sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A humanidade que pensamos ser

Como conectar duas humanidades tão distantes: a que enxerga o rio como divindade e o que a enxerga como insumo?

CLAUDIA PENTEADO*
26 DEZ 2019 - 13H08 ATUALIZADO EM 26 DEZ 2019 - 13H08

Ailton Krenak demorou alguns anos para aceitar cruzar o oceano e ir a Portugal. Imagino o que representa para um homem indígena do Brasil, não só hoje mas em qualquer tempo, pisar na terra dos homens brancos que aportaram nos trópicos com suas ideias civilizatórias pré-concebidas, procurando enquadrar o que rapidamente rotularam de sub-humanidade atrasada e selvagem no seu próprio modelo. Mundo afora, no curso da história, homens brancos de diferentes origens (principalmente europeia) "evoluíram" e se "civilizaram" ao "dominar" a natureza e adquiriram uma espécie de licença para definir regras e comportamentos sobre o modo ideal e correto de existir no planeta.


Curiosamente, foi de palestras e entrevistas dadas em Portugal que nasceu uma pequena preciosidade em forma de livro, "Ideias para evitar o fim do mundo", com as ideias do ativista — hoje reverenciado por muitos — a respeito do Antropoceno, como alguns cientistas denominam a época que vivemos hoje, justamente definida como aquela em que os humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra. No seu pequeno grande livro, Krenak escancara o estranhamento diante desta humanidade — que definitivamente é outra, e não a dele — que se apartou da natureza, deixando de enxergar a si própria como parte dela e, portanto, de respeitá-la, para transformá-la em insumo.


"O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno", afirma Krenak. De alguma forma, a humanidade se apegou ao imaginário coletivo da terra como a grande mãe, com sua teta eterna provendo alimento ad-infinitum, farta, próspera e amorosa, sempre disponível.

O povo indígena Krenak, do qual faz parte o ativista, vive em uma área demarcada em Minas Gerais às margens do rio Doce, profundamente atingido pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, em 2015. O rio hoje morto pelos humanos "civilizados" era sagrado para os Krenak. Chama-se Watu, avô do povo — uma pessoa, portanto, e não um recurso. Isso dá uma dimensão da distância entre valores dessas diferentes humanidades. "Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista", escreve.

O livro de Krenak é de grande valor por diversos motivos, e chamou especialmente a minha atenção sua reflexão sobre o desafio de conectar humanidades tão díspares — a que se considera a verdadeira humanidade superior à natureza e orientada pelos rumos calculados da ciência, e as sub-humanidades como os Krenak, que nunca se enquadraram nos moldes idealizados e cristalizados por centenas de anos. E eis que estamos aqui, todos juntos, humanidade e sub-humanidades, rumando em direção ao mesmo abismo.


Diante da iminência da queda — que já vem ocorrendo faz tempo, mas agora em ritmo mais acelerado — Krenak propõe a todos o uso de pára-quedas coloridos. É sua proposta simbólica para a humanidade que dominou o planeta, de reconexão com a natureza e com a humanidade dos Krenak, iniciada na tradição de sonhar. Krenak propõe que se avance para o lugar do sonho para visitar outra ordem de vínculo com o mundo, bem distanciada da metáfora de natureza criada para consumo humano. Para os "quase humanos", como costumam ser rotulados os Krenak, o mundo tem outra potência. E fazer a humanidade enxergar esta potência talvez possa ajudar a salvar a todos.

Krenak acredita que talvez a única maneira de promover alguma conexão entre humanidades tão díspares é a via da subjetividade, acessando lugares distanciados do racional, onde os afetos se conectam.

Diante disso, venho refletindo bastante sobre a viabilidade do chamado "novo capitalismo" que tanto se discute hoje. Seria um novo olhar por parte das pessoas e suas empresas, baseado em uma economia "sustentável". É interessante como Krenak chama atenção inclusive para o termo "sustentabilidade", criado pela humanidade com um sentido utilitário. Vale refletir sobre o que precisa, afinal de contas, ser sustentado. A exploração em nome do desenvolvimento e da economia capitalista? O ciclo exploratório interminável da natureza como recurso, sem que "a grande teta" seque jamais?


O novo capitalismo parte das bases do capitalismo inventado por essa humanidade que está aí, a mesma que criou o conceito de sustentabilidade — e que ainda sustenta a ideia da natureza como recurso, mesmo que de maneira mais consciente. E ainda se sustenta sobre a ideia da hegemonia e superioridade do homem — e de sua técnica, sua ciência, sua economia, sua produção, seu capital, seu lucro. É com isso que devemos lidar.

Penso sempre no imenso dilema de CMO's diante do desafio de buscar o equilíbrio entre entregar resultados e encontrar o propósito que justifique o que sua empresa faz, e um jeito de estar no mundo menos danoso ao meio ambiente, cuidando do impacto social que ela gera.

As mesmas empresas que no passado agiram como bem entenderam em nome dos seus objetivos financeiros e frequentemente contribuindo para excessos consumistas hoje se deparam com novas regras gerais no ambiente e, principalmente, gerações de "consumidores" que esperam algo diferente delas — e desconfiam um bocado desse tal de "marketing". O livro e o movimento "Good is the new Cool", de Afdhel Aziz e Bobby Jones, é resultado dessa busca pelo resgate de sentido da profissão do marketing e do dilema que a acompanha: como ser bons profissionas e bons cidadãos, ao mesmo tempo?


Certamente hoje a maioria de CMO's e profissionais sérios envolvidos na missão de dar voz às marcas se preocupa em causar algum impacto positivo ao planeta, e vem procurando fazer o que é possível, com altíssimas doses de frustração envolvidas. Fundamental, mesmo, é enxergar seu quinhão de responsabilidade para com o abismo diante do qual nos encontramos e com o qual todos contribuímos, cada um a sua maneira. Como diz Krenak, encomendamos há 200, 300 anos este mundo em que estamos vivendo. O pacote chegou, e está aqui. É com ele que temos que lidar. E a pergunta é: que mundo estamos empacotando agora, para deixar para as próximas gerações? Como diz Krenak, "a gente vive reclamando, mas essa coisa foi encomendada, chegou embrulhada e com o aviso: 'depois de abrir, não tem troca'."

Sempre bom lembrar e refletir sobre a humanidade que pensamos ser, e a humanidade que queremos ser. Feliz 2020!

*Claudia Penteado é jornalista, estuda comunicação, filosofia e literatura, mora no Rio de Janeiro e acredita em capitalismo consciente. É leonina, mãe da Juliana e prefere ler livros em papel.

FONTE: https://epocanegocios.globo.com/colunas/Marketplace-ideias-e-inovacao/noticia/2019/12/humanidade-que-pensamos-ser.html

sábado, 30 de novembro de 2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Natureza Viva comemora o Dia do Rio

Para o povo Krenak a natureza é parte da família. O Rio Doce por exemplo é o avô: WUATU, na língua indígena
Natureza Viva
No AR em 24/11/2019 - 11:48

Comemorando o Dia do Rio, o Natureza Viva conversou com o líder indígena Ailton Krenak sobre a relação de seu povo com a natureza. Para eles os rios são nossos avós ou WUATU, na língua indígena. Também ambientalista e escritor, Aílton acaba de lançar mais uma obra, o livro "Ideias para adiar o fim do mundo".

No livro, ele fala sobre a importância dos vínculos profundos que os indígenas têm com a memória ancestral e com a natureza. Para eles, o homem e o meio ambiente não estão separados, por isso, as pedras, as montanhas, as árvores e os rios são tratados como membros da família.

O também ambientalista e escritor saúda o Rio Doce

Ailton é um dos mais importantes líderes indígenas do país

OBS: Acompanhe o bate papo completo no player do site!

FONTE: http://radios.ebc.com.br/natureza-viva/2019/11/no-dia-do-rio-o-natureza-viva-sauda-wuatu

Nova série do Canal Curta! aborda a consciência muito além do ser humano

Por Roberto Scalon -26 de novembro de 2019


Cientistas, filósofos, psicólogos, espiritualistas e ativistas sociais. Todos especialistas no tema da consciência, mas com abordagens por diferentes perspectivas. Assim se dá o enredo de “Consciência³”, nova série do Canal Curta! com direção de Renato Barbieri e estreia marcada para esta quinta (28). Pensadoras e pensadores refletem sobre o fenômeno universal da consciência.
A série tem como objetivo aprofundar o tema universal da consciência, com base no testemunho de pensadores e pensadoras, “pessoas realmente conectadas com o conhecimento universal”, de acordo com Renato. Um elenco estruturado que de fato se debruça sobre o tema, escolhidos a dedo de forma equilibrada entre gêneros e com presença essencial afro-brasileira e indígena. Nas palavras do diretor, “o elenco está no geral sintonizado com a Rede da Vida e não se encontra encarcerado pela mentalidade antropocêntrica. A série Consciência³ nos fala da Vida e de nosso tempo atual, cada vez mais vertiginoso”.
Entre os nomes escolhidos, o neurologista Antônio Damásio, o cientista espiritualista Fritjof Capra, o cientista de sistema Gaia Antônio Nobre, o pensador indígena Ailton Krenak, a filósofa Scarlett Marton, o historiador Luiz Marques, o psicólogo Guto Pompéia, o cosmologista Luiz Alberto Oliveira, a pensadora Lia Diskin, o filósofo Roman Krznaric, o psicólogo Roberto Gambini, o agroflorestal Ernst Götsch, o ativista Edgard Gouveia Júnior e outras pessoas notáveis.
“Consciência³” estreia dia 28 de novembro, às 23h no Canal Curta!.

FONTE: https://acessocultural.com.br/2019/11/serie-aborda-a-consciencia-muito-alem-do-ser-humano/

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Conheça tudo sobre Consciência, nova série do canal Curta!

Por
Daniela Carrano -
14/11/2019

Cientistas, filósofos, psicólogos, espiritualistas e ativistas sociais. Todos especialistas no tema da consciência, mas com abordagens por diferentes perspectivas. Assim se dá o enredo de Consciência, nova série do Canal CURTA! com direção de Renato Barbieri. Pensadoras e pensadores refletem sobre o fenômeno universal da consciência.

A série tem como objetivo aprofundar o tema universal da consciência, com base no testemunho de pensadores e pensadoras, “pessoas realmente conectadas com o conhecimento universal”, de acordo com Renato. Um elenco estruturado que de fato se debruça sobre o tema, escolhidos a dedo de forma equilibrada entre gêneros e com presença essencial afro-brasileira e indígena. Nas palavras do diretor, “o elenco está no geral sintonizado com a Rede da Vida e não se encontra encarcerado pela mentalidade antropocêntrica. A série Consciência nos fala da Vida e de nosso tempo atual, cada vez mais vertiginoso”.

Divida em cinco episódios, a série estreia dia 28 de novembro no canal. Confira abaixo a sinopse de todos os episódios:

1º Episódio

Neste primeiro episódio, os entrevistados expressam diferentes concepções da consciência ao longo da evolução e discorrem sobre o funcionamento desse misterioso atributo da Vida que, ao contrário do que professa a mentalidade antropocêntrica, não é uma exclusividade da nossa espécie, o Sapiens. Expressam sobre o desafio da expansão da consciência em tempos obscurantistas. Com Antônio Damásio, Scarlett Marton, Guto Pompéia e convidados.

2º Episódio

No segundo episódio da série, os entrevistados se debruçam sobre a que seria ter a consciência “do outro”, explanando sobre a necessidade da inclusão, as graves consequências da intolerância ao diferente e como a empatia é um marco na evolução da Vida. Com Lia Diskin, Edgard Gouveia Júnior, Roberto Gambini, Roman Krznaric e convidados.

3º Episódio

Este terceiro episódio, trará à tona a discussão sobre a importância de tomarmos consciência de que fazemos parte de uma intensa e complexa rede de interdependência da qual todos os seres – Sapiens ou não – fazem parte: a Rede da Vida. Mostra ainda como a mentalidade antropocêntrica se tornou uma grande armadilha. Com Ernst Götsch, Luiz Fernando Scheibe, Rita Mendonça e convidados.

4º Episódio

No quarto episódio da série, reflete-se sobre o papel fundamental da consciência na Ciência, em especial em tempos de fundamentalismos de toda ordem. Para bem longe das proposições de “terra plana” e embasado pela mais contemporânea visão científica, confronta o Sapiens com o Cosmos. Com Antônio Nobre, Luiz Alberto Oliveira, Luiz Marques e convidados.

5º Episódio

No quinto episódio, reflete-se sobre a emergência de uma consciência planetária diante de um mundo cada vez mais intoxicado. Ressalta o valor incalculável da Vida, a visão planetária e a beleza e a potência da diversidade humana como essenciais para a preservação de um ecossistema sadio em contraposição ao sombrio panorama climático e de mega-extinção que se apresenta. Com, Ailton Krenak, Fritjof Capra, Mônica Pilz Borba e convidados.
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Fonte: https://observatoriodeseries.bol.uol.com.br/noticias/2019/11/conheca-tudo-sobre-consciencia-nova-serie-do-canal-curta

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa"... VÍDEO



No terceiro episódio da série de vídeos de Ecoa "Cada ação importa", sobre iniciativas e atitudes que contribuem para um mundo melhor, o ambientalista, escritor e líder indígena Ailton Krenak fala sobre a importância de entender a Terra como parte de nós, seres humanos. "Se você disser que a natureza é um recurso, ela é um recurso para que e para quem? Além desse grave equívoco de acreditar que a natureza é um recurso, ele vem acompanhado de uma outra percepção: de que a natureza é uma coisa diferente de nós, os seres humanos", diz. O escritor, que lançou em junho deste ano o livro "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", faz uma reflexão sobre a humanidade e a natureza nos tempos atu... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


Vídeo da entrevista no link: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1




FONTE: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/ailton-krenak/#tematico-1?cmpid=copiaecola


A instigante experiência da “comuna” originária

Criado em 1989, em Goiás, Centro de Pesquisa Indígena congregava diversas etnias. Propagava os saberes ancestrais, acolhia acadêmicos, sem-terra e seringueiros e propunha modelos econômicos sustentáveis. Inspirou uma geração de ativistas

Por Angela Pappiani | Imagem: Beto Ricardo/ISA

Convivendo com povos indígenas há tanto tempo, aprendi a valorizar as histórias antigas, as narrativas que nos ensinam sobre os fundamentos, sobre a origem e o passado, consolidando o presente e o futuro. O que tenho feito, ao escrever para o site Outras Palavras, é buscar compartilhar essa vivência.

Nestes tempos de tantas incertezas, versões contraditórias sobre a verdade, questionamentos sobre os rumos do país, sobre o incômodo representado pelos “índios” que desafiam o progresso e a modernidade, decidi resgatar algumas histórias, não tão antigas assim, mas que talvez possam ajudar a entender as lutas e trajetória do movimento indígena, as ações de afirmação e assim enxergarmos o momento presente e o que vem por aí. Assuntos que não estão na mídia, que ficaram perdidos em registros esparsos num tempo em que o Google não era onipresente.

A primeira história é sobre o Centro de Pesquisa Indígena (CPI) e seu legado.

Uma publicação do Núcleo de Cultura Indígena, de circulação restrita, editada em 1996, apresentava essa iniciativa pioneira nas palavras de seu coordenador Ailton Krenak:

“O Centro de Pesquisa Indígena não é um lugar, é um caminho que liga a memória da criação do mundo, presente nas narrativas tradicionais, no conhecimento antigo, com o conhecimento sobre o novo que é o trabalho do cientista e do pesquisador”.

O CPI foi criado em 1989, logo após a promulgação da nova Constituição que, graças ao trabalho incansável das comunidades indígenas e seus aliados, garantiu direitos básicos aos povos originários.

Espaço físico de convivência interétnica e experimentação, a partir de um sítio nos arredores de Goiânia, o CPI seria o local de implementação do Programa de Formação e Apoio à Pesquisa das Comunidades Indígenas, com o encontro entre o conhecimento tradicional, as novas tecnologias, o conhecimento científico ocidental e acadêmico.

A criação do Centro de Pesquisa Indígena foi inspirada num sonho de Sibupá, importante ancião e xamã do povo Xavante. Sibupá sonhou com o “dono dos animais” que lhe pedia uma ação urgente, mostrando a devastação que os warazu – os estrangeiros, que estavam causando danos à natureza, tirando a possibilidade de sobrevivência dos animais silvestres, base da alimentação do corpo e do espírito dos guerreiros desse povo. Sem o cerrado, sem as frutas, a água e os animais, a vida não seria mais possível. A única chance de sobreviver, segundo os anciãos Xavante, era encontrar aliados e novas tecnologias que dessem conta do ritmo acelerado da destruição. Assim entra na história o Núcleo de Cultura Indígena, organização formal criada pela União das Nações Indígenas (UNI) em 1984 para implementar suas ações e projetos, já que a UNI fora impedida de se formalizar por trazer em seu conceito a diversidade de nações existentes no país. Depois de toda a luta pela Constituição, com as garantias asseguradas aos territórios indígenas, o próximo passo na estratégia era buscar a proteção e gerenciamento desses territórios, afirmação das identidades e alternativas econômicas sustentadas nas tradições para dar respostas ao novo tempo.

Assim, em 1988, começava a ser construída, a partir das demandas dos povos indígenas, uma parceria pioneira com a Universidade Católica de Goiás (UCG), com a mediação do Professor Wanderlei de Castro. Um programa pioneiro, muito anterior à ideia de cotas, e com uma proposta de intercâmbio de saberes e conhecimentos envolvendo jovens estudantes e os anciãos das aldeias. Essa iniciativa não tinha como proposta a criação de profissionais para o mercado de trabalho, mas sim de pesquisadores com ampla formação, com acesso ao conhecimento acadêmico e valorização de suas tradições, buscando respostas para os desafios contemporâneos, com foco na preservação do patrimônio físico, cultural e espiritual dos territórios ao lado da melhoria nas condições de vida das comunidades.

O Programa de Apoio à Formação e Pesquisa das Comunidades Indígenas é implantado a partir de um sítio, nos arredores de Goiânia. Em casas tradicionais construídas pelo povo Xavante, conviveram, durante quatro anos de formação em Biologia Aplicada, os oito estudantes indígenas enviados por suas comunidades. Um currículo especial permitia que esses estudantes indígenas, mesmo sem formação escolar, frequentassem a universidade, as aulas e laboratórios, tendo acesso ao conhecimento acadêmico. Ao mesmo tempo, o espaço do CPI recebia professores e estudantes nas atividades de experimentação, na convivência com os mestres vindos das aldeias. Para essa formação, vieram de Roraima dois jovens do povo Yanomami (Geraldo e Abrahão), dois jovens Tikuna, do Amazonas (Gilson e Bruno), um jovem do povo Suruí, de Rondônia (Almir – que se tornaria depois um grande líder, reconhecido internacionalmente), um jovem Xavante (Jamiro) e dois do povo Krenak (Carlos e Mário). No espaço do sítio foi montado um viveiro de mudas nativas com estudos sobre germinação, viveiros de peixes e camarões nativos, criatório de cateto e queixada, áreas de agrofloresta e recuperação de solos, com assessoria de José Lutzenberg da Fundação Gaia, laboratórios de pesquisa em processamento de frutos nativos.

Toda a estrutura física de ponta montada no sítio, os programas e parcerias e o gerenciamento do Centro de Pesquisa eram de responsabilidade de uma equipe de profissionais do Núcleo, uma organização indígena que pela primeira vez recebia investimentos de várias fontes internacionais para o desenvolvimento independente desse trabalho.

Ao longo desse processo, se juntaram outros centros de excelência como a Esalq (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz), Embrapa, CPAC (Centro de Pesquisas agropecuárias do cerrado), CPAP (Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal) e IBAMA.

Além desse programa, cinco estudantes das etnias Baré, Pankararu, Terena e Kaingang, com segundo grau completo, iniciaram o curso de Direito com a proposta de formação dos primeiros advogados indígenas. Essa iniciativa foi interrompida no segundo ano diante da recusa do Conselho Federal de Educação, do Ministério da Educação, em reconhecer a legitimidade e especificidade dos cursos.

A proposta do Centro de Pesquisa Indígena estava muito além de seu tempo e deixou um legado importante para todos os envolvidos direta ou eventualmente no trabalho. O espaço do sítio reuniu etnias diferentes trocando saberes e impressões do mundo, produzindo cultura e intercâmbios, juntou educadores e estudantes da universidade em torno de conhecimentos milenares, com respeito, escuta, trocas verdadeiras, acolheu trabalhadores rurais sem terra e seringueiros e extrativistas da Amazônia com seus conhecimentos sobre a natureza, provocou novas pesquisas e descobertas nas parcerias com outras instituições, abriu caminhos novos para comunidades indígenas reafirmarem sua identidade, autonomia e relações com a sociedade não indígena.

Depois de quatro anos de atividades a partir desse lugar, no centro-oeste do país e com a parceria com a Universidade Católica, a proposta se expandiu, com pesquisas e formações em outros pontos do país. O território Krenak, que acabava de ser retomado legalmente, depois de décadas de luta, foi um dos núcleos de ação do CPI com o Programa de Reflorestamento e criação controlada de animais silvestres. Todo o esforço do povo Krenak na recuperação de sua terra reconquistada, de sua cultura e autonomia foi brutalmente alterado pelo rompimento da Barragem de Mariana, em 2015, que provocou o estado de coma do Rio Doce e de muitos sonhos da comunidade.

No Estado do Mato Grosso, o Projeto Jaburu, com o povo Xavante, recuperou 20% do cerrado que havia sido devastado pela cultura de arroz e pasto, conseguiu o aumento na população de animais silvestres, adensamento de árvores frutíferas, monitoramento e controle do território.

No Estado do Acre as ações do CPI fortaleceram pesquisas e projetos práticos nas áreas Kaxinawá/Huni Kuin do Rio Jordão e Yawanawá do Rio Gregório, com manejo de caça e pesca, plantio e comercialização de urucum e desenvolvimento e produção do “couro vegetal” – tecido emborrachado com látex para manufatura de diversos produtos, melhorando o ganho para as comunidades extrativistas. Além dos projetos de autonomia econômica, esses povos fortaleceram sua identidade, cultura e tradição em grandes Festivais Culturais que reúnem hoje centenas de pessoas, das velhas e novas gerações, e aliados de vários cantos do mundo em torno da celebração da vida. Na área Ashaninka do Rio Amônia o trabalho se fortaleceu com o manejo de caça e pesca, recuperação de áreas degradadas e pesquisa de essências e princípios ativos florestais para possíveis usos nas áreas da cosmética e medicina, além de coleta de sementes de árvores nativas para reflorestamento comercializadas pela Esalq, a partir de Araraquara, São Paulo. Desde 2007, o Centro Yorenka Ãtame, no município de Marechal Thaumaturgo, consolidou e aprimorou os princípios do Centro de Pesquisa, tornando-se uma referência para os povos indígenas e não indígenas de todo o país, firmando- se como um espaço de diálogo, troca e difusão de saberes da floresta.

Em Rondônia, Almir Suruí e representantes das novas gerações dão continuidade a pesquisas e projetos de proteção da biodiversidade, recuperação e fortalecimento de saberes milenares, geração de renda a partir dos recursos da floresta em pé. A Associação Metareilá foi pioneira na fiscalização do território usando a tecnologia em parceria com o Google Earth e a firmar um acordo de compensação ambiental por sequestro de carbono. Essas e outras iniciativas confrontam as políticas desenvolvimentistas do Estado que causaram a perda de quase toda a cobertura florestal do Estado, de sua biodiversidade, e ainda gerando conflitos e mortes decorrentes da falta de controle sobre garimpos ilegais de ouro e diamantes.

No território Yanomami o legado desse trabalho também floresceu. Davi Kopenawa foi sempre um importante aliado, incentivador e participante ativo da construção do Centro de Pesquisa, contribuindo ao trazer o conhecimento milenar dos Yanomami sobre a floresta. O conhecimento sobre as relações com instituições e outros povos, incorporado na vivência dentro do Centro de Pesquisa, é ainda importante ferramenta para afirmação dos valores do povo Yanomami, em sua relação com o Estado e a sociedade não indígena.

O que essa breve história, apesar de muito resumida, revela? Que depois de lutarem durante anos por uma lei que respeitasse os povos indígenas em sua diversidade, especificidade e em seus direitos dentro da nação brasileira, esses povos continuaram a se mover em direção ao futuro, buscando garantir a integridade de seus territórios, a vida em abundância para as novas gerações, a relação de troca verdadeira com os não indígenas, com a ciência e a academia. Muitas das ações iniciadas na década de 1980 se consolidaram e expandiram trazendo melhoria de vida a essas populações, a partir de sua vontade e determinação, independentemente dos Governos e, muitas vezes, com a própria vida em risco. Benke Pyanko Ashaninka, Almir Suruí, Davi Kopenawa Yanomami e tantos outros líderes têm suas vidas ameaçadas por madeireiros, garimpeiros, grileiros, políticos corruptos, pelos interesses econômicos de grandes corporações. Apesar do reconhecimento nacional e internacional ao empenho desses líderes na valorização da diversidade de culturas e formas de vida, essa luta parece estar sempre na contramão dos interesses do Estado que não garante a integridade de suas vidas.

As conquistas nunca foram e não serão fáceis pois o confronto é com um modelo que valoriza as conquistas materiais, colocando o lucro e a exploração acima de tudo e todos. Só a conexão com os ancestrais e o mundo espiritual pode dar a proteção e o ânimo para que a luta continue.

As leis escritas no papel, infelizmente estão sujeitas aos desejos dos grandes poderosos e a eles se dobram. Todas as descobertas da ciência ocidental sobre a importância das florestas para o planeta, que vêm confirmar o conhecimento milenar dos povos indígenas, não conseguem dialogar com a mentalidade egoísta e mercantilista de boa parte da humanidade. Os povos tradicionais sabem que cada ser da natureza é vivo, tem humor e um papel crucial na sobrevivência de todo o coletivo. Que sendo parte da natureza, os homens têm responsabilidade sobre suas ações e o futuro de nossa casa comum, o planeta. E esses povos fazem sua parte, conquistam novos conhecimentos, criam novas oportunidades, mostram caminhos, se alegram em contar suas histórias. A quem quiser escutar.

FONTE: https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/a-instigante-experiencia-da-comuna-indigena/