Roma. “Vivemos um período crítico, com ameaças aos direitos humanos, à ideia do Estado de direito. Enquanto existir esse governo agredindo o senso comum, desrespeitando tudo e todos, desmantelando a infraestrutura de governança que recebeu, a gente não tem esperança nenhuma de melhorar. Mas temos que seguir firmes, fortes e resistentes”, afirma.

Krenak celebra o fato de autores indígenas estarem conquistando espaço no mercado editorial. “É muito importante (os editores) se interessarem e valorizarem não só o que os indígenas têm feito, mas os quilombolas também. Temos que ampliar essas vozes”, diz.

Atualmente morando em Resplendor (MG), às margens do Rio Doce, região de origem dos Krenak, ele lamenta as condições a que seu povo está submetido, principalmente após o rompimento da barragem da Samarco, em 2015. “Ainda estamos sentindo os efeitos. Estamos refugiados dentro de casa, como se fosse um acampamento dentro do nosso próprio território. Temos caminhão-pipa trazendo água, os animais sendo alimentados com ração. Infelizmente, o Rio Doce ainda vai demorar muito para voltar a ser uma fonte de subsistência. Ouso dizer que ele está pior do que o Arrudas.”

Enquanto isso, o líder indígena segue a filosofia de sua etnia, com a “cabeça na terra”, que é o significado da palavra Krenak. “Cada cultura tem a sua maneira de orar. No nosso caso, a gente se ajoelha e coloca a cabeça na terra para se ligar a ela, fazendo contato com esse planeta tão maravilhoso. É assim que temos que continuar.”

FONTE: https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2019/08/25/interna_cultura,1079473/fe-calma-e-sabedoria-contra-o-caos-o-que-recomenda-lider-indigena.shtml