quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fé, calma e sabedoria contra o caos: o que recomenda este líder indígena

Autor de 'Ideias para adiar o fim do mundo', Ailton Krenak debateu-as em BH, durante o Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21


(foto: Neto Gonçalves/Divulgação)

Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak fez um gesto que entrou para a história. Em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos indígenas, ele pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional, em Brasília. “Se for para repetir esse gesto, tomara que seja com mais gente. Um homem sozinho não consegue nada. Mas não adianta ficar estressado, angustiado. Mesmo diante desse caos, precisamos não perder a fé e a calma. É preciso resolver as coisas com sabedoria”, afirma Krenak, que esteve em Belo Horizonte na quinta-feira passada (22), como convidado do Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século 21, promovido pela Prefeitura.


Apesar do tom sereno, Krenak não esconde a preocupação, sobretudo com relação às mais recentes tragédias ambientais, como as queimadas em curso na Amazônia. “A Amazônia é um bioma complexo e regulador do clima e distribui chuvas, além de reciclar e limpar o oxigênio do planeta. Os governos europeus sabem dessa importância e por isso estão se manifestando, preocupados com a situação”, observa Krenak. Para os povos indígenas, no entanto, a relação é outra. “É como se fosse uma entidade à qual muitos povos se sentem vinculados e na obrigação de protegê-la.”


Embora valorize a preocupação dos governantes europeus, o líder indígena avalia que eles deveriam ter tomado decisões em relação à proteção da Amazônia há muito tempo, como a suspensão das importações de carne de boi, de frango, soja e minério. “A pecuária, a mineração, tudo isso está devastando nossas paisagens, nosso meio ambiente. França, Alemanha e outros países deveriam colocar alguma restrição na hora de importar esses produtos. Já que nosso presidente decidiu avacalhar tudo, ele mesmo poderia fazer algo nesse sentido. Proibir a venda dessas mercadorias, por exemplo”, sugere.

Krenak é pessimista com as perspectivas do governo de Jair Bolsonaro. Particularmente, ele se refere ao presidente como Nero, o imperador romano famoso por ter incendiado Roma. “Vivemos um período crítico, com ameaças aos direitos humanos, à ideia do Estado de direito. Enquanto existir esse governo agredindo o senso comum, desrespeitando tudo e todos, desmantelando a infraestrutura de governança que recebeu, a gente não tem esperança nenhuma de melhorar. Mas temos que seguir firmes, fortes e resistentes”, afirma.

Krenak celebra o fato de autores indígenas estarem conquistando espaço no mercado editorial. “É muito importante (os editores) se interessarem e valorizarem não só o que os indígenas têm feito, mas os quilombolas também. Temos que ampliar essas vozes”, diz.

Atualmente morando em Resplendor (MG), às margens do Rio Doce, região de origem dos Krenak, ele lamenta as condições a que seu povo está submetido, principalmente após o rompimento da barragem da Samarco, em 2015. “Ainda estamos sentindo os efeitos. Estamos refugiados dentro de casa, como se fosse um acampamento dentro do nosso próprio território. Temos caminhão-pipa trazendo água, os animais sendo alimentados com ração. Infelizmente, o Rio Doce ainda vai demorar muito para voltar a ser uma fonte de subsistência. Ouso dizer que ele está pior do que o Arrudas.”

Enquanto isso, o líder indígena segue a filosofia de sua etnia, com a “cabeça na terra”, que é o significado da palavra Krenak. “Cada cultura tem a sua maneira de orar. No nosso caso, a gente se ajoelha e coloca a cabeça na terra para se ligar a ela, fazendo contato com esse planeta tão maravilhoso. É assim que temos que continuar.”

FONTE: https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2019/08/25/interna_cultura,1079473/fe-calma-e-sabedoria-contra-o-caos-o-que-recomenda-lider-indigena.shtml

A situação na Amazónia acompanhada por associações ambientalistas de todo o mundo

Cientistas da NASA que monitorizam focos de incêndio no planeta confirmaram as indicações do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais brasileiro.
A agencia espacial norte-americana diz que estes fogos estão relacionados com a desflorestação.

Entrevistado pela rádio pública, um dos fundadores do movimento indígena no Brasil associa o presidente Bolsonaro às queimadas que afetam a região.

O activista Ailton Krenak, organizador da Aliança dos Povos da Floresta, diz que foi o chefe de Estado quem induziu o chamado Dia do Fogo - uma iniciativa, alegadamente organizada por criadores de gados, cinco dias antes do início dos incêndios, na Amazónia.

FONTE: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/a-situacao-na-amazonia-acompanhada-por-associacoes-ambientalistas-de-todo-o-mundo_a1168235

O encontro de Ailton Krenak com a Bienal Internacional do Livro do Ceará

Por Roberta Souza, roberta.souza@diariodonordeste.com.br 23:28 / 20 de Agosto de 2019


Em sua primeira passagem pelo evento literário do Estado, o escritor e líder indígena reflete sobre o potencial da arte como edificante de uma nação e aproveita para estreitar laços com parentes locais


Enquanto desenhava uma dedicatória para o amigo Daniel Munduruku na primeira página da obra "Ideias para adiar o fim do mundo", Ailton Krenak lembrou-se de uma provocação: "você nunca vai ser um escritor famoso riscando o livro dos outros desse jeito". A frase havia sido dita pelo mesmo colega, ao pé do ouvido, num dos primeiros encontros dos dois em eventos literários do País. Nunca foi esquecida e tampouco lembrada. É tanto que para o mesmo interlocutor, o líder indígena de Minas Gerais estava a dedicar, em meio a um intervalo da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, traços e mais traços de uma literatura que vai muito além das palavras escritas.

"A possibilidade de uma literatura indígena é uma descoberta recente do público e, para um eventual leitor, ela é uma novidade. Eu até escrevi uma vez um pequeno texto refletindo sobre isso, retomando a ideia das inscrições rupestres, das cavernas, dos paredões, abrigos da antiguidade onde nossos ancestrais deixavam marcas, e relacionando isso com a ideia de que as narrativas da oralidade são de alguma maneira essa literatura", arremata Krenak, instantes após a dedicatória.

Convidado a falar sobre as narrativas de seu povo e a memória dos antigos no espaço "Oralidade, Ancestralidades e Mestres da Cultura" da Bienal do Ceará, o escritor e ambientalista comemorou o protagonismo conferido a ele, Munduruku (PA) e Cristino Wapichana (SP), por exemplo. "Promover esse lugar que tem sido chamado de 'lugar de fala' para cada interlocução, seja ela no campo da questão de gênero, de raça, de cultura, e no caso do povo indígena, assegurando nossa voz, eu acho que é fazer a coisa certa", pontua.

Durante muito tempo, na história do nosso País, não foi dada atenção para isso. O que existe de bom na literatura a favor dos índios e feito por não-indígenas é muito bacana, muito bem-vindo, mas está na hora dessa literatura ser literatura indígena, feita pelos indígenas, narrada pelos indígenas. Que esse encontro se dê entre pessoas, sem mediação", defende.
ARTE POLÍTICA
A trajetória de Ailton, pertencente à etnia crenaque e nascido na região do médio Rio Doce, é atravessada pela atuação política frente às causas de seu povo. Um dos exemplos disso foi sua participação na Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Carta Magna Brasileira de 1988. Já naquela época, ele protestava por dignidade. E um capítulo inédito sobre a proteção dos direitos dos indígenas na Constituição foi garantido graças à essa luta. Ao lançar olhar crítico sobre o Brasil de hoje, Krenak revisita um passado não tão distante.

"Mesmo que a gente esteja fazendo poesia e celebrando nossa arte, nossa cultura, a gente não pode se distrair, porque o autoritarismo se dissimula, aparece de várias formas. É por isso, inclusive, que essa ideia dessa democracia representativa, essa democracia formal, precisa ser posta em questão. Porque se a gente aceita que nós estamos vivendo uma democracia só porque somos convocados às urnas para escolher um presidente, isso pode ser uma grande trapaça", declara o ativista.


Povo Jenipapo-Kanindé acolheu Ailton Krenak na comunidade em Aquiraz por ocasião da atividade "Bienal fora da Bienal"
FOTO: BETO SKEFF


O escritor avalia que vivemos atualmente num cenário "que está sendo sucateado por uma mentalidade racista, preconceituosa em todos os sentidos" e isso o preocupa muito. "Fico pensando como o Brasil pode se fortalecer, chacoalhar e tirar essa praga que está nos nossos ambientes", reflete. A resposta, ele mesmo dá.

"É aí que está a importância dessa Bienal. Ela convoca autores, pensadores, filósofos, artistas, ela convoca o cidadão, na verdade. É claro que se alguém se constituiu num narrador, num escritor, num contador de histórias, ergueu-se nessa posição a partir de uma identidade e num sentido de cidadania", introduz o pensamento.

Todas as pessoas que estão aqui querem que o Brasil dê certo. Esse campo da arte é um campo que quer edificar uma nação e eu acho que isso é um desejo das pessoas que vivem o dia a dia, das pessoas que mandam as crianças para a escola para estudar, dos pais, das famílias que lidam para que essa vida seja um lugar bom pra todo mundo, e esse ambiente cria essa atmosfera", acredita.
ENCONTROS
A passagem de Krenak pela Bienal não se restringiu aos pavilhões do Centro de Eventos do Ceará. No último domingo (18), ele também esteve em visita à comunidade Jenipapo-Kanindé, no município de Aquiraz. O encontro com seus "parentes", como faz questão de ressaltar, foi puro acolhimento.

"Gostei muito de conhecer o território deles, e também de sentir a determinação da Cacique Pequena, de ter puxado a história do povo dela do anonimato e da negação de existência", diz.

Ailton Krenak e a Cacique Pequena estiveram juntos na comunidade Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz
FOTO: BETO SKEFF

Dos irmãos daqui, Krenak carrega somente certezas.

Os Jenipapo-Kanindé passaram quase todo o século XX ressurgindo com uma disposição de permanecer no mundo enquanto tiver gente. Eu acho isso lindo. Eles trazem para esse concerto com os povos uma poética, uma cantoria, um toré e, obviamente, eles invocam os encantados. Tem uma constelação de seres que estão guiando eles e sustentando a passagem deles pela Terra. Isso é maravilhoso, aumenta a potência do pensamento indígena num mundo que está em disputa o tempo inteiro".
Na despedida, o escritor indígena leva o afeto e a acolhida das pessoas como o ganho mais permanente, "aquele presente que vai ficar em mim". E aposta nas programações da "Bienal fora da Bienal" e do espaço "Terreiro em Sonho", por onde passou, como potencializadoras de um evento que há muito deixou de ser uma "feira". "O livro está só como um pretexto pra todo esse encontro que acontece aqui no Ceará. Todo mundo tem o que dizer", finaliza.

Serviço

XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
Até 25 de agosto, das 10h às 22h, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). Gratuito. Programação em bienaldolivro.Cultura.Ce.Gov.Br/Programacao/

FONTE: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/verso/o-encontro-de-ailton-krenak-com-a-bienal-internacional-do-livro-do-ceara-1.2138197

Líder indígena critica Bolsonaro por propostas sobre mineração



19/08/2019 16h41

María Angélica Troncoso.

Fortaleza (Ceará), 19 ago (EFE).- Um dos principais líderes indígenas do Brasil, Ailton Krenak criticou o presidente Jair Bolsonaro e o Governo Federal pela intenção de legalizar a atividade de mineração em terras ocupadas pelos povos indígenas.

Em entrevista à Agência Efe, Krenak apontou que os abusos que acontecem atualmente na Amazônia são provocados pelos discursos do presidente e dos ministros.

"Parece que enlouqueceram. É como se quisessem destruir a base natural do país", afirmou o ambientalista e escritor, que participa da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará.

A feira literária, que acontecerá até o próximo domingo, abre espaço para narrativas indígenas e de afrodescendentes e tem como tema central "As cidades e os livros". O evento acontece no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.
Além das críticas ao governo, Krenak opinou que a ideia de liberar a atuação de garimpeiros é apenas uma expressão de uma política global.

"Está acontecendo no mundo inteiro, é o que verbalizam as mentalidades mais descontroladas", disse.

No final de julho, Bolsonaro reforçou ter a intenção de regulamentar o garimpo no Brasil, incluindo em terras indígenas. Na ocasião, sem citar exemplos, o presidente alegou que alguns países e ONGs não querem que isso aconteça, porque querem os índios presos em "um zoológico", como um ser "pré-histórico".

Por sua vez, Krenak, que participou da elaboração da Constituinte, em 1988, considera que está contecendo "um assalto" às riquezas naturais brasileira.

Segundo dados coletados da Rede Amazônica de Informação Socioambiental (Raisg) e divulgados em dezembro de 2018, o Brasil conta com 321 pontos de mineração ilegal distribuídos em 132 áreas, a maioria concentrada nas margens do rio Tapajós.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por sua vez, apontou que houve um aumento em 278% do desmatamento entre julho de 2019 e o mesmo mês do ano passado.

Krenak, que foi criado na bacia do Rio Doce, em Minas Gerais, aproveitou o evento em Fortaleza para lembrar das tragédias em Brumadinho e Mariana, que tiveram saldo de 248 e 19 mortos, respectivamente, além de graves danos ambientais. Para o ativista, grandes corporações da mineração são culpadas por catástrofes como essas por "só visarem o lucro". EFE

FONTE: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2019/08/19/lider-indigena-critica-bolsonaro-por-propostas-sobre-mineracao.htm

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Povo indígena alerta UE sobre Amazônia: “Vocês estão financiando crime”


‘O solo onde essa produção de grãos se dá é uma terra necrosada’, diz líder indígena Ailton Krenak


O negócio bilionário cresceu aos olhos do governo assim que se concretizou diante do mundo. O acordo entre a União Europeia e o bloco que era tão criticado pelo presidente, o Mercosul, foi apresentado por Jair Bolsonaro como um dos “mais importantes de todos os tempos”, com “benefícios enormes” para a economia do País. O preço, porém, pode ser perverso. Líderes indígenas e entidades ambientalistas denunciam, ao outro bloco econômico signatário, o rastro de destruição deixado pelo agronegócio em terras invadidas, o vício em veneno por parte produtores brasileiros e o desprezo pelos povos em suas terras. “O que o povo indígena e seus aliados estão fazendo é exatamente alertar a Europa: vocês estão financiando o crime.”

Ailton Krenak, autor da fala acima, é uma das figuras mais importantes do movimento indígena no Brasil. Escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, ficou ainda mais conhecido há 30 anos, quando pintou o rosto em uma fala história na Assembleia Constituinte de 1988.

“Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como o povo que é inimigo do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento”, disse Krenak à época. A Constituição incluiu os direitos dos índios em seu texto, mas a financeirização global parece ter outras prioridades – e o movimento sabe disso.

Em junho, antes do acordo UE-Mercosul, a coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e ex-candidata à vice-presidência pelo PSOL Sônia Guajajara, anunciou em coletiva de imprensa na Alemanha que as lideranças dos povos brasileiros irão visitar empresas de cinco países e tentar participar de reuniões no Parlamento Europeu para denunciar o que eles estão prestes a comprar às toneladas: índices históricos de desmatamento e de aprovação de agrotóxicos, além de cerceamento de instituições reguladoras, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e da própria Funai (Fundação Nacional do Índio).

Guajajara estava na cidade de Bonn participando da primeira semana de negociações da COP25, a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU – que deveria ser no Brasil este ano se não fosse pela atuação bem sucedida de Bolsonaro em descreditar a importância da reunião e tirar o país da lista de concorrentes.

A pressão dos indígenas brasileiros não é solitária. Na Europa, ambientalistas classificaram o acordo como “inaceitável”. Políticos franceses assinaram uma carta na qual chamam o acordo de “um erro econômico e um horror ecológico”, e os líderes Emmanuel Macron, da França, e Angela Merkel, da Alemanha, também mostraram-se preocupados com os impactos ambientais de tal comércio expansivo, mas não é a primeira vez que eles são avisados.

“Começamos a alertar a Europa que eles estavam comprando madeira roubada das terras indígenas e unidades de conservação na Amazônia há 20 anos”, relatou Ailton Krenak. “Essa campanha obrigou um maior controle de certificação sobre a madeira que saia dos portos do Brasil, e, durante mais de uma década, se constituiu em um importante mecanismo de diminuir o desmatamento o o roubo de madeira nas terras indígenas”, analisou.

Em relatório inédito sobre como as relações entre empresas norte-americanas e europeias com negócios não sustentáveis se costuram nas florestas brasileiras, a Apib relatou dados importantes. Os autores do estudo analisaram as principais multas por desmatamento ilegal cometidas por 56 empresas brasileiras que foram autuadas pelo Ibama desde 2017, e identificaram as negociantes com tais partes, o que comprova que o amplo mercado da carne no Brasil, por exemplo, só é possível por conta da destruição de territórios do Cerrado e da Amazônia.

Cerca de 41% das importações de carne bovina da UE foram provenientes do Brasil em 2018, e os números poderiam refletir uma realidades diferente caso houvesse pressão econômica por parte dos importadores nos produtores nacionais. “Se não der prejuízo, não muda a tendência. Só vão parar de jogar veneno, comer floresta e comer terra se eles tiverem prejuízo”, critica Krenak.

No Brasil, o relatório da Apib destacou a importância de investidores e comerciantes de commodities globais, que analisam os riscos de negócios e influenciam aonde vai parar o capital no final das contas. O movimento indígena também luta por esta via: um dos advogados da Apib, Luiz Henrique Aloy, do povo Terena (MS), participou da reunião anual da Blackrock, a maior gestora de investimentos do mundo – que possui mais de 6 trilhões de dólares em ativos – e pediu para que os executivos boicotassem commodities provenientes de invasões ilegais. Neste ano, a Blackrock ja reduziu ações da mineradora Vale após a tragédia de Brumadinho, um movimento claramente em direção aos negócios. Resta saber se há alguma sensibilidade em Wall Street com pressão por parte do mercado europeu.

Uma parceria entre a ONG WWF e a Fundação Getúlio Vargas também analisou, em 2017, as responsabilidades do mercado financeiro na cadeia de desmatamento nos solos nacionais. Um dos investidores entrevistados apontou que “riscos reputacionais” poderiam comprometer a capacidade das empresas em atuar em certos países, e destacou também o exemplo da multinacional IOI Group, que perdeu cerca de 20% do valor de mercado após descobertas relacionadas à extração de óleo de palma e desmatamento.

“Terra necrosada”

Em janeiro, uma operação da Policia Federal apreendeu mais de 40 contêineres de madeira ilegal no porto de Manaus – cerca de 50% do total seria destinado à Europa e aos Estados Unidos. “O material apreendido até o momento, se colocado de forma linear, cobriria um percurso de 1.500 quilômetros, o que equivaleria à distância entre Brasília e Belém, aproximadamente”, informou a PF em comunicado. Desde março de 2019, houve um aumento de 150% nas invasões ilegais em todo o País, de acordo com a APIB. A principal vítima é a Amazônia – e não há fiscalização.

Para além dos números distorcidos apresentados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pela ‘musa do veneno’ e chefe da pasta da Agricultura, Tereza Cristina, Ailton Krenak define a linha de aviso a quem se interesse em fazer negócios no Brasil. “O solo onde essa produção de grãos se dá é uma terra necrosada. E os europeus estão comendo essa necrose. Se eles quiserem continuar financiando o agronegócio, eles podem comprar o próprio veneno deles.”

FONTE: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/povo-indigena-alerta-ue-sobre-amazonia-voces-estao-financiando-crime/

26ª edição do Porto Alegre em Cena discute as artes e a humanidade






Continuando com a proposta da edição passada, o 26º Porto Alegre em Cena, que ocupará a cidade de 10 a 23 de setembro, esse ano propõe discussão sobre o Brasil, quem somos e o futuro da humanidade.
Com mais temáticas e aprofundando relações entre a natureza e o humano, o viés será mais ligado ao âmbito filosófico e antropológico. “A presença do corpo em cena, não apenas humano, mas os corpos da natureza, descentralizar a figura humana das grandes realizações e mesclar suas diferenças, valorizando-as são algumas das propostas de discussão do festival esse ano. Queremos causar reflexões sobre a humanidade e nossas potências e fragilidades”, explica Fernando Zugno, diretor geral do Em Cena.
Cerca de 53 atividades fazem parte da 26ª edição do festival. Artistas indígenas de Minas Gerais e da Amazônia, além de representantes regionais, estarão presentes. Ailton Krenak (krenak), Davi Kopenawa (yanomami) e um xamã (yanomami) serão figuras centrais nas discussões e estarão em Porto Alegre durante todo período do festival para uma das residências artísticas dessa edição.
“Krenak auxiliou a formatar a Constituição de 1988. Kopenawa escreveu uma obra-prima intitulada A queda do céu em parceria com o francês Bruce Albert, que só ganhou versão em português cinco anos depois de seu lançamento na Europa. Eles estarão juntos, durante dez dias, no festival, e serão centrais em uma das residências artísticas que planejamos”, ressalta Zugno.
Já Sergio Blanco é diretor e dramaturgo, dos mais importantes da atualidade, e desponta no âmbito cênico com duas peças que levam sua assinatura: Las Flores Del Mal (em que Blanco versará sobre violência de uma forma geral e, especificamente, na arte) e A Ira de Narciso.
Nessa edição serão cinco lançamentos de obras literárias, no Centro Municipal de Cultura, além de atividades complementares sobre as obras: o livro de dramaturgia francesa ganhará leitura dramática dirigido por Renato Forin Jr e interpretado pela Cia. Indeterminada.
A programação está repleta de diversidade. Desde temáticas mais densas e reflexivas até montagens mais populares. Entre os destaques estão Dakh Daughters, um grupo de mulheres ucranianas que mistura músicas, textos e interpretações que versam sobre amor e guerra; Gota D’água {Preta} é uma releitura do clássico criado por Chico Buarque e Paulo Pontes na década de 1970, encenado por um elenco predominantemente negro, em que estilos da periferia, funk e hip hop são embalados pela forca e a influencia das religioes de matriz africana.
Já PI Panorâmica Insana conta com mais de 150 personagens interpretados por Cláudia Abreu, Leandra Leal e grande elenco. A peça, dirigida por Bia Lessa, discute temas como civilização, indivíduo, sexualidade, política, violência, miséria, riqueza e desejo.
Da França vem Happi - A tristeza do rei, espetáculo de dança contemporânea que é fruto da colaboração de dois notáveis artistas de origem africana radicados na França: James Carlès, intérprete, de origem camaronesa, e Heddy Maalen, coreógrafo, nascido na Algéria.
Entre os espetáculos nacionais, não poderia faltar o tradicional Grupo Galpão. Com direção de Márcio Gomes, o espetáculo Outros é um desdobramento de Nós, apresentado em Porto Alegre em 2016. Destaca inquietações contemporâneas e questões relacionadas à incapacidade ou necessidade de escuta do silêncio, bem como a construção da memória e o impacto do agora no futuro.
De São Paulo vem Margarida. A peça é uma tentativa poética de dar vida à memória de Margarida Maria Alves, militante camponesa assassinada em 1983 por interesses políticos de latifundiários. Após perceber-se herdeira de uma tradição, a performer paraibana Luz Bárbara reconstrói a trajetória de Margarida em uma experiência compartilhada com o público de retorno à casa e ao túmulo da militante.
Os ingressos custam entre R$ 10,00 e R$ 80,00 – mais detalhes serão divulgados em breve. A pré-venda começa dia 20 de agosto, com abertura para o público em geral dia 30 de agosto. A bilheteria física estará no Shopping Total, enquanto a venda online ocorre pelo site uhuu.com. Mais informações pelo site portoalegreemcena.com.


FONTE: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cultura/2019/08/697393-26-edicao-do-porto-alegre-em-cena-discute-as-artes-e-a-humanidade.html

Vida e luta do escritor e líder indígena Ailton Krenak são temas de documentário








O líder indígena Ailton Krenak, autor do livro “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” (Cia das Letras) — o terceiro mais vendido na última FLIP — protagoniza o documentário Ailton Krenak: O Sonho da Pedra, de Marco Altberg.

O longa, exibido pelo canal Curta!, acompanha a trajetória de vida e expõe as reflexões sobre a luta do escritor e filósofo pertencente à etnia krenak. Com imagens e depoimentos de Ailton em diferentes momentos, bem como de Vincent Carelli, Álvaro Tukano, Darcy Ribeiro, Juca Ferreira, Mário Juruna e Marcos Terena, o filme mostra o percurso de Krenak, desde os seus estudos em São Paulo até as suas viagens pelo Brasil e pelo mundo, consolidando-o como uma espécie de embaixador das culturas originárias brasileiras.

Uma de suas ações mais famosas se deu na Assembléia Constituinte, em 1987, quando discursou no Congresso Nacional ao mesmo tempo em que pintava seu rosto de preto, em protesto contra o tratamento dado aos índios brasileiros pelos políticos. “Ailton Krenak: O Sonho da Pedra” será exibido na Sexta da Sociedade, 9, às 23h.

Imagem: Aílton Krenak e o sonho da pedra / Divulgação

FONTE: https://filmow.com/noticias/31983/vida-e-luta-do-escritor-e-lider-indigena-ailton-krenak-sao-temas-de-documentario/