sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A humanidade que pensamos ser

Como conectar duas humanidades tão distantes: a que enxerga o rio como divindade e o que a enxerga como insumo?

CLAUDIA PENTEADO*
26 DEZ 2019 - 13H08 ATUALIZADO EM 26 DEZ 2019 - 13H08

Ailton Krenak demorou alguns anos para aceitar cruzar o oceano e ir a Portugal. Imagino o que representa para um homem indígena do Brasil, não só hoje mas em qualquer tempo, pisar na terra dos homens brancos que aportaram nos trópicos com suas ideias civilizatórias pré-concebidas, procurando enquadrar o que rapidamente rotularam de sub-humanidade atrasada e selvagem no seu próprio modelo. Mundo afora, no curso da história, homens brancos de diferentes origens (principalmente europeia) "evoluíram" e se "civilizaram" ao "dominar" a natureza e adquiriram uma espécie de licença para definir regras e comportamentos sobre o modo ideal e correto de existir no planeta.


Curiosamente, foi de palestras e entrevistas dadas em Portugal que nasceu uma pequena preciosidade em forma de livro, "Ideias para evitar o fim do mundo", com as ideias do ativista — hoje reverenciado por muitos — a respeito do Antropoceno, como alguns cientistas denominam a época que vivemos hoje, justamente definida como aquela em que os humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra. No seu pequeno grande livro, Krenak escancara o estranhamento diante desta humanidade — que definitivamente é outra, e não a dele — que se apartou da natureza, deixando de enxergar a si própria como parte dela e, portanto, de respeitá-la, para transformá-la em insumo.


"O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno", afirma Krenak. De alguma forma, a humanidade se apegou ao imaginário coletivo da terra como a grande mãe, com sua teta eterna provendo alimento ad-infinitum, farta, próspera e amorosa, sempre disponível.

O povo indígena Krenak, do qual faz parte o ativista, vive em uma área demarcada em Minas Gerais às margens do rio Doce, profundamente atingido pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, em 2015. O rio hoje morto pelos humanos "civilizados" era sagrado para os Krenak. Chama-se Watu, avô do povo — uma pessoa, portanto, e não um recurso. Isso dá uma dimensão da distância entre valores dessas diferentes humanidades. "Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista", escreve.

O livro de Krenak é de grande valor por diversos motivos, e chamou especialmente a minha atenção sua reflexão sobre o desafio de conectar humanidades tão díspares — a que se considera a verdadeira humanidade superior à natureza e orientada pelos rumos calculados da ciência, e as sub-humanidades como os Krenak, que nunca se enquadraram nos moldes idealizados e cristalizados por centenas de anos. E eis que estamos aqui, todos juntos, humanidade e sub-humanidades, rumando em direção ao mesmo abismo.


Diante da iminência da queda — que já vem ocorrendo faz tempo, mas agora em ritmo mais acelerado — Krenak propõe a todos o uso de pára-quedas coloridos. É sua proposta simbólica para a humanidade que dominou o planeta, de reconexão com a natureza e com a humanidade dos Krenak, iniciada na tradição de sonhar. Krenak propõe que se avance para o lugar do sonho para visitar outra ordem de vínculo com o mundo, bem distanciada da metáfora de natureza criada para consumo humano. Para os "quase humanos", como costumam ser rotulados os Krenak, o mundo tem outra potência. E fazer a humanidade enxergar esta potência talvez possa ajudar a salvar a todos.

Krenak acredita que talvez a única maneira de promover alguma conexão entre humanidades tão díspares é a via da subjetividade, acessando lugares distanciados do racional, onde os afetos se conectam.

Diante disso, venho refletindo bastante sobre a viabilidade do chamado "novo capitalismo" que tanto se discute hoje. Seria um novo olhar por parte das pessoas e suas empresas, baseado em uma economia "sustentável". É interessante como Krenak chama atenção inclusive para o termo "sustentabilidade", criado pela humanidade com um sentido utilitário. Vale refletir sobre o que precisa, afinal de contas, ser sustentado. A exploração em nome do desenvolvimento e da economia capitalista? O ciclo exploratório interminável da natureza como recurso, sem que "a grande teta" seque jamais?


O novo capitalismo parte das bases do capitalismo inventado por essa humanidade que está aí, a mesma que criou o conceito de sustentabilidade — e que ainda sustenta a ideia da natureza como recurso, mesmo que de maneira mais consciente. E ainda se sustenta sobre a ideia da hegemonia e superioridade do homem — e de sua técnica, sua ciência, sua economia, sua produção, seu capital, seu lucro. É com isso que devemos lidar.

Penso sempre no imenso dilema de CMO's diante do desafio de buscar o equilíbrio entre entregar resultados e encontrar o propósito que justifique o que sua empresa faz, e um jeito de estar no mundo menos danoso ao meio ambiente, cuidando do impacto social que ela gera.

As mesmas empresas que no passado agiram como bem entenderam em nome dos seus objetivos financeiros e frequentemente contribuindo para excessos consumistas hoje se deparam com novas regras gerais no ambiente e, principalmente, gerações de "consumidores" que esperam algo diferente delas — e desconfiam um bocado desse tal de "marketing". O livro e o movimento "Good is the new Cool", de Afdhel Aziz e Bobby Jones, é resultado dessa busca pelo resgate de sentido da profissão do marketing e do dilema que a acompanha: como ser bons profissionas e bons cidadãos, ao mesmo tempo?


Certamente hoje a maioria de CMO's e profissionais sérios envolvidos na missão de dar voz às marcas se preocupa em causar algum impacto positivo ao planeta, e vem procurando fazer o que é possível, com altíssimas doses de frustração envolvidas. Fundamental, mesmo, é enxergar seu quinhão de responsabilidade para com o abismo diante do qual nos encontramos e com o qual todos contribuímos, cada um a sua maneira. Como diz Krenak, encomendamos há 200, 300 anos este mundo em que estamos vivendo. O pacote chegou, e está aqui. É com ele que temos que lidar. E a pergunta é: que mundo estamos empacotando agora, para deixar para as próximas gerações? Como diz Krenak, "a gente vive reclamando, mas essa coisa foi encomendada, chegou embrulhada e com o aviso: 'depois de abrir, não tem troca'."

Sempre bom lembrar e refletir sobre a humanidade que pensamos ser, e a humanidade que queremos ser. Feliz 2020!

*Claudia Penteado é jornalista, estuda comunicação, filosofia e literatura, mora no Rio de Janeiro e acredita em capitalismo consciente. É leonina, mãe da Juliana e prefere ler livros em papel.

FONTE: https://epocanegocios.globo.com/colunas/Marketplace-ideias-e-inovacao/noticia/2019/12/humanidade-que-pensamos-ser.html

sábado, 30 de novembro de 2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Natureza Viva comemora o Dia do Rio

Para o povo Krenak a natureza é parte da família. O Rio Doce por exemplo é o avô: WUATU, na língua indígena
Natureza Viva
No AR em 24/11/2019 - 11:48

Comemorando o Dia do Rio, o Natureza Viva conversou com o líder indígena Ailton Krenak sobre a relação de seu povo com a natureza. Para eles os rios são nossos avós ou WUATU, na língua indígena. Também ambientalista e escritor, Aílton acaba de lançar mais uma obra, o livro "Ideias para adiar o fim do mundo".

No livro, ele fala sobre a importância dos vínculos profundos que os indígenas têm com a memória ancestral e com a natureza. Para eles, o homem e o meio ambiente não estão separados, por isso, as pedras, as montanhas, as árvores e os rios são tratados como membros da família.

O também ambientalista e escritor saúda o Rio Doce

Ailton é um dos mais importantes líderes indígenas do país

OBS: Acompanhe o bate papo completo no player do site!

FONTE: http://radios.ebc.com.br/natureza-viva/2019/11/no-dia-do-rio-o-natureza-viva-sauda-wuatu

Nova série do Canal Curta! aborda a consciência muito além do ser humano

Por Roberto Scalon -26 de novembro de 2019


Cientistas, filósofos, psicólogos, espiritualistas e ativistas sociais. Todos especialistas no tema da consciência, mas com abordagens por diferentes perspectivas. Assim se dá o enredo de “Consciência³”, nova série do Canal Curta! com direção de Renato Barbieri e estreia marcada para esta quinta (28). Pensadoras e pensadores refletem sobre o fenômeno universal da consciência.
A série tem como objetivo aprofundar o tema universal da consciência, com base no testemunho de pensadores e pensadoras, “pessoas realmente conectadas com o conhecimento universal”, de acordo com Renato. Um elenco estruturado que de fato se debruça sobre o tema, escolhidos a dedo de forma equilibrada entre gêneros e com presença essencial afro-brasileira e indígena. Nas palavras do diretor, “o elenco está no geral sintonizado com a Rede da Vida e não se encontra encarcerado pela mentalidade antropocêntrica. A série Consciência³ nos fala da Vida e de nosso tempo atual, cada vez mais vertiginoso”.
Entre os nomes escolhidos, o neurologista Antônio Damásio, o cientista espiritualista Fritjof Capra, o cientista de sistema Gaia Antônio Nobre, o pensador indígena Ailton Krenak, a filósofa Scarlett Marton, o historiador Luiz Marques, o psicólogo Guto Pompéia, o cosmologista Luiz Alberto Oliveira, a pensadora Lia Diskin, o filósofo Roman Krznaric, o psicólogo Roberto Gambini, o agroflorestal Ernst Götsch, o ativista Edgard Gouveia Júnior e outras pessoas notáveis.
“Consciência³” estreia dia 28 de novembro, às 23h no Canal Curta!.

FONTE: https://acessocultural.com.br/2019/11/serie-aborda-a-consciencia-muito-alem-do-ser-humano/

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Conheça tudo sobre Consciência, nova série do canal Curta!

Por
Daniela Carrano -
14/11/2019

Cientistas, filósofos, psicólogos, espiritualistas e ativistas sociais. Todos especialistas no tema da consciência, mas com abordagens por diferentes perspectivas. Assim se dá o enredo de Consciência, nova série do Canal CURTA! com direção de Renato Barbieri. Pensadoras e pensadores refletem sobre o fenômeno universal da consciência.

A série tem como objetivo aprofundar o tema universal da consciência, com base no testemunho de pensadores e pensadoras, “pessoas realmente conectadas com o conhecimento universal”, de acordo com Renato. Um elenco estruturado que de fato se debruça sobre o tema, escolhidos a dedo de forma equilibrada entre gêneros e com presença essencial afro-brasileira e indígena. Nas palavras do diretor, “o elenco está no geral sintonizado com a Rede da Vida e não se encontra encarcerado pela mentalidade antropocêntrica. A série Consciência nos fala da Vida e de nosso tempo atual, cada vez mais vertiginoso”.

Divida em cinco episódios, a série estreia dia 28 de novembro no canal. Confira abaixo a sinopse de todos os episódios:

1º Episódio

Neste primeiro episódio, os entrevistados expressam diferentes concepções da consciência ao longo da evolução e discorrem sobre o funcionamento desse misterioso atributo da Vida que, ao contrário do que professa a mentalidade antropocêntrica, não é uma exclusividade da nossa espécie, o Sapiens. Expressam sobre o desafio da expansão da consciência em tempos obscurantistas. Com Antônio Damásio, Scarlett Marton, Guto Pompéia e convidados.

2º Episódio

No segundo episódio da série, os entrevistados se debruçam sobre a que seria ter a consciência “do outro”, explanando sobre a necessidade da inclusão, as graves consequências da intolerância ao diferente e como a empatia é um marco na evolução da Vida. Com Lia Diskin, Edgard Gouveia Júnior, Roberto Gambini, Roman Krznaric e convidados.

3º Episódio

Este terceiro episódio, trará à tona a discussão sobre a importância de tomarmos consciência de que fazemos parte de uma intensa e complexa rede de interdependência da qual todos os seres – Sapiens ou não – fazem parte: a Rede da Vida. Mostra ainda como a mentalidade antropocêntrica se tornou uma grande armadilha. Com Ernst Götsch, Luiz Fernando Scheibe, Rita Mendonça e convidados.

4º Episódio

No quarto episódio da série, reflete-se sobre o papel fundamental da consciência na Ciência, em especial em tempos de fundamentalismos de toda ordem. Para bem longe das proposições de “terra plana” e embasado pela mais contemporânea visão científica, confronta o Sapiens com o Cosmos. Com Antônio Nobre, Luiz Alberto Oliveira, Luiz Marques e convidados.

5º Episódio

No quinto episódio, reflete-se sobre a emergência de uma consciência planetária diante de um mundo cada vez mais intoxicado. Ressalta o valor incalculável da Vida, a visão planetária e a beleza e a potência da diversidade humana como essenciais para a preservação de um ecossistema sadio em contraposição ao sombrio panorama climático e de mega-extinção que se apresenta. Com, Ailton Krenak, Fritjof Capra, Mônica Pilz Borba e convidados.
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Fonte: https://observatoriodeseries.bol.uol.com.br/noticias/2019/11/conheca-tudo-sobre-consciencia-nova-serie-do-canal-curta

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa"... VÍDEO



No terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa", sobre iniciativas e atitudes que contribuem para um mundo melhor, o ambientalista, escritor e líder indígena Ailton Krenak fala sobre a importância de entender a Terra como parte de nós, seres humanos. "Se você disser que a natureza é um recurso, ela é um recurso para que e para quem? Além desse grave equívoco de acreditar que a natureza é um recurso, ele vem acompanhado de uma outra percepção: de que a natureza é uma coisa diferente de nós, os seres humanos", diz. O escritor, que lançou em junho deste ano o livro "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", faz uma reflexão sobre a humanidade e a natureza nos tempos atu... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


Vídeo da entrevista no link: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1




FONTE: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


A instigante experiência da “comuna” originária

Criado em 1989, em Goiás, Centro de Pesquisa Indígena congregava diversas etnias. Propagava os saberes ancestrais, acolhia acadêmicos, sem-terra e seringueiros e propunha modelos econômicos sustentáveis. Inspirou uma geração de ativistas

Por Angela Pappiani | Imagem: Beto Ricardo/ISA

Convivendo com povos indígenas há tanto tempo, aprendi a valorizar as histórias antigas, as narrativas que nos ensinam sobre os fundamentos, sobre a origem e o passado, consolidando o presente e o futuro. O que tenho feito, ao escrever para o site Outras Palavras, é buscar compartilhar essa vivência.

Nestes tempos de tantas incertezas, versões contraditórias sobre a verdade, questionamentos sobre os rumos do país, sobre o incômodo representado pelos “índios” que desafiam o progresso e a modernidade, decidi resgatar algumas histórias, não tão antigas assim, mas que talvez possam ajudar a entender as lutas e trajetória do movimento indígena, as ações de afirmação e assim enxergarmos o momento presente e o que vem por aí. Assuntos que não estão na mídia, que ficaram perdidos em registros esparsos num tempo em que o Google não era onipresente.

A primeira história é sobre o Centro de Pesquisa Indígena (CPI) e seu legado.

Uma publicação do Núcleo de Cultura Indígena, de circulação restrita, editada em 1996, apresentava essa iniciativa pioneira nas palavras de seu coordenador Ailton Krenak:

“O Centro de Pesquisa Indígena não é um lugar, é um caminho que liga a memória da criação do mundo, presente nas narrativas tradicionais, no conhecimento antigo, com o conhecimento sobre o novo que é o trabalho do cientista e do pesquisador”.

O CPI foi criado em 1989, logo após a promulgação da nova Constituição que, graças ao trabalho incansável das comunidades indígenas e seus aliados, garantiu direitos básicos aos povos originários.

Espaço físico de convivência interétnica e experimentação, a partir de um sítio nos arredores de Goiânia, o CPI seria o local de implementação do Programa de Formação e Apoio à Pesquisa das Comunidades Indígenas, com o encontro entre o conhecimento tradicional, as novas tecnologias, o conhecimento científico ocidental e acadêmico.

A criação do Centro de Pesquisa Indígena foi inspirada num sonho de Sibupá, importante ancião e xamã do povo Xavante. Sibupá sonhou com o “dono dos animais” que lhe pedia uma ação urgente, mostrando a devastação que os warazu – os estrangeiros, que estavam causando danos à natureza, tirando a possibilidade de sobrevivência dos animais silvestres, base da alimentação do corpo e do espírito dos guerreiros desse povo. Sem o cerrado, sem as frutas, a água e os animais, a vida não seria mais possível. A única chance de sobreviver, segundo os anciãos Xavante, era encontrar aliados e novas tecnologias que dessem conta do ritmo acelerado da destruição. Assim entra na história o Núcleo de Cultura Indígena, organização formal criada pela União das Nações Indígenas (UNI) em 1984 para implementar suas ações e projetos, já que a UNI fora impedida de se formalizar por trazer em seu conceito a diversidade de nações existentes no país. Depois de toda a luta pela Constituição, com as garantias asseguradas aos territórios indígenas, o próximo passo na estratégia era buscar a proteção e gerenciamento desses territórios, afirmação das identidades e alternativas econômicas sustentadas nas tradições para dar respostas ao novo tempo.

Assim, em 1988, começava a ser construída, a partir das demandas dos povos indígenas, uma parceria pioneira com a Universidade Católica de Goiás (UCG), com a mediação do Professor Wanderlei de Castro. Um programa pioneiro, muito anterior à ideia de cotas, e com uma proposta de intercâmbio de saberes e conhecimentos envolvendo jovens estudantes e os anciãos das aldeias. Essa iniciativa não tinha como proposta a criação de profissionais para o mercado de trabalho, mas sim de pesquisadores com ampla formação, com acesso ao conhecimento acadêmico e valorização de suas tradições, buscando respostas para os desafios contemporâneos, com foco na preservação do patrimônio físico, cultural e espiritual dos territórios ao lado da melhoria nas condições de vida das comunidades.

O Programa de Apoio à Formação e Pesquisa das Comunidades Indígenas é implantado a partir de um sítio, nos arredores de Goiânia. Em casas tradicionais construídas pelo povo Xavante, conviveram, durante quatro anos de formação em Biologia Aplicada, os oito estudantes indígenas enviados por suas comunidades. Um currículo especial permitia que esses estudantes indígenas, mesmo sem formação escolar, frequentassem a universidade, as aulas e laboratórios, tendo acesso ao conhecimento acadêmico. Ao mesmo tempo, o espaço do CPI recebia professores e estudantes nas atividades de experimentação, na convivência com os mestres vindos das aldeias. Para essa formação, vieram de Roraima dois jovens do povo Yanomami (Geraldo e Abrahão), dois jovens Tikuna, do Amazonas (Gilson e Bruno), um jovem do povo Suruí, de Rondônia (Almir – que se tornaria depois um grande líder, reconhecido internacionalmente), um jovem Xavante (Jamiro) e dois do povo Krenak (Carlos e Mário). No espaço do sítio foi montado um viveiro de mudas nativas com estudos sobre germinação, viveiros de peixes e camarões nativos, criatório de cateto e queixada, áreas de agrofloresta e recuperação de solos, com assessoria de José Lutzenberg da Fundação Gaia, laboratórios de pesquisa em processamento de frutos nativos.

Toda a estrutura física de ponta montada no sítio, os programas e parcerias e o gerenciamento do Centro de Pesquisa eram de responsabilidade de uma equipe de profissionais do Núcleo, uma organização indígena que pela primeira vez recebia investimentos de várias fontes internacionais para o desenvolvimento independente desse trabalho.

Ao longo desse processo, se juntaram outros centros de excelência como a Esalq (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz), Embrapa, CPAC (Centro de Pesquisas agropecuárias do cerrado), CPAP (Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal) e IBAMA.

Além desse programa, cinco estudantes das etnias Baré, Pankararu, Terena e Kaingang, com segundo grau completo, iniciaram o curso de Direito com a proposta de formação dos primeiros advogados indígenas. Essa iniciativa foi interrompida no segundo ano diante da recusa do Conselho Federal de Educação, do Ministério da Educação, em reconhecer a legitimidade e especificidade dos cursos.

A proposta do Centro de Pesquisa Indígena estava muito além de seu tempo e deixou um legado importante para todos os envolvidos direta ou eventualmente no trabalho. O espaço do sítio reuniu etnias diferentes trocando saberes e impressões do mundo, produzindo cultura e intercâmbios, juntou educadores e estudantes da universidade em torno de conhecimentos milenares, com respeito, escuta, trocas verdadeiras, acolheu trabalhadores rurais sem terra e seringueiros e extrativistas da Amazônia com seus conhecimentos sobre a natureza, provocou novas pesquisas e descobertas nas parcerias com outras instituições, abriu caminhos novos para comunidades indígenas reafirmarem sua identidade, autonomia e relações com a sociedade não indígena.

Depois de quatro anos de atividades a partir desse lugar, no centro-oeste do país e com a parceria com a Universidade Católica, a proposta se expandiu, com pesquisas e formações em outros pontos do país. O território Krenak, que acabava de ser retomado legalmente, depois de décadas de luta, foi um dos núcleos de ação do CPI com o Programa de Reflorestamento e criação controlada de animais silvestres. Todo o esforço do povo Krenak na recuperação de sua terra reconquistada, de sua cultura e autonomia foi brutalmente alterado pelo rompimento da Barragem de Mariana, em 2015, que provocou o estado de coma do Rio Doce e de muitos sonhos da comunidade.

No Estado do Mato Grosso, o Projeto Jaburu, com o povo Xavante, recuperou 20% do cerrado que havia sido devastado pela cultura de arroz e pasto, conseguiu o aumento na população de animais silvestres, adensamento de árvores frutíferas, monitoramento e controle do território.

No Estado do Acre as ações do CPI fortaleceram pesquisas e projetos práticos nas áreas Kaxinawá/Huni Kuin do Rio Jordão e Yawanawá do Rio Gregório, com manejo de caça e pesca, plantio e comercialização de urucum e desenvolvimento e produção do “couro vegetal” – tecido emborrachado com látex para manufatura de diversos produtos, melhorando o ganho para as comunidades extrativistas. Além dos projetos de autonomia econômica, esses povos fortaleceram sua identidade, cultura e tradição em grandes Festivais Culturais que reúnem hoje centenas de pessoas, das velhas e novas gerações, e aliados de vários cantos do mundo em torno da celebração da vida. Na área Ashaninka do Rio Amônia o trabalho se fortaleceu com o manejo de caça e pesca, recuperação de áreas degradadas e pesquisa de essências e princípios ativos florestais para possíveis usos nas áreas da cosmética e medicina, além de coleta de sementes de árvores nativas para reflorestamento comercializadas pela Esalq, a partir de Araraquara, São Paulo. Desde 2007, o Centro Yorenka Ãtame, no município de Marechal Thaumaturgo, consolidou e aprimorou os princípios do Centro de Pesquisa, tornando-se uma referência para os povos indígenas e não indígenas de todo o país, firmando- se como um espaço de diálogo, troca e difusão de saberes da floresta.

Em Rondônia, Almir Suruí e representantes das novas gerações dão continuidade a pesquisas e projetos de proteção da biodiversidade, recuperação e fortalecimento de saberes milenares, geração de renda a partir dos recursos da floresta em pé. A Associação Metareilá foi pioneira na fiscalização do território usando a tecnologia em parceria com o Google Earth e a firmar um acordo de compensação ambiental por sequestro de carbono. Essas e outras iniciativas confrontam as políticas desenvolvimentistas do Estado que causaram a perda de quase toda a cobertura florestal do Estado, de sua biodiversidade, e ainda gerando conflitos e mortes decorrentes da falta de controle sobre garimpos ilegais de ouro e diamantes.

No território Yanomami o legado desse trabalho também floresceu. Davi Kopenawa foi sempre um importante aliado, incentivador e participante ativo da construção do Centro de Pesquisa, contribuindo ao trazer o conhecimento milenar dos Yanomami sobre a floresta. O conhecimento sobre as relações com instituições e outros povos, incorporado na vivência dentro do Centro de Pesquisa, é ainda importante ferramenta para afirmação dos valores do povo Yanomami, em sua relação com o Estado e a sociedade não indígena.

O que essa breve história, apesar de muito resumida, revela? Que depois de lutarem durante anos por uma lei que respeitasse os povos indígenas em sua diversidade, especificidade e em seus direitos dentro da nação brasileira, esses povos continuaram a se mover em direção ao futuro, buscando garantir a integridade de seus territórios, a vida em abundância para as novas gerações, a relação de troca verdadeira com os não indígenas, com a ciência e a academia. Muitas das ações iniciadas na década de 1980 se consolidaram e expandiram trazendo melhoria de vida a essas populações, a partir de sua vontade e determinação, independentemente dos Governos e, muitas vezes, com a própria vida em risco. Benke Pyanko Ashaninka, Almir Suruí, Davi Kopenawa Yanomami e tantos outros líderes têm suas vidas ameaçadas por madeireiros, garimpeiros, grileiros, políticos corruptos, pelos interesses econômicos de grandes corporações. Apesar do reconhecimento nacional e internacional ao empenho desses líderes na valorização da diversidade de culturas e formas de vida, essa luta parece estar sempre na contramão dos interesses do Estado que não garante a integridade de suas vidas.

As conquistas nunca foram e não serão fáceis pois o confronto é com um modelo que valoriza as conquistas materiais, colocando o lucro e a exploração acima de tudo e todos. Só a conexão com os ancestrais e o mundo espiritual pode dar a proteção e o ânimo para que a luta continue.

As leis escritas no papel, infelizmente estão sujeitas aos desejos dos grandes poderosos e a eles se dobram. Todas as descobertas da ciência ocidental sobre a importância das florestas para o planeta, que vêm confirmar o conhecimento milenar dos povos indígenas, não conseguem dialogar com a mentalidade egoísta e mercantilista de boa parte da humanidade. Os povos tradicionais sabem que cada ser da natureza é vivo, tem humor e um papel crucial na sobrevivência de todo o coletivo. Que sendo parte da natureza, os homens têm responsabilidade sobre suas ações e o futuro de nossa casa comum, o planeta. E esses povos fazem sua parte, conquistam novos conhecimentos, criam novas oportunidades, mostram caminhos, se alegram em contar suas histórias. A quem quiser escutar.

FONTE: https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/a-instigante-experiencia-da-comuna-indigena/



terça-feira, 3 de setembro de 2019

AMAZÓNIA É O SÍMBOLO DA NECESSIDADE DO FIM DA ERA DO ANTROPOCENO

Publicado por Mário Jorge Branquinho | Ago 27, 2019 | Opinião / Entrevista


A Amazónia está arder. O pulmão da Mãe Terra mirra a olhos vistos com a desflorestação ilegal e as queimadas não autorizadas que teimam em desventrar um património que é de todos Nós. Da Humanidade. Das futuras gerações.

Em 2018, aquando da realização da 24º edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, temia-se o pior. O espectro do resultado eleitoral fazia antever o que hoje é a mais dura e cortante das realidades. Mesmo para quem vive noutro país, que não o Brasil e sem qualquer laivo de intromissão na soberania de um país.

Mas o facto é que se assiste à destruição do bioma Amazónia e, consequentemente, a aniquilação dos direitos dos povos indígenas, a usurpação das terras nativas e das unidades de conservação estão a ser subtraídas a olhos vistos e à luz da impunidade. Com uma voracidade alarmante. As estatísticas revelam que, comparativamente com o ano passado, no Brasil, o número de fogos cresceu 82%. O bioma mais afetado é, claro, a Amazónia. Este é o legado da chamada Era do Antropoceno. Um legado economicista. O divórcio entre o Homem e a Natureza.

Num discurso emotivo no I Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, AILTON KRENAK, escritor, pensador ambiental e uma das mais importantes vozes dos direitos indígenas, alertava para a consciencialização das massas face ao rumo político do Brasil. No momento em que escrevo este artigo, a Amazónia arde há mais de 10 dias! Estamos em pleno agosto de 2019 e o cenário é de calamidade. Há quem já fale em “Holocausto Ambiental”. Exagerado?

A ONU está preocupada, e de muitas partes do mundo, que não só do Brasil, emergem preocupações e manifestações.

Certo é que os dias pereceram e deram lugar à fumaça e a noites forçadas em várias cidades brasileiras. Dias tristes estes que se avizinham nos “Trópicos”. O verde aos poucos vai sendo substituído por um manto negro. Mas, como vaticina o livro de Ailton Krenak, é preciso adiar o fim do mundo. Como? Com a Educação das Gerações que hoje assistem à calamidade e sabem que algo tem de ser feito e assumido JÁ.

A juventude da Emergência Climática encabeça um movimento que deve ser abraçado por todos nós. Até pela Geração que tudo sabe e nada fez! Curiosamente, na edição em que comemoramos 25 anos de CineEco assistimos ao pior dos episódios ambientais à escala planetária. Estaríamos longe de imaginar que, no ano em que idealizamos um Festival Internacional de Cinema Ambiental, em 1995, a nossa missão de consciencialização e papel de Educação das camadas jovens seria ainda mais premente. Não nos passava pela cabeça que iríamos chegar a este patamar de Emergência Climática em 2019. Na verdade, estamos numa situação limite em quase todas as frentes, como aliás testemunham as centenas de filmes e documentários ambientais que nos chegam de todo o mundo.

O CineEco tem mostrado ao longo das suas 25 edições, ser um instrumento fundamental para a Educação Ambiental. Somos durante uma semana o grande ecrã do mundo e da crise ambiental que chegou a uma situação perto do irreversível. Com a exibição de centenas de filmes apresentados ao longo da nossa história encontrámos a nossa missão e a melhor forma de contribuir para a mudança, valorizando a maneira como pensamos e agimos em relação ao nosso planeta.

Como um dos mais antigos Festivais do mundo dedicado ao Cinema de temática ambiental, assumimos pois a nossa responsabilidade e empenho em mudar. Por mais 25 anos ou mais… até quando a Terra permitir e a Humanidade acordar.

Nunca é tarde para AGIR!

FONTE: http://smart-cities.pt/opiniao-entrevista/amazonia-cine-eco2708/

As cinzas funerais e a resistência indígena

Em SP, o céu parecia dobrar-se sobre a terra. Mas se não era a profecia Yanomami do fim do mundo, poderia significar um recomeço: levantar-nos contra os crimes na Amazônia e garantir qualidade de vida para os povos das florestas


As nuvens negras que na segunda feira, dia 19 de agosto, transformaram o dia em noite em São Paulo, não trouxeram para o sudeste somente fumaça e fuligem das queimadas da floresta. O que elas trouxeram e despejaram sobre nossas cabeças foram cinzas funerais, os restos mortais de árvores centenárias, ervas de cura e flores, aves, mamíferos, infinidades de repteis, insetos e microrganismos, seres vivos que constituíam um sistema complexo construído ao longo de milhares de anos. São restos mortais que continuam sendo trazidos pelo mesmo vento que deveria nos trazer o ar puro gerado pela floresta, a umidade que garante a chuva, o equilíbrio da temperatura.

A chuva negra lavou a fuligem e fez voltar à terra essas partículas transformadas pelo fogo. A atmosfera recebeu a outra parte desses corpos transformados em gases que vão se acumular a outros gases que já alteram o clima do nosso planeta.

Mas boa parte dos humanos, cidadãos comuns e aqueles com poder sobre leis, corporações, governos e sistemas financeiros não enxergam o que está acontecendo, recusam os números apresentados por instituições sérias que revelam o crime contra a humanidade e o planeta que está em curso.

O assombro da população das cidades diante da escuridão e da água negra da chuva dura o tempo de um telejornal. A água da chuva reservada para molhar as plantas ou lavar o quintal foi descartada, a roupa suja foi lavada de novo e a vida segue. É muito difícil mudar hábitos, abrir mão das facilidades ilusórias de nosso mundo consumista. A ruptura entre humanos e natureza é tão profunda que a maioria das pessoas não percebe que suas ações geram reações, que todos nós somos responsáveis pela degradação do planeta e seremos cobrados duramente por todo desrespeito e equívoco.

Para quem já presenciou uma mata em chamas, e eu tive a infelicidade de ver tratores arrastando árvores e homens colocando fogo no que resta depois da retirada da madeira de interesse comercial, a imagem fica guardada na memória para sempre. A imagem, o cheiro sufocante, o calor, a fuligem, os sons assustadores, gritos e gemidos de árvores e animais tentando sobreviver.

Os últimos acontecimentos trouxeram à minha memória cenas da década de 1980 quando a Amazônia também ardia e era transportada em caminhões para as serrarias, quando a mata queimava e deixava um rastro de destruição que logo era “recuperado” pelos pastos e vilas que se formavam naquele lugar remoto e “desabitado” que o governo militar queria incorporar ao território brasileiro, salvando-o da selvageria e do atraso.

Naquela época, a abertura de estradas, o desmatamento e a exploração da floresta eram pautas do governo, publicamente incentivados e festejados. O desmatamento era cláusula de contratos de cessão de terras pelo INCRA aos colonos que ocupavam Rondônia e Acre. Substituir a floresta por plantações e pastos era o grande objetivo. E esse movimento ocupacionista, desenvolvimentista, passava por cima das populações indígenas, de seringueiros e ribeirinhos, de pessoas que sabiam viver e conviver com a floresta, protegendo sua biodiversidade, contribuindo para seu enriquecimento e fortalecimento.

O Polonoroeste (Programa de Desenvolvimento Integral do Noroeste do Brasil), criado em 1981 no governo do General Figueiredo e herdado por José Sarney, primeiro presidente civil depois de 20 anos de governo militar, tinha como objetivo o asfaltamento da BR-364, ligando Cuiabá a Porto Velho e Rio Branco e a ocupação desse território. Para mascarar o problema agrário do país, a luta pela Reforma Agrária, o Programa levava para a região norte milhares de trabalhadores sem-terra desalojados de suas pequenas ocupações no sul e sudeste do país, onde um novo modelo de agricultura, mais “eficiente”, mecanizado e capitalizado, voltado para a melhoria na produção de grãos para a exportação que começava a se desenvolver. Os pobres brancos do sul foram despachados para ocupar as florestas com a obrigação de transformar as áreas cobertas de “mato” em propriedades agrícolas exitosas. Em outro artigo já contei um pouco dessa história, do conflito a que foram jogadas essas pessoas, sem nenhum preparo ou vocação para viverem na floresta, confrontando-se com as populações que ocupavam tradicionalmente aqueles lugares. O traçado dos lotes quadradinhos era desenhado no mapa, com linhas retas, indicando as estradas principais e as vicinais, até hoje denominadas por Linhas e numeradas, sem levar em consideração a topografia, a hidrologia, o tipo de solo. Um absurdo que levou ao abandono ou à venda dos lotes para os grandes proprietários que assim acumularam grandes extensões de terra.

Esse desastre foi financiado pelo Banco Mundial num acordo onde a proteção ambiental e às populações indígenas eram cláusulas condicionantes. Mas nada do que estava prometido no papel, nem mesmo a solução do caso dos colonos, foi cumprido. E durou muito tempo sem que o crime oficial fosse reconhecido. Os povos indígenas foram os primeiros a se manifestarem, pois estavam perdendo seus territórios, suas vidas e o patrimônio ambiental de que dependem para viver. Os seringueiros e extrativistas se juntaram à luta e alguns ambientalistas, jornalistas e antropólogos trouxeram mais informações e estudos científicos para legitimar um grito que, por si só, já era potente e dramático.

Chico Mendes, AILTON KRENAK, Davi Yanomami e o grande ambientalista José Lutzenberger foram algumas das lideranças a denunciar a devastação e o desrespeito aos direitos humanos ao Congresso Norte Americano, à ONU, ao Banco Mundial, à população. O Programa de Índio, programa de rádio realizado pelo Núcleo de Cultura Indígena e veiculado pela Rádio USP de 1985 a 1991, cobriu as ações, as denúncias, trouxe matérias e depoimentos sobre o assunto. A série de documentários A Década da Destruição acompanhou durante dez anos, de 1980 a 1990, o drama e as consequências dessa política de ocupação da Amazônia. Um trabalho de muita dedicação e coragem do diretor Adrian Cowell e sua equipe brasileira, ligada à Universidade Católica de Goiás, Vicente Rios e Wanderley de Castro. Em quatro episódios, a série desvenda os fatos, traz depoimentos de pessoas do governo e das vítimas desse massacre, acompanha o drama dos colonos sucumbindo às doenças e hostilidade de um ambiente que não conheciam, o drama dos povos indígenas ainda sem contato ou os que lutavam contra a invasão de seus territórios, apresenta dados e comove pela força das imagens.

Esses documentários foram exibidos no Brasil e exterior, causando grande impacto no público e contribuíram para escancarar o crime que se cometia na época. Os realizadores enfrentaram ameaças, emboscadas, tentativas de difamação, mas sua obra foi reconhecida e permanece até hoje como testemunho desse período.

A sensação agora é de que entramos numa máquina do tempo e voltamos mais de 30 anos. Os mesmos argumentos, a mesma busca por um modelo de progresso ultrapassado, ocupação dos “territórios vazios”, exploração sem limites da natureza, entrega de riquezas e patrimônios ao capital mais obtuso, a negação do direito dos povos indígenas viverem sua cultura e modo de vida, a criminalização de lideranças e organizações não governamentais, a violência e mortes.

Não que a situação dos povos indígenas e extrativistas tenha sido fácil ao longo do tempo. Independentemente da posição ideológica dos governos, a miopia para a questão ambiental parece impedir a visão da realidade. A luta tem sido diária, permanente, mas, de alguma forma, nos últimos 30 anos, protegida por leis e acordos internacionais que não permitiam as ações descaradas e impunes que voltam agora, com o aval do governo, com a promessa de mudanças na lei, oficializando o assalto à floresta e aos minérios do subsolo, com acordos anunciados com orgulho.

Como há três décadas, os povos indígenas, guerreiros e guerreiras, estão buscando o espaço público para denunciar os crimes e afirmarem que não lhes interessa engrossar as estatísticas da pobreza no Brasil. Que é possível um outro modelo de desenvolvimento com foco na natureza e na qualidade de vida das pessoas que habitam a floresta.

Milhares de mulheres de dezenas de etnias ocuparam Brasília entre 9 e 13 de agosto na I Marcha das Mulheres Indígenas com sua beleza, pinturas, cantos, apoiadas por seus companheiros e filhos, juntando sua força a outras milhares de mulheres do campo na Marcha das Margaridas acontecida no dia 14. Uma demonstração de força e resistência.

Os povos indígenas querem a floresta em pé, os rios sem mercúrio e pesticidas, o ar sem veneno, a natureza viva e generosa como sempre foi, dando em troca do cuidado e do respeito com que é tratada, o ar puro e a cura para a fome e as doenças do corpo e da alma. Quando vamos acordar? Na segunda feira, dia 19, parecia que profecia dos Yanomami se cumpria, era como se o céu desabasse sobre a terra. Precisamos de consciência e ações para adiar o fim do mundo. Davi Yanomami e Ailton Krenak têm falado sobre isso.

Os quatro documentários da série A Década da Destruição: Na trilha dos Uru Eu Wau Wau, O caminho do fogo, Nas cinzas da floresta e Tempestades na Amazônia podem ser adquiridos junto com outros trabalhos de Adrian Cowell através do IGPA (Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia). Os livros A Queda do Céu de Davi Yanomami e Bruce Albert e Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak estão nas livrarias.

FONTE: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/as-cinzas-funerais-e-a-resistencia-indigena/

Para quem valoriza a arte e a cultura, e felizmente a turma ainda é grande, uma boa notícia: o 26º Porto Alegre em Cena estará nos palcos da cidade de 10 a 23 de setembro

Para quem valoriza a arte e a cultura, e felizmente a turma ainda é grande, uma boa notícia: o 26º Porto Alegre em Cena estará nos palcos da cidade de 10 a 23 de setembro. Ao lado de espetáculos nacionais e de vários outros países, a edição deste ano terá 53 atividades que incluem mesas, palestras e residências artísticas. Uma das propostas mais interessantes, a discussão da nossa identidade a partir dos povos originários do Brasil, trará a Porto Alegre Ailton Krenak e Davi Kopenawa, duas das mais importantes lideranças indígenas de hoje, que permanecerão na cidade durante o festival. Segundo Fernando Zugno, diretor-geral do Em Cena, a ideia é provocar uma reflexão sobre a humanidade, suas potências e fragilidades, o que vai incluir também questões como a natureza e os processos migratórios.

O Em Cena une, ao longo da sua programação, elencos de fora com artistas locais, variando das temáticas mais densas às montagens populares, todas bem avaliadas pela crítica e pelo público. A seguir, alguns destaques. Lembrando que quem for aos espetáculos vai encontrar, na grande maioria deles, com a Alice Urbim, madrinha do festival e uma das grandes incentivadoras do teatro e da cultura em Porto Alegre. Homenagem mais do que merecida a ela.


Dakh Daughters (Ucrânia) - Dia 10/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Composta por sete mulheres que tocam mais de 15 instrumentos em cena e cantam em diferentes línguas e dialetos, a banda ucraniana Dakh Daughters faz uma junção de estilos e musicalidades, misturando canções folclóricas da Ucrânia, rap francês e ritmos orientais, em uma potência criativa-experimental de tirar o fôlego.

Las Flores del Mal o La Celebración de la Violencia (Uruguai) - Dia 12/9, às 20h, no CHC Santa Casa

Interpretado pelo próprio autor, Sergio Blanco, o solo em forma de conferência trata de forma poética a questão da violência em suas mais diversas faces.

Happi - A Tristeza do Rei (França) - Dias 18 e 19/9, às 20h, na PUCRS

Espetáculo de dança contemporânea criado por dois artistas de origem africana radicados na França, o camaronês James e o algeriano Heddy Maalen.

Protocolo Elefante (SC) - Dias 11 e 12/9, no Teatro Renascença

O espetáculo do Grupo Cena 11 propõe uma metáfora sobre separação e exílio a partir do afastamento e isolamento do elefante na iminência de sua própria morte.

PI Panorâmica Insana (RJ) - Dias 14 e 15/9, às 20h, no Teatro do Sesi

Em um impactante cenário composto por 11 mil peças de roupas com as quais os atores se vestem durante a ação, o espetáculo de Bia Lessa - que trouxe ao festival, no ano passado, sua monumental adaptação do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas - apresenta Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo interpretando mais de 150 personagens.

Gota D'água {Preta} (SP) - Dias 21 e 22/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Montagem do premiado ator, diretor e dramaturgo Jé Oliveira - fundador do Coletivo Negro e indicado ao Prêmio Shell 2019 na categoria Inovação, pela releitura desta obra. O musical escrito originalmente por Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1975, inspirado na Medeia de Eurípedes, é encenado pela primeira vez com elenco predominantemente negro, misturando clássicos de Chico com estilos da periferia, como funk e hip hop.

E.L.A. (CE) - Dias 20 e 21/9, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa

Solo da atriz Jéssica Teixeira com temática diretamente relacionada ao corpo, trazendo questões como beleza, saúde, política, feminilidade e acessibilidade. A peça mistura vídeo, artes plásticas e dramaturgia por meio de colagens e textos autobiográficos que refletem acerca da aceitação e do nosso lugar no mundo.

O Silêncio do Mundo - Dia 19/9, às 21h, no Theatro São Pedro

Em tempos de natureza ameaçada, o Em Cena examina a temática indígena brasileira a partir de alguns questionamentos: o que nos é invisível? Com o que estamos nos conectando? Até quando poderemos dançar para segurar o céu? O trabalho reúne o líder indígena e ambientalista AILTON KRENAK, a artista performer Andréia Duarte, o embaixador indígena Davi Kopenawa e o xamã Levi Yanomami.

FONTE: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/claudia-tajes/noticia/2019/08/viva-o-teatro-cjzx5mdqr07hx01qmqjg7t0x2.html

Ailton Krenak pede ‘condenação internacional’ de Bolsonaro por política ambiental

O líder indígena Ailton Krenak afirma que o presidente Jair Bolsonaro deve ser “condenado internacionalmente” por sua ofensiva contra as reservas indígenas, que ele pretende abrir à mineração, uma ameaça para a Floresta Amazônica e o equilíbrio do clima no planeta.

O dirigente, de 65 anos, sabe do que fala. Os Krenaks vivem como “refugiados em seu próprio território” nas margens do rio Doce, atingido em 2015 pelo rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton), no município de Mariana (Minas Gerais).

Em seu último livro, “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak alerta sobre o crescimento em todo mundo de uma “intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar” e afirma que sem uma transformação profunda nos tornaremos uma humanidade de “zumbis”.

– O constituinte pintado –

Krenak ficou conhecido em 1987 quando discursou no plenário Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte em defesa dos direitos dos povos indígenas, vestindo um terno branco, enquanto pintava o rosto com as mãos usando tintura de jenipapo, segundo as tradições de seu povo, para expressar sua tristeza.

A Constituição de 1988, elaborada após a longa ditadura militar (1964-1985), finalmente garantiu aos povos indígenas o direito de ocupar suas terras ancestrais, demarcadas pelo Estado.



A aplicação dessa medida sempre foi envolvida por conflitos e sob suspeita dos militares nacionalistas de comprometer a soberania do Brasil, com o apoio de ONGs internacionais.

Mesmo assim, atualmente existe 1,17 milhão de km2 de terra demarcada (13,8% da superfície do país), onde vivem 800.000 indígenas.

“Muita terra para pouco índio”, disse Bolsonaro na semana passada, quando os incêndios se multiplicaram na Amazônia, principalmente por causa das atividades de desmatamento, segundo especialistas. Em meio a essa tragédia ambiental, o presidente acrescentou que acabaria com a “psicose da demarcação”.

Krenak multiplica suas ações para combater essa ofensiva e considera que conceder o Prêmio Nobel da Paz ao cacique Raoni – que recentemente teve um encontro com o Papa Francisco – seria uma “excelente” oportunidade para o mundo entender a importância da causa indígena.

A AFP entrevistou Krenak na noite de sábado no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde apresentou uma exposição da fotógrafa Claudia Andujar sobre os Ianomâmis, uma etnia que trava uma longa luta pela sobrevivência na fronteira entre Brasil e Venezuela.

A seguir, algumas de suas declarações.

– Novos perigos para a Amazônia

“Eu acho que (a situação atual) é um perigo novo. É um perigo novo porque o capitalismo nunca esteve tão enlouquecido como agora. As corporações derrubam governo e elegem governo. (…) Aí, abre uma situação de violência, de descontrole, onde o interesse privado governa as nações e os povos, e o interesse público está cada vez mais reduzido, negado. O interesse público é como se fosse um absurdo. As políticas públicas são como se fossem uma palhaçada”.

– Mineração nas reservas indígenas

“Com o contexto de mudanças climáticas no planeta, a corresponsabilidade dos povos, inclusive dos povos indígenas, é diminuir a intensidade das atividades de regiões onde a ecologia tem o papel regulador do clima planetário, que é o caso da Amazônia, e outras regiões onde os povos indígenas guardam diferentes territórios. Esse tipo de comentário é uma ofensa e deveria ser punido com uma condenação internacional”.

– Soberania nacional e ONGs

“Esse assunto nem me toca na verdade, porque nós somos ocupados pelas corporações (…) Se o Estado tem algum problema com as ONGs, deveria ter algum problema com as corporações também”.

– Resistências

“Se os brancos não forem capazes de resistir à agressão contra as florestas, aos rios, ao meio ambiente, vão destruir tudo”.

– Nobel para Raoni

“Eu acho que qualquer espaço que for dado para a voz e para o pensamento indígena é bom. Se Raoni receber o Nobel, o qualquer outro prêmio, ele vai estar compartilhando isso com o povo Caiapó, com os povos indígenas, com todos nós, e isso é ótimo”.

– Situação do povo krenak

“Não é de agora. Nós estamos há três anos no rio Doce sendo abastecidos por caminhão-pipa, sendo supridos por água mineral que vem de fora, e recebendo ração, né? Recebendo as cestas básicas para manter o povo acampado à beira de um rio que está em coma. Então isso é uma situação alarmante, é grave. Gente refugiada dentro de seu próprio território, já é uma ofensa e é grave. E as mineradoras, as empresas que causaram isso, estão por aí, operando com licença pública, com licença do governo. Eu acho escandaloso a situação que nós estamos vivendo no país”.

Fonte: https://www.istoedinheiro.com.br/ailton-krenak-pede-condenacao-internacional-de-bolsonaro-por-politica-ambiental/

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fé, calma e sabedoria contra o caos: o que recomenda este líder indígena

Autor de 'Ideias para adiar o fim do mundo', Ailton Krenak debateu-as em BH, durante o Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21


(foto: Neto Gonçalves/Divulgação)

Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak fez um gesto que entrou para a história. Em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos indígenas, ele pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional, em Brasília. “Se for para repetir esse gesto, tomara que seja com mais gente. Um homem sozinho não consegue nada. Mas não adianta ficar estressado, angustiado. Mesmo diante desse caos, precisamos não perder a fé e a calma. É preciso resolver as coisas com sabedoria”, afirma Krenak, que esteve em Belo Horizonte na quinta-feira passada (22), como convidado do Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21, promovido pela Prefeitura.


Apesar do tom sereno, Krenak não esconde a preocupação, sobretudo com relação às mais recentes tragédias ambientais, como as queimadas em curso na Amazônia. “A Amazônia é um bioma complexo e regulador do clima e distribui chuvas, além de reciclar e limpar o oxigênio do planeta. Os governos europeus sabem dessa importância e por isso estão se manifestando, preocupados com a situação”, observa Krenak. Para os povos indígenas, no entanto, a relação é outra. “É como se fosse uma entidade à qual muitos povos se sentem vinculados e na obrigação de protegê-la.”


Embora valorize a preocupação dos governantes europeus, o líder indígena avalia que eles deveriam ter tomado decisões em relação à proteção da Amazônia há muito tempo, como a suspensão das importações de carne de boi, de frango, soja e minério. “A pecuária, a mineração, tudo isso está devastando nossas paisagens, nosso meio ambiente. França, Alemanha e outros países deveriam colocar alguma restrição na hora de importar esses produtos. Já que nosso presidente decidiu avacalhar tudo, ele mesmo poderia fazer algo nesse sentido. Proibir a venda dessas mercadorias, por exemplo”, sugere.

Krenak é pessimista com as perspectivas do governo de Jair Bolsonaro. Particularmente, ele se refere ao presidente como Nero, o imperador romano famoso por ter incendiado Roma. “Vivemos um período crítico, com ameaças aos direitos humanos, à ideia do Estado de direito. Enquanto existir esse governo agredindo o senso comum, desrespeitando tudo e todos, desmantelando a infraestrutura de governança que recebeu, a gente não tem esperança nenhuma de melhorar. Mas temos que seguir firmes, fortes e resistentes”, afirma.

Krenak celebra o fato de autores indígenas estarem conquistando espaço no mercado editorial. “É muito importante (os editores) se interessarem e valorizarem não só o que os indígenas têm feito, mas os quilombolas também. Temos que ampliar essas vozes”, diz.

Atualmente morando em Resplendor (MG), às margens do Rio Doce, região de origem dos Krenak, ele lamenta as condições a que seu povo está submetido, principalmente após o rompimento da barragem da Samarco, em 2015. “Ainda estamos sentindo os efeitos. Estamos refugiados dentro de casa, como se fosse um acampamento dentro do nosso próprio território. Temos caminhão-pipa trazendo água, os animais sendo alimentados com ração. Infelizmente, o Rio Doce ainda vai demorar muito para voltar a ser uma fonte de subsistência. Ouso dizer que ele está pior do que o Arrudas.”

Enquanto isso, o líder indígena segue a filosofia de sua etnia, com a “cabeça na terra”, que é o significado da palavra Krenak. “Cada cultura tem a sua maneira de orar. No nosso caso, a gente se ajoelha e coloca a cabeça na terra para se ligar a ela, fazendo contato com esse planeta tão maravilhoso. É assim que temos que continuar.”

FONTE: https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2019/08/25/interna_cultura,1079473/fe-calma-e-sabedoria-contra-o-caos-o-que-recomenda-lider-indigena.shtml

A situação na Amazónia acompanhada por associações ambientalistas de todo o mundo

Cientistas da NASA que monitorizam focos de incêndio no planeta confirmaram as indicações do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais brasileiro.
A agencia espacial norte-americana diz que estes fogos estão relacionados com a desflorestação.

Entrevistado pela rádio pública, um dos fundadores do movimento indígena no Brasil associa o presidente Bolsonaro às queimadas que afetam a região.

O activista Ailton Krenak, organizador da Aliança dos Povos da Floresta, diz que foi o chefe de Estado quem induziu o chamado Dia do Fogo - uma iniciativa, alegadamente organizada por criadores de gados, cinco dias antes do início dos incêndios, na Amazónia.

FONTE: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/a-situacao-na-amazonia-acompanhada-por-associacoes-ambientalistas-de-todo-o-mundo_a1168235

O encontro de Ailton Krenak com a Bienal Internacional do Livro do Ceará

Por Roberta Souza, roberta.souza@diariodonordeste.com.br 23:28 / 20 de Agosto de 2019


Em sua primeira passagem pelo evento literário do Estado, o escritor e líder indígena reflete sobre o potencial da arte como edificante de uma nação e aproveita para estreitar laços com parentes locais


Enquanto desenhava uma dedicatória para o amigo Daniel Munduruku na primeira página da obra "Ideias para adiar o fim do mundo", Ailton Krenak lembrou-se de uma provocação: "você nunca vai ser um escritor famoso riscando o livro dos outros desse jeito". A frase havia sido dita pelo mesmo colega, ao pé do ouvido, num dos primeiros encontros dos dois em eventos literários do País. Nunca foi esquecida e tampouco lembrada. É tanto que para o mesmo interlocutor, o líder indígena de Minas Gerais estava a dedicar, em meio a um intervalo da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, traços e mais traços de uma literatura que vai muito além das palavras escritas.

"A possibilidade de uma literatura indígena é uma descoberta recente do público e, para um eventual leitor, ela é uma novidade. Eu até escrevi uma vez um pequeno texto refletindo sobre isso, retomando a ideia das inscrições rupestres, das cavernas, dos paredões, abrigos da antiguidade onde nossos ancestrais deixavam marcas, e relacionando isso com a ideia de que as narrativas da oralidade são de alguma maneira essa literatura", arremata Krenak, instantes após a dedicatória.

Convidado a falar sobre as narrativas de seu povo e a memória dos antigos no espaço "Oralidade, Ancestralidades e Mestres da Cultura" da Bienal do Ceará, o escritor e ambientalista comemorou o protagonismo conferido a ele, Munduruku (PA) e Cristino Wapichana (SP), por exemplo. "Promover esse lugar que tem sido chamado de 'lugar de fala' para cada interlocução, seja ela no campo da questão de gênero, de raça, de cultura, e no caso do povo indígena, assegurando nossa voz, eu acho que é fazer a coisa certa", pontua.

Durante muito tempo, na história do nosso País, não foi dada atenção para isso. O que existe de bom na literatura a favor dos índios e feito por não-indígenas é muito bacana, muito bem-vindo, mas está na hora dessa literatura ser literatura indígena, feita pelos indígenas, narrada pelos indígenas. Que esse encontro se dê entre pessoas, sem mediação", defende.
ARTE POLÍTICA
A trajetória de Ailton, pertencente à etnia crenaque e nascido na região do médio Rio Doce, é atravessada pela atuação política frente às causas de seu povo. Um dos exemplos disso foi sua participação na Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Carta Magna Brasileira de 1988. Já naquela época, ele protestava por dignidade. E um capítulo inédito sobre a proteção dos direitos dos indígenas na Constituição foi garantido graças à essa luta. Ao lançar olhar crítico sobre o Brasil de hoje, Krenak revisita um passado não tão distante.

"Mesmo que a gente esteja fazendo poesia e celebrando nossa arte, nossa cultura, a gente não pode se distrair, porque o autoritarismo se dissimula, aparece de várias formas. É por isso, inclusive, que essa ideia dessa democracia representativa, essa democracia formal, precisa ser posta em questão. Porque se a gente aceita que nós estamos vivendo uma democracia só porque somos convocados às urnas para escolher um presidente, isso pode ser uma grande trapaça", declara o ativista.


Povo Jenipapo-Kanindé acolheu Ailton Krenak na comunidade em Aquiraz por ocasião da atividade "Bienal fora da Bienal"
FOTO: BETO SKEFF


O escritor avalia que vivemos atualmente num cenário "que está sendo sucateado por uma mentalidade racista, preconceituosa em todos os sentidos" e isso o preocupa muito. "Fico pensando como o Brasil pode se fortalecer, chacoalhar e tirar essa praga que está nos nossos ambientes", reflete. A resposta, ele mesmo dá.

"É aí que está a importância dessa Bienal. Ela convoca autores, pensadores, filósofos, artistas, ela convoca o cidadão, na verdade. É claro que se alguém se constituiu num narrador, num escritor, num contador de histórias, ergueu-se nessa posição a partir de uma identidade e num sentido de cidadania", introduz o pensamento.

Todas as pessoas que estão aqui querem que o Brasil dê certo. Esse campo da arte é um campo que quer edificar uma nação e eu acho que isso é um desejo das pessoas que vivem o dia a dia, das pessoas que mandam as crianças para a escola para estudar, dos pais, das famílias que lidam para que essa vida seja um lugar bom pra todo mundo, e esse ambiente cria essa atmosfera", acredita.
ENCONTROS
A passagem de Krenak pela Bienal não se restringiu aos pavilhões do Centro de Eventos do Ceará. No último domingo (18), ele também esteve em visita à comunidade Jenipapo-Kanindé, no município de Aquiraz. O encontro com seus "parentes", como faz questão de ressaltar, foi puro acolhimento.

"Gostei muito de conhecer o território deles, e também de sentir a determinação da Cacique Pequena, de ter puxado a história do povo dela do anonimato e da negação de existência", diz.

Ailton Krenak e a Cacique Pequena estiveram juntos na comunidade Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz
FOTO: BETO SKEFF

Dos irmãos daqui, Krenak carrega somente certezas.

Os Jenipapo-Kanindé passaram quase todo o século XX ressurgindo com uma disposição de permanecer no mundo enquanto tiver gente. Eu acho isso lindo. Eles trazem para esse concerto com os povos uma poética, uma cantoria, um toré e, obviamente, eles invocam os encantados. Tem uma constelação de seres que estão guiando eles e sustentando a passagem deles pela Terra. Isso é maravilhoso, aumenta a potência do pensamento indígena num mundo que está em disputa o tempo inteiro".
Na despedida, o escritor indígena leva o afeto e a acolhida das pessoas como o ganho mais permanente, "aquele presente que vai ficar em mim". E aposta nas programações da "Bienal fora da Bienal" e do espaço "Terreiro em Sonho", por onde passou, como potencializadoras de um evento que há muito deixou de ser uma "feira". "O livro está só como um pretexto pra todo esse encontro que acontece aqui no Ceará. Todo mundo tem o que dizer", finaliza.

Serviço

XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
Até 25 de agosto, das 10h às 22h, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). Gratuito. Programação em bienaldolivro.Cultura.Ce.Gov.Br/Programacao/

FONTE: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/verso/o-encontro-de-ailton-krenak-com-a-bienal-internacional-do-livro-do-ceara-1.2138197

Líder indígena critica Bolsonaro por propostas sobre mineração



19/08/2019 16h41

María Angélica Troncoso.

Fortaleza (Ceará), 19 ago (EFE).- Um dos principais líderes indígenas do Brasil, Ailton Krenak criticou o presidente Jair Bolsonaro e o Governo Federal pela intenção de legalizar a atividade de mineração em terras ocupadas pelos povos indígenas.

Em entrevista à Agência Efe, Krenak apontou que os abusos que acontecem atualmente na Amazônia são provocados pelos discursos do presidente e dos ministros.

"Parece que enlouqueceram. É como se quisessem destruir a base natural do país", afirmou o ambientalista e escritor, que participa da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará.

A feira literária, que acontecerá até o próximo domingo, abre espaço para narrativas indígenas e de afrodescendentes e tem como tema central "As cidades e os livros". O evento acontece no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.
Além das críticas ao governo, Krenak opinou que a ideia de liberar a atuação de garimpeiros é apenas uma expressão de uma política global.

"Está acontecendo no mundo inteiro, é o que verbalizam as mentalidades mais descontroladas", disse.

No final de julho, Bolsonaro reforçou ter a intenção de regulamentar o garimpo no Brasil, incluindo em terras indígenas. Na ocasião, sem citar exemplos, o presidente alegou que alguns países e ONGs não querem que isso aconteça, porque querem os índios presos em "um zoológico", como um ser "pré-histórico".

Por sua vez, Krenak, que participou da elaboração da Constituinte, em 1988, considera que está contecendo "um assalto" às riquezas naturais brasileira.

Segundo dados coletados da Rede Amazônica de Informação Socioambiental (Raisg) e divulgados em dezembro de 2018, o Brasil conta com 321 pontos de mineração ilegal distribuídos em 132 áreas, a maioria concentrada nas margens do rio Tapajós.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por sua vez, apontou que houve um aumento em 278% do desmatamento entre julho de 2019 e o mesmo mês do ano passado.

Krenak, que foi criado na bacia do Rio Doce, em Minas Gerais, aproveitou o evento em Fortaleza para lembrar das tragédias em Brumadinho e Mariana, que tiveram saldo de 248 e 19 mortos, respectivamente, além de graves danos ambientais. Para o ativista, grandes corporações da mineração são culpadas por catástrofes como essas por "só visarem o lucro". EFE

FONTE: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2019/08/19/lider-indigena-critica-bolsonaro-por-propostas-sobre-mineracao.htm

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Povo indígena alerta UE sobre Amazônia: “Vocês estão financiando crime”


‘O solo onde essa produção de grãos se dá é uma terra necrosada’, diz líder indígena Ailton Krenak


O negócio bilionário cresceu aos olhos do governo assim que se concretizou diante do mundo. O acordo entre a União Europeia e o bloco que era tão criticado pelo presidente, o Mercosul, foi apresentado por Jair Bolsonaro como um dos “mais importantes de todos os tempos”, com “benefícios enormes” para a economia do País. O preço, porém, pode ser perverso. Líderes indígenas e entidades ambientalistas denunciam, ao outro bloco econômico signatário, o rastro de destruição deixado pelo agronegócio em terras invadidas, o vício em veneno por parte produtores brasileiros e o desprezo pelos povos em suas terras. “O que o povo indígena e seus aliados estão fazendo é exatamente alertar a Europa: vocês estão financiando o crime.”

Ailton Krenak, autor da fala acima, é uma das figuras mais importantes do movimento indígena no Brasil. Escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, ficou ainda mais conhecido há 30 anos, quando pintou o rosto em uma fala história na Assembleia Constituinte de 1988.

“Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como o povo que é inimigo do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento”, disse Krenak à época. A Constituição incluiu os direitos dos índios em seu texto, mas a financeirização global parece ter outras prioridades – e o movimento sabe disso.

Em junho, antes do acordo UE-Mercosul, a coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e ex-candidata à vice-presidência pelo PSOL Sônia Guajajara, anunciou em coletiva de imprensa na Alemanha que as lideranças dos povos brasileiros irão visitar empresas de cinco países e tentar participar de reuniões no Parlamento Europeu para denunciar o que eles estão prestes a comprar às toneladas: índices históricos de desmatamento e de aprovação de agrotóxicos, além de cerceamento de instituições reguladoras, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e da própria Funai (Fundação Nacional do Índio).

Guajajara estava na cidade de Bonn participando da primeira semana de negociações da COP25, a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU – que deveria ser no Brasil este ano se não fosse pela atuação bem sucedida de Bolsonaro em descreditar a importância da reunião e tirar o país da lista de concorrentes.

A pressão dos indígenas brasileiros não é solitária. Na Europa, ambientalistas classificaram o acordo como “inaceitável”. Políticos franceses assinaram uma carta na qual chamam o acordo de “um erro econômico e um horror ecológico”, e os líderes Emmanuel Macron, da França, e Angela Merkel, da Alemanha, também mostraram-se preocupados com os impactos ambientais de tal comércio expansivo, mas não é a primeira vez que eles são avisados.

“Começamos a alertar a Europa que eles estavam comprando madeira roubada das terras indígenas e unidades de conservação na Amazônia há 20 anos”, relatou Ailton Krenak. “Essa campanha obrigou um maior controle de certificação sobre a madeira que saia dos portos do Brasil, e, durante mais de uma década, se constituiu em um importante mecanismo de diminuir o desmatamento o o roubo de madeira nas terras indígenas”, analisou.

Em relatório inédito sobre como as relações entre empresas norte-americanas e europeias com negócios não sustentáveis se costuram nas florestas brasileiras, a Apib relatou dados importantes. Os autores do estudo analisaram as principais multas por desmatamento ilegal cometidas por 56 empresas brasileiras que foram autuadas pelo Ibama desde 2017, e identificaram as negociantes com tais partes, o que comprova que o amplo mercado da carne no Brasil, por exemplo, só é possível por conta da destruição de territórios do Cerrado e da Amazônia.

Cerca de 41% das importações de carne bovina da UE foram provenientes do Brasil em 2018, e os números poderiam refletir uma realidades diferente caso houvesse pressão econômica por parte dos importadores nos produtores nacionais. “Se não der prejuízo, não muda a tendência. Só vão parar de jogar veneno, comer floresta e comer terra se eles tiverem prejuízo”, critica Krenak.

No Brasil, o relatório da Apib destacou a importância de investidores e comerciantes de commodities globais, que analisam os riscos de negócios e influenciam aonde vai parar o capital no final das contas. O movimento indígena também luta por esta via: um dos advogados da Apib, Luiz Henrique Aloy, do povo Terena (MS), participou da reunião anual da Blackrock, a maior gestora de investimentos do mundo – que possui mais de 6 trilhões de dólares em ativos – e pediu para que os executivos boicotassem commodities provenientes de invasões ilegais. Neste ano, a Blackrock ja reduziu ações da mineradora Vale após a tragédia de Brumadinho, um movimento claramente em direção aos negócios. Resta saber se há alguma sensibilidade em Wall Street com pressão por parte do mercado europeu.

Uma parceria entre a ONG WWF e a Fundação Getúlio Vargas também analisou, em 2017, as responsabilidades do mercado financeiro na cadeia de desmatamento nos solos nacionais. Um dos investidores entrevistados apontou que “riscos reputacionais” poderiam comprometer a capacidade das empresas em atuar em certos países, e destacou também o exemplo da multinacional IOI Group, que perdeu cerca de 20% do valor de mercado após descobertas relacionadas à extração de óleo de palma e desmatamento.

“Terra necrosada”

Em janeiro, uma operação da Policia Federal apreendeu mais de 40 contêineres de madeira ilegal no porto de Manaus – cerca de 50% do total seria destinado à Europa e aos Estados Unidos. “O material apreendido até o momento, se colocado de forma linear, cobriria um percurso de 1.500 quilômetros, o que equivaleria à distância entre Brasília e Belém, aproximadamente”, informou a PF em comunicado. Desde março de 2019, houve um aumento de 150% nas invasões ilegais em todo o País, de acordo com a APIB. A principal vítima é a Amazônia – e não há fiscalização.

Para além dos números distorcidos apresentados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pela ‘musa do veneno’ e chefe da pasta da Agricultura, Tereza Cristina, Ailton Krenak define a linha de aviso a quem se interesse em fazer negócios no Brasil. “O solo onde essa produção de grãos se dá é uma terra necrosada. E os europeus estão comendo essa necrose. Se eles quiserem continuar financiando o agronegócio, eles podem comprar o próprio veneno deles.”

FONTE: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/povo-indigena-alerta-ue-sobre-amazonia-voces-estao-financiando-crime/

26ª edição do Porto Alegre em Cena discute as artes e a humanidade






Continuando com a proposta da edição passada, o 26º Porto Alegre em Cena, que ocupará a cidade de 10 a 23 de setembro, esse ano propõe discussão sobre o Brasil, quem somos e o futuro da humanidade.
Com mais temáticas e aprofundando relações entre a natureza e o humano, o viés será mais ligado ao âmbito filosófico e antropológico. “A presença do corpo em cena, não apenas humano, mas os corpos da natureza, descentralizar a figura humana das grandes realizações e mesclar suas diferenças, valorizando-as são algumas das propostas de discussão do festival esse ano. Queremos causar reflexões sobre a humanidade e nossas potências e fragilidades”, explica Fernando Zugno, diretor geral do Em Cena.
Cerca de 53 atividades fazem parte da 26ª edição do festival. Artistas indígenas de Minas Gerais e da Amazônia, além de representantes regionais, estarão presentes. Ailton Krenak (krenak), Davi Kopenawa (yanomami) e um xamã (yanomami) serão figuras centrais nas discussões e estarão em Porto Alegre durante todo período do festival para uma das residências artísticas dessa edição.
“Krenak auxiliou a formatar a Constituição de 1988. Kopenawa escreveu uma obra-prima intitulada A queda do céu em parceria com o francês Bruce Albert, que só ganhou versão em português cinco anos depois de seu lançamento na Europa. Eles estarão juntos, durante dez dias, no festival, e serão centrais em uma das residências artísticas que planejamos”, ressalta Zugno.
Já Sergio Blanco é diretor e dramaturgo, dos mais importantes da atualidade, e desponta no âmbito cênico com duas peças que levam sua assinatura: Las Flores Del Mal (em que Blanco versará sobre violência de uma forma geral e, especificamente, na arte) e A Ira de Narciso.
Nessa edição serão cinco lançamentos de obras literárias, no Centro Municipal de Cultura, além de atividades complementares sobre as obras: o livro de dramaturgia francesa ganhará leitura dramática dirigido por Renato Forin Jr e interpretado pela Cia. Indeterminada.
A programação está repleta de diversidade. Desde temáticas mais densas e reflexivas até montagens mais populares. Entre os destaques estão Dakh Daughters, um grupo de mulheres ucranianas que mistura músicas, textos e interpretações que versam sobre amor e guerra; Gota D’água {Preta} é uma releitura do clássico criado por Chico Buarque e Paulo Pontes na década de 1970, encenado por um elenco predominantemente negro, em que estilos da periferia, funk e hip hop são embalados pela forca e a influencia das religioes de matriz africana.
Já PI Panorâmica Insana conta com mais de 150 personagens interpretados por Cláudia Abreu, Leandra Leal e grande elenco. A peça, dirigida por Bia Lessa, discute temas como civilização, indivíduo, sexualidade, política, violência, miséria, riqueza e desejo.
Da França vem Happi - A tristeza do rei, espetáculo de dança contemporânea que é fruto da colaboração de dois notáveis artistas de origem africana radicados na França: James Carlès, intérprete, de origem camaronesa, e Heddy Maalen, coreógrafo, nascido na Algéria.
Entre os espetáculos nacionais, não poderia faltar o tradicional Grupo Galpão. Com direção de Márcio Gomes, o espetáculo Outros é um desdobramento de Nós, apresentado em Porto Alegre em 2016. Destaca inquietações contemporâneas e questões relacionadas à incapacidade ou necessidade de escuta do silêncio, bem como a construção da memória e o impacto do agora no futuro.
De São Paulo vem Margarida. A peça é uma tentativa poética de dar vida à memória de Margarida Maria Alves, militante camponesa assassinada em 1983 por interesses políticos de latifundiários. Após perceber-se herdeira de uma tradição, a performer paraibana Luz Bárbara reconstrói a trajetória de Margarida em uma experiência compartilhada com o público de retorno à casa e ao túmulo da militante.
Os ingressos custam entre R$ 10,00 e R$ 80,00 – mais detalhes serão divulgados em breve. A pré-venda começa dia 20 de agosto, com abertura para o público em geral dia 30 de agosto. A bilheteria física estará no Shopping Total, enquanto a venda online ocorre pelo site uhuu.com. Mais informações pelo site portoalegreemcena.com.


FONTE: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cultura/2019/08/697393-26-edicao-do-porto-alegre-em-cena-discute-as-artes-e-a-humanidade.html

Vida e luta do escritor e líder indígena Ailton Krenak são temas de documentário








O líder indígena Ailton Krenak, autor do livro “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” (Cia das Letras) — o terceiro mais vendido na última FLIP — protagoniza o documentário Ailton Krenak: O Sonho da Pedra, de Marco Altberg.

O longa, exibido pelo canal Curta!, acompanha a trajetória de vida e expõe as reflexões sobre a luta do escritor e filósofo pertencente à etnia krenak. Com imagens e depoimentos de Ailton em diferentes momentos, bem como de Vincent Carelli, Álvaro Tukano, Darcy Ribeiro, Juca Ferreira, Mário Juruna e Marcos Terena, o filme mostra o percurso de Krenak, desde os seus estudos em São Paulo até as suas viagens pelo Brasil e pelo mundo, consolidando-o como uma espécie de embaixador das culturas originárias brasileiras.

Uma de suas ações mais famosas se deu na Assembléia Constituinte, em 1987, quando discursou no Congresso Nacional ao mesmo tempo em que pintava seu rosto de preto, em protesto contra o tratamento dado aos índios brasileiros pelos políticos. “Ailton Krenak: O Sonho da Pedra” será exibido na Sexta da Sociedade, 9, às 23h.

Imagem: Aílton Krenak e o sonho da pedra / Divulgação

FONTE: https://filmow.com/noticias/31983/vida-e-luta-do-escritor-e-lider-indigena-ailton-krenak-sao-temas-de-documentario/

O xamanismo como inspiração para novas formas de pensar o jornalismo

Por Pedro Varoni em 06/08/2019 na edição 1049


Observatório da imprensa

Lara Linhalis Guimarães é professora de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto. É integrante do grupo de pesquisa Quintais: Cultura da Mídia, Arte e Política e do Laboratório de Jornalismo e Narrativas Audiovisuais, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao jornalista Pedro Varoni, Lara fala sobre suas pesquisas, que propõem o diálogo entre as práticas xamânicas de matriz indígena e o exercício do jornalismo.

Essas inquietações foram despertadas durante o doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando se dedicou a pesquisar o midiativismo das manifestações de 2013. As chamadas “jornadas de junho” foram o epicentro de mudanças políticas que impactaram o jornalismo. A grande mídia cobriu as manifestações de longe, apartada do acontecimento. De outro lado, assistimos à imersão total na ação daqueles que fizeram as transmissões ao vivo, de dentro das manifestações em 2013. Essa dicotomia fez a pesquisadora pensar num deslocamento: nem tão de dentro, nem tão de fora.

A resposta para esse impasse veio num curso de aperfeiçoamento em cultura e histórias do povo indígena na Universidade Federal de Juiz de Fora. Lara era tutora do curso e conheceu Ailton Krenak, liderança indígena e escritor. Através dele, aproximou-se do perspectivismo ameríndio, teoria do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. A partir daí, passou a refletir sobre uma analogia entre os deslocamentos perspectivísticos próprios do xamanismo e a tradução de mundo almejada pelos jornalistas.

Mas não espere dessas reflexões manuais para um novo jornalismo. Trata-se, antes, do convite a pensar novos modos de mediação – o repórter xamã é um personagem conceitual, no sentido atribuído pelos filósofos Deleuze e Guattari. Afinal, como escreve Lara em um dos seus textos, “o nascimento de uma nova ontologia é questão de sobrevivência: do mundo e do jornalismo”.

O contexto contemporâneo tem imposto desafios epistemológicos ao jornalismo. Ainda é possível defender as ideias de imparcialidade e objetividade atualmente?
Primeiro, precisamos pensar como aquilo que se convencionou chamar de “o” jornalismo – o hegemônico, aquele legitimado na prática profissional, ao menos como modelo a ser seguido – abriga dessas ideias e se esse jornalismo dá conta da multiplicidade de mundos que se proliferam e são postos em tensão no contexto contemporâneo. Esse jornalismo – o legitimado – é filho da modernidade, logo, de uma visão cientificista de mundo: aquela que separa natureza de cultura, fato de versão, realidade objetiva de representação. Por essa via, caberia ao jornalista a tarefa árdua de buscar sempre ver os acontecimentos de uma perspectiva distanciada, ou atuar “do lado de fora” dos fatos, exercendo uma postura imparcial a respeito, ao menos como meta. Esse ideal de conhecimento está baseado na crença de que conhecer é objetivar, ou seja, despir os fatos de suas subjetividades, a fim de conhecê-los melhor. A questão que se coloca é: o que esse jornalismo, com base nesse ideal, tem produzido em termos de conhecimento sobre o(s) mundo(s) contemporâneo(s)? Vejo pouca coisa potente e assumo o risco da generalização quando digo isso. Assim como vejo pouco promissor o que convencionou-se chamar de jornalismo ativista: aquele que prega a inserção radical na ação, ou a valoração por si só positiva das subjetividades, uma vez que a presunção de verdade prevalece (agora “do lado de dentro” dos acontecimentos). Penso ser urgente ativar o pronome indefinido quando tratamos de jornalismo – um jornalismo -, pois assim, ao menos potencialmente, abrimos espaço para pensar – e encontrar – outros jornalismos possíveis, que se sustentem a partir de outros ideais de conhecimento, outras formas de tradução ou maneiras de contar histórias. Uma pista seria buscar, em suma, outras ontologias – outros modos de ser e estar no mundo – para inventar um jornalismo (não “o” jornalismo) que abrigue a diferença, ao invés de silenciá-la, que faça dialogar perspectivas, atuando, de fato, os ou as jornalistas como mediadores de mundos. Se o jornalismo, aquele do artigo definido masculino, não fizer isso (se ele não se mover pelo terreno da inconstância do ser, virando “um”, “uma”, nem que seja pra voltar a ser “o”), penso, em tom melancólico mesmo, que haverá um momento em que os discursos, no geral, serão produzidos apenas para o espelho – para os mesmos, para quem pensa igual, vive igual. E aí vem o risco de proliferação de narrativas totalitárias, e, como já temos visto, da ascensão da intolerância em diversos níveis, e essas narrativas terão mais impacto na vida das pessoas do que nossas histórias contadas a partir de técnicas de verificação precisas. Há que se buscar outras maneiras de conversar e suspeito que, para isso, o filho da modernidade tenha que sair da casa onde nasceu.

As manifestações de 2013 trouxeram à tona a necessidade do jornalismo brasileiro ser mais plural, a partir da ideia da multiparcialidade defendida por coletivos como o Mídia Ninja. O que se viu na sequência foi um modelo de jornalismo ativista, convivendo com a mídia conservadora mainstream. Há um terceiro caminho para além dessa dualidade que tem marcado a vida social e a imprensa brasileira?
O que eu verifiquei a partir da minha pesquisa de campo junto a coletivos de midiativismo no Rio de Janeiro – especialmente junto ao grupo que se autodenominou como Mídia Ninja, vinculado ao coletivo Fora do Eixo -, é que a ideia de inserção radical na ação, à primeira vista muito potente quando a gente pensa no modo como a mídia tradicional vinha cobrindo as manifestações (do alto dos edifícios, dos helicópteros ou numa performance falseada de um ou outro repórter no meio dos manifestantes), trazia consigo a mesma presunção de acesso privilegiado ao mundo, ao acontecimento, que as narrativas produzidas pela mídia tradicional. A questão é que essa presunção não evoluiu para uma conversa entre diferentes perspectivas. O que se viu foi a proliferação de contra-narrativas, valoradas positivamente por afirmar algo “contra” um discurso hegemônico. De fato, a existência e a visibilidade dessas contra-narrativas já eram por si sós um ato de resistência, naquele momento. Lembro-me bem de vários entrevistados que relataram que decidiram transmitir ao vivo os protestos porque o que eles viam na televisão ou liam nos jornais não correspondiam ao que eles vivenciavam enquanto manifestantes. Entretanto, narrativas e contra-narrativas se encaixam bem em esquemas maniqueístas, para o bem e para o mal. Naquele momento da minha pesquisa, comecei a flertar com correntes contemporâneas da antropologia, que buscavam trilhar o seguinte caminho no que diz respeito ao conhecimento sobre a humanidade: para entender sobre nós – inclusive sobre a própria ideia de humanidade, que é também uma construção – precisamos ir até nossos outros! E quem são nossos outros? Aqueles que sustentam suas vidas a partir de outros modos de ser e estar no mundo, de outras ontologias. Naquele momento, também comecei a acessar indígenas que se propunham a dar visibilidade aos seus modos de pensar o mundo, como Davi Kopenawa, Kaká Werá, Álvaro Tukano e especialmente Ailton Krenak, importante liderança indígena, jornalista e profundo conhecedor da cosmologia ameríndia. Por esse caminho, iniciei a tessitura do que, à primeira vista, me pareceu um potente devaneio: criar uma analogia entre o tornar-se outro, próprio dos xamãs em seus deslocamentos perspectívicos, e o movimento de tradução de mundos almejado pelos jornalistas. Os xamãs, ou pajés, a grosso modo, são aqueles que conseguem fazer dialogar espécies diferentes de seres – plantas, animais, espíritos, aquilo que a gente chama de fenômenos da natureza ou ainda o que a gente entende como seres inanimados, como montanhas, pedras, objetos, etc. Para que esse tipo de tradução seja possível, a alteridade – a diferença – torna-se constitutiva do eu, num movimento em que tanto o xamã quanto a espécie com a qual se quer dialogar entram em um processo de transformação mútua. Cada um passa a “funcionar” como o outro, a partir de um ideal de conhecimento em que, como acredita o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, conhecer é subjetivar, personificar, auferir o máximo de intencionalidades daquele – ou daquilo – que se propõe a conhecer. Esse devir-outro, ou “ver como”, distancia-se do dualismo lado de fora/lado de dentro, o qual observei no âmbito das manifestações de junho de 2013 e no eco ruidoso desses protestos ao longo da Copa de Mundo de 2014. Seria um movimento de tradução que é, ao mesmo tempo, lado de dentro e lado de fora. E, a partir daí, comecei a buscar inspiração no xamanismo para pensar a tradução de mundos realizada pelos jornalistas. O momento agora é de traição da analogia inicial a qual me propus, para pensar novas combinações com vistas a potencializar o “ver como” dos jornalistas.

O seu trabalho propõe como modelo um diálogo do jornalismo com a teoria do perspectivismo ameríndio do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. É possível resumir essa proposta?
É importante dizer, de antemão, que a pretensão de esboçar um novo modelo de jornalismo a partir do xamanismo é menos importante, a meu ver, do que pensar o jornalismo a partir do xamanismo. Ou, mais precisamente, pensar um jornalismo a partir da ideia de xamanismo que construí, muito especialmente, a partir de Davi Kopenawa e Viveiros de Castro. É este antropólogo, por exemplo, que vai entender os xamãs como os mestres do esquematismo cósmico. A partir do estudo desses povos é que Viveiros de Castro fez surgir o conceito de perspectivismo ameríndio. O conceito abriga a crença, partilhada por povos indígenas amazônicos, de que o mundo é habitado por diferentes tipos de seres (humanos e não-humanos) que são sujeitos, ou seja, têm capacidade de agência sobre o mundo, são pessoas (mesmo que pessoas não-humanas), agem com base em intencionalidade e reflexividade. Nesse conceito está também a ideia de que cada um desses seres se vê como humano, vendo todos os outros, então, como não-humanos. Isso porque, em algumas cosmologias não ocidentais, prevalece a ideia de que há uma humanidade moral comum a todos os seres (uma só alma, uma só cultura), os quais se diferenciam então pelo corpo (pela “natureza”). Ser humano, assim, seria uma posição ocupada somente em relação a um outro, o que nos faz mirar a ideia de humanidade como capacidade, não como condição essencial. E põe no horizonte, ainda, a multiplicidade potencial de condições de existência. Pois bem. O deslocamento xamânico ameríndio almejaria, então, a interlocução transespecífica, aquela entre diferentes espécies de seres, vendo os não-humanos como eles se veem, ou seja, como humanos. O xamã seria aquele autorizado a cruzar essas perspectivas múltiplas (os diferentes corpos, as diferentes naturezas), desenvolvendo sua diplomacia, a sua arte política, entre variadas espécies de seres que habitam a zona de uma humanidade moral (uma só cultura). A tradução levada a cabo pelos xamãs almejaria o quem das coisas, para então chegar ao por que (ou aos porquês). Isso em razão de o xamanismo cultivar um ideal epistemológico, como já mencionei anteriormente, em que conhecer é personificar. Uma boa interpretação xamânica, assim, é aquela que, segundo Viveiros de Castro, consegue revelar um máximo de intencionalidades em cada evento. Pois bem, interessa então navegar (e uso esse verbo intencionalmente, porque minha ação é justamente essa) pelo movimento de tornar-se outro próprio do xamanismo, a fim de inspirar o que chamei inicialmente de jornalismo de perspectivas, mas pouco importa o nome. Para a antropóloga Aparecida Villaça, que analisou a relação entre xamanismo e contato interétnico a partir da etnografia wari’ (um grupo de língua Txapakura da Amazônia Meridional), o movimento de tradução dos xamãs é análogo a um jogo de espelhos, em que imagens são refletidas ao infinito. Talvez aí esteja a chave para pensar o movimento de tradução no jornalismo. Veja bem, ela diz, em um texto publicado no ano 2000: “O que ocorre é uma dupla inversão: um homem destaca-se do grupo tornando-se animal e adotando um ponto de vista humano (wari’) para que o resto do grupo, permanecendo humano (Wari’), possa adotar o ponto de vista animal”. O que me ocorre é a potência desse jogo de espelhos para pensar o modo como o jornalismo – especialmente os ou as jornalistas – acessa e faz conversar mundos tão diferentes. Também me leva a pensar que tipos de narrativas são mais potentes para que a “aldeia” do ou da jornalista – ou seja, seu público – possa adotar um outro ponto de vista sem deixar de ser quem se é, de modo que essas narrativas atuem impelindo a diferença, ao invés de se assentarem na busca por um sentido único, consensual, sobre as coisas do mundo. Tudo isso ainda são esporos jogados ao vento de alto de montanha (rumo incerto), não há pretensão de delinear qualquer modus operandi aos jornalistas que queiram se tornar um pouco xamãs, um pouco jornalistas. Talvez o caso agora seja pôr em cena a força do jornalista-xamã como personagem conceitual, no sentido que dão ao termo Gilles Deleuze e Félix Guattari, no livro O que é filosofia?: não uma personificação abstrata, tampouco uma alegoria, mas o sujeito através do qual o pensamento se movimenta, inclusive em suas inconstâncias. É interessante pontuar que, nesse mesmo livro, os autores dizem que “na enunciação filosófica, não se faz algo dizendo-o, mas faz-se o movimento pensando-o, por intermédio de um personagem conceitual”. É ele, digamos, quem vai operar, realizar os conceitos. Por isso eu frisei, no início desta resposta, que não estou interessada, não mais, em modelos, mas em modos outros de pensar o jornalismo.

Como o jornalista pode se colocar no ponto de vista do outro e, ao mesmo tempo, ter um distanciamento para fazer o seu trabalho?
Uma pista emerge da ideia de que uma boa tradução é aquela, como eu disse, que revela o máximo de intencionalidades, buscando, primeiro, o quem das coisas (personificar para conhecer). A imagem do jogo de espelhos, já mencionada, também faz emergir questionamentos potentes: o que ou quem eu vejo quando estou diante de um entrevistado, de uma entrevistada? O que reverbera de mim (e da cultura organizacional, profissional, etc) nas questões que proponho? As respostas são ecos das minhas perguntas, estão aprisionadas em quais constrangimentos (um outro jogo de espelhos), são expressões de quais desejos contidos? O que eu quero ver no espelho e o que eu poderia ver caso pensasse de outra forma? Outro movimento potente é aquele inspirado em Roy Wagner, antropólogo que, na década de 1970, lançou o livro A invenção da cultura. Ele vai dizer que a cultura é inventada, é precipitada, a partir do choque cultural, do encontro com a diferença. Antes disso, segundo ele, não há cultura, porque, dizendo a partir de uma metáfora, não há espelho a partir do qual vemos a nós mesmos. E esse espelho é o outro: um outro modo de pensar, de agir, de se comportar, diferente do nosso, o qual torna visível então nosso modo de pensar, de agir, de se comportar – nossa “cultura”. Pois bem. Esse movimento implica tanto a visibilidade quanto a plausibilidade, segundo Wagner: primeiro nossa cultura se torna visível a partir do encontro com um outro modo de agir no mundo e aí buscamos analogias para entender o outro a partir dos nossos próprios termos; depois, começamos a considerar plausível um outro modo de agir no mundo, diferente do nosso. O lance é que esse processo – que nada mais é do que um movimento de tradução -, para que não fiquemos ao nível das analogias, deve deslizar pelo caminho da traição – de si e do outro. Visibilidade, plausibilidade e traição são peças que podem ser acessadas na formulação de algo inspirador ao trabalho dos jornalistas. A traição seria o momento em que acionaríamos a lógica da predação – constituir-se a partir de um outro -, lógica essa a partir da qual se movem tantas relações entre seres nas cosmologias ameríndias, inclusive a conversa que o xamã estabelece em sua tarefa de traduzir mundos. Algum jornalista poderia me perguntar: como o trabalho jornalístico pode ser conduzido a partir dessa tríade? E eu retornaria, a ele ou ela, uma pergunta similar: inspirado(a) por esse “pensar”, como você poderia conduzir a maneira como dá visibilidade aos acontecimentos do mundo, emprega técnicas para que sejam compreensíveis ao seu público e cuida para que os “termos” dos acontecimentos (o quem das coisas) não sejam somente reflexos dos seus termos – para que outros modos de pensar e de agir sejam visíveis e plausíveis para seu público? Obviamente, minha pesquisa não tem a pretensão de funcionar como manual de conduta aos repórteres de rua. Quem poderá fazer precipitar algo potente a partir dessa inspiração são aqueles que atuam ou pretendem atuar na prática profissional, considerando a necessidade de que essas discussões sejam postas em trânsito tanto nos mercados quanto na academia, especialmente na universidade pública, locais de formação de jornalistas e jornalismos.

É possível citar alguns exemplos de trabalhos jornalísticos em que você percebe evidências do repórter-xamã?
Ao longo do meu trabalho de campo no doutorado, imaginei inicialmente que os streamers, aquelas e aqueles que transmitiam ao vivo de dentro das manifestações, seriam protótipos do que você nomeia repórter-xamã. Escrevi um artigo sobre isso, publicado na Galáxia, revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Depois, acabei percorrendo outras evidências, fiz um movimento de retorno ao new journalism – essa nomenclatura que a gente usa quando queremos falar dos escritores e das escritoras norte-americanos(as) que, por volta dos anos 1960, buscavam utilizar técnicas da literatura na apuração e composição das narrativas jornalísticas, a exemplo de Gay Talese e Truman Capote. Aqui no Brasil, me trouxe pistas dessa “incorporação” – talvez lugar-comum quando se pensa em reportagem em profundidade – a jornalista Eliane Brum, por fazer jornalismo baseada mais na escuta do que na fala, ao menos assim me parece. Mais recentemente, conheci Fabiana Moraes, que, em seu O nascimento de Joicy, trouxe à tona a complexa relação que estabeleceu com sua personagem na feitura da série de reportagens publicada em 2011 no Jornal do Commercio. Neste livro de Fabiana, inclusive, ela cunha o termo “jornalismo de subjetividade”, bastante potente. De todo modo, não sei se é o caso apoiarmo-nos, agora, fervorosamente em nomes que, um pouco mais ou um pouco menos, se adequam à ideia de um jornalismo de perspectivas por incorporar uma certa faceta do repórter-xamã – estaríamos fadados, talvez, a permanecer ao nível das analogias. E o que eu quero é avançar na traição. Também fatalmente deixaria mais de uma penca de gente boa fora de vista. Talvez seja o caso pensar, primeiro, que tipos de posturas fazem parte da caracterização desse personagem conceitual e quais narrativas essas posturas podem gerar, potencialmente (o que ele pensa, como ele age e como ele diz o que pensa). No que diz respeito às narrativas, aquelas que chegarão ao público e que tem a pretensão de apresentar a esse público uma perspectiva outra (retomando o jogo de espelhos, mencionado anteriormente), há pistas na linguagem transmídia, por dar relevo à vida como rede; na utilização do diálogo realista; na descrição cena a cena; nas mudanças de ponto de vista, transitando o repórter por entre as “cabeças” dos personagens; nas expressões metafóricas, na construção de alegorias como estratégia de leitura das coisas do mundo. Enfim, narrativas que sejam mais “abertas”, menos indiciais, em que o equívoco fundante de toda conversa seja posto em cena, e não silenciado. E isso tudo me reconduz ao modo como Ailton Krenak, nas conversas que tivemos presencialmente, me “explicava” sobre este ou aquele tema que discutíamos: através de pequenas histórias. E foi assim que, numa manhã de 2015, conversamos sobre jornalismo, sem falar exatamente de jornalismo. Há um texto que publiquei, em 2017, a partir desse encontro, chamado Nada mais próprio que o outro. Tudo isso são pistas a serem seguidas.

Como aplicar a ideia do jornalismo perspectivista para mudanças no ensino e práticas profissionais?
Diria que, no que diz respeito ao ensino, o que evoca, de antemão, a ideia de um jornalismo perspectivista é menos um modelo a ser ensinado e mais uma provocação para que docentes e estudantes possam imaginar o jornalismo como vários, portando uma coleção infinda de “óculos”, fazendo referência a Bourdieu, com os quais se pode admirar uma paisagem que se perde no horizonte, um cenário que já não é mais o mesmo depois de um pequeno suspiro apenas. E isso é muito difícil quando se tem uma pressão constante por adequação dos currículos dos cursos, da conduta e dos desejos dos professores e professoras, bem como das expectativas dos alunos e das alunas às exigências de um mercado que se quer um. É quase comovente, de tão ingênuo, quando ouço um estudante dizer algo do tipo: “mas para que isso irá me servir se ‘lá fora’ se o que se exigirá de mim é outra coisa?”. E fico pensando no tanto de paisagem que se perde olhando um ponto fixo… Considerando também esse nosso contexto brasileiro, em que o ensino superior é regido por um ministério pouco preocupado com o pensamento que liberta, eco que é de um governo enlouquecido por sua imagem num espelho único, fica ainda mais difícil pensar em estímulos a pluralidades de modos de pensar, de formas de ver. Donna Haraway, em seu Manifesto ciborgue, defende que “uma visão única produz ilusões piores do que uma visão dupla ou do que a visão de um monstro de múltiplas cabeças”. Essa crença de Haraway nos faz ficar ainda mais alertas em relação ao que a escritora nigeriana Chimamanda Adichie chama de perigo de uma história única, ou, dizendo de outra maneira, ao que é precipitado quando estamos aprisionados em certa perspectiva de mundo: o que se produz é uma ilusão porcamente distorcida de nós mesmos, onde o divergente precisa ser silenciado, humilhado, apagado. Mas é na micropolítica que nosso olhar pode voar, ainda. E, apesar dos incentivos cada vez mais amputados por represálias ideológicas em formato de cortes – travestidos no discurso oficial de “contingenciamentos” -, a universidade ainda é o lugar por excelência da pesquisa, e como a temos feito! Em se tratando de pensar o jornalismo em sua multiplicidade de perspectivas, em suas urgências e torrencialidades, cito o Grupo Quintais: Cultura da Mídia, Arte e Política, do Departamento de Jornalismo da Ufop-MG, onde leciono, que vem se debruçando justamente em construir reflexões sobre o mundo amparado por modos não hegemônicos de conhecer e de existir, o que por si só já é um ato de resistência. E esse é um tipo de conversa a que os alunos e alunas começam a ter acesso, a participar, a se interessar, em várias universidades do país e do mundo. Somos muitos. E são esses estudantes, creio fortemente, que farão existir um mercado no plural, imaginando e exercitando cotidianamente jornalismos de perspectivas.



FONTE: http://observatoriodaimprensa.com.br/entrevista/o-xamanismo-como-inspiracao-para-novas-formas-de-pensar-o-jornalismo/