terça-feira, 15 de março de 2022
Resiliência climática e culturas tradicionais
Práticas culturais são fundamentais para essa travessia.
Ana Rita Albuquerque
16:49 - 4 De Março De 2022
As mudanças climáticas apresentam riscos para os ecossistemas terrestres e oceânicos, para os padrões de vida, saúde e segurança hídrica. A mitigação desses eventos tem que levar em conta desde a infraestrutura até as projeções de crescimento das cidades e as rupturas ocasionadas pelos eventos naturais, por guerras, pelo desflorestamento e tudo o mais que pode levar à busca de maior ou menor resiliência.
Nas cidades e nos campos, alagamentos e enchentes vêm se acentuando, tornando essencial adaptação e resiliência, com investimentos e planejamento, mas também com soluções baseadas nos conhecimentos científicos e tradicionais, ou seja, o aprendizado da natureza também é fundamental para a resiliência.
A inclusão no IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em 2019, do conhecimento das populações tradicionais locais e dos povos indígenas este já consagrado desde 2007 na Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas, une ciência e natureza e oferece grande contribuição para projetos socioecológicos resilientes. Essas comunidades detêm grande prática cultural, sabedoria, tradições e formas de conhecer o mundo podendo fornecer informações e soluções para as mudanças climáticas.
Importantes projetos de resiliência climática estão sendo desenvolvidos na África visando a redução da desertificação, também no Ártico, Finlândia, China e em locais mais vulneráveis ao aquecimento global, unindo os conhecimentos tradicionais e científicos.
Enquanto os conhecimentos tradicionais estão sendo incorporados aos estudos científicos para a sobrevivência do planeta e estratégias de adaptação, no Brasil, a série Maracá – Emergência indígena denuncia o genocídio indígena e questiona o preço que pagaremos por tal ato.
O pensador e líder indígena Ailton Krenak salienta que apesar de todas as evidências, as geleiras derretendo, os oceanos cheios de lixo, o grande número das espécies em extinção, estamos nos desconectando desse organismo vivo que é a Terra. Seu povo habita o denominado “Quadrilátero Ferrífero” em Minas Gerais, onde a lama da mineração de grandes corporações envenena a bacia do rio Doce.
Nesse cenário, Krenak aponta alguma esperança: “O tempo passou, as pessoas se concentraram em metrópoles, e o planeta virou um paliteiro. Mas, agora, de dentro do concreto, surge essa utopia de transformar o cemitério urbano em vida. A agrofloresta e a permacultura mostram aos povos da floresta que existem pessoas nas cidades viabilizando novas alianças, sem aquela ideia de campo de um lado e cidade do outro” (Krenak, Ailton. A vida não é útil, p.22).
Apesar de seu território estar devastado e sem caça, cumprindo as projeções de antigos pajés, Krenak sugere que ainda há tempo de um armistício e admitir que “o nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terão que se dar de outra maneira” (idem, p.44).
É essencial a contribuição de todos para atravessar esse deserto, e as práticas culturais são fundamentais para essa travessia, isto é, se realmente decidirmos sobreviver sem sermos devorados pelo desenvolvimento insustentável que ainda predomina sobre uma terra ainda tolerante, mas cansada.
FONTE: https://monitormercantil.com.br/resiliencia-climatica-e-culturas-tradicionais/
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
Documentário aborda as fontes de energia do Brasil e quanto são renováveis e limpas
Revolixonários parte II Energia do Amanhã apresenta a atual situação da matriz energética do país
Por
Página 3
18 de fevereiro de 2022
Ela está conosco diariamente, em casa, no trabalho, no lazer, e quando ela falta, ficamos desorientados. A energia elétrica move o mundo moderno. Mas quais os impactos que ela gera? Nosso País gera energia limpa? De que forma as mudanças climáticas afetam a produção energética?
Essa e outras perguntas motivaram o novo documentário do produtor e diretor paulistano Thiago Eduardo, radicado em Itajaí, a ligar as câmeras e embarcar no universo da matriz energética brasileira.
No seu segundo documentário Revolixonários Energia do Amanhã, Thiago percorre o Brasil p ara descobrir se há luz no fim do túnel, se o Brasil produz realmente energia limpa e como está se preparando para o futuro, para suprir as demandas do País. “Queremos com o documentário conscientizar as pessoas a tentar mudar o destino do mundo. O audiovisual é capaz de sensibilizar o público com os argumentos e imagens. Vamos lançá-lo em março no canal Futura e também iremos disponibilizá-lo no Youtube e nos canais de streaming gratuitos, contribuindo para o livre acesso às fontes da cultura e o pl eno exercício dos direitos culturais. Além disso, tem versões em libras e em áudio descrição e legendas”, explica Thiago.
De acordo com o Ministério das Minas e Energias, as fontes renováveis de energia, que incluem hidráulica, eólica, solar e bioenergia, chegaram a 46,1% de participação na Matriz Energética de 2019, aumentando 0,6 ponto percentual em relação ao indicador de 2018. O indicador brasileiro representa três vezes o mundial. Para apresentar a diversificação de fontes renováveis, a equipe do documentário viajou durante 30 dias, mais de 12 mil quilômetros, para conhecer a realidade do Bra sil. O itinerário começou por Florianópolis e passou pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Tocantins e Pará.
Nos 45 minutos de documentário, especialistas de todo o país falaram do assunto. “Buscamos entrevistar, sobre o sistema nacional de energia, especialista do governo, doutores, autoridades e também líderes comunitários e indígenas, que tiveram suas vidas afetadas pelas hidrelétricas”, comenta o diretor.
Entre os entrevistados estão Paulo Cesar Magalhães, Secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Philipp Hauser Pesquisador Agora Energiewende, Ricardo Ruther, Engenheiro Mertalúrgico PH.D – UFSC, Antônia Melo, líder movimento Xingu Vivo,
Judite Rocha, Líder Movimento atingidos pelas barragens MAB, Karin Rodrigues, ativista do movimento “Por favor menos lixo” e AILTON KRENAK, Líder indígena, entre outros.
Com patrocínio da Portonave e BRDE, através da Lei de Incentivo a Cultura, o documentário foi realizado pela Sou Filmes, com direção e coordenação de Thiago Eduardo da Silva, produtor executivo Leandro Romero, pesquisa e roteiro Diulie Tavares, autor de argumento Rafael Langella.
Ficha Técnica:
Thiago Eduardo da Silva – Coordenação geral, direção cinematográfica e de produção, Marcel Poliezelli – Assistente de produção, Leandro Romero – Produtor executivo, Diulie Tavares – Pesquisa e roteiro, Rafael Langella – Autor de Argumento e montagem, Thiago Eduardo da Silva – Direção de fotografia, Emerson Rangel – Assistente de câmera, Leandro Romero – Operador de drone, Thiago Eduardo da Silva – Finalizador e color grading, Cristian Moresco – Mixagem e narrador de audiodescrição, Thiago Eduardo da Silva – Legenda descritiva, Jean Carlos Barbosa – Intérprete de libras, Jandir Bruch – Autoraçã ;o DVD e cópias digitais, Luciana Haugg – Assessoria de imprensa, Marcel Polizeli – Captação de recursos e Natalia Gaya – Captação de recursos.
Texto: Luciana Haugg/Contacto Comunicação
FONTE: https://pagina3.com.br/variedades/documentario-aborda-as-fontes-de-energia-do-brasil-e-quanto-sao-renovaveis-e-limpas/
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
Festival Artes Vertentes comemora 10 anos com evento presencial
Publicado por Carol Braga
em 9 de fevereiro de 2022 às 11:36
Festival Artes Vertentes reúne diversas expressões artísticas artísticas em Tiradentes
Começa nesta quinta e vai até o dia 20 de fevereiro o Festival Artes Vertentes – Festival Internacional de Artes de Tiradentes. O evento nasceu e continua sendo multilinguagem. Em 2022 toda a programação se desenrola em torno do elemento água. A programação tem atrações nas áreas de música, literatura, cinema, artes visuais e artes cênicas.
Literatura
Entre os destaques da programação estão a participação do escritor e líder indígena Daniel Munduruku. Ele abre programação numa conversa sobre a “Água e sua percepção em diversas cosmovisões”. Será no dia 10, às 18h30. Tendo a água como fio condutor. O autor também participará da conversa “Um mergulho no rio da (minha) memória e outras histórias molhadas”, realizada no Centro Cultural Yves Alves, no sábado (12), às 16h.
Também parece imperdível a participação da jornalista e escritora Daniela Arbex. Ela lança o livro Arrastados, sobre os desastres causados pela mineração em Minas.
Já no dia 18, às 18h, o Ciclo Pororoca recebe a jornalista Eliane Brum para uma mesa-redonda com o tema “A água como ponto de conflito no Brasil contemporâneo”, com a participação de Ailton Krenak.
Música e Cinema
A soprano Eliane Coelho vai prestar uma homenagem ao repertório de Heitor Villa-Lobos executado durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Outro destaque na programação musical é a participação de André Mehmari, no dia 20 de fevereiro, ao lado da cantora Mônica Salmaso. Já no cinema, o destaque é a pré-estreia de Lavra, o ótimo documentário de Lucas Bambozzi, também sobre as consequências da mineração em Minas Gerais.
Os ingressos para as atrações musicais custam R$40,00 (inteira) e R$ 20 (meia) e podem ser adquiridos pelo site www.artesvertentes.com.
FONTE: https://culturadoria.com.br/agendacultural/festival-artes-vertentes-2022/
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Lugares de Origem: livro de Ailton Krenak e Yussef Campos é um mergulho ancestral
Obra questiona o conceito de patrimônio cultural, relembra a atuação de Krenak na constituinte de 1987 e 1988 e aborda perspectivas sobre a vida do planeta
Por Nayara Zanetti, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci
08/12/2021 às 09h07- Atualizada 08/12/2021 às 09h10
Quando Ailton Krenak perguntou sobre a escolha do nome “Lugares de origem”, Yussef Campos respondeu que a inspiração havia partido de uma fala dele. Quando perguntei o que seriam lugares de origem para Ailton, o termo foi para além de um ponto de partida. “Foi uma expressão que encontrei para um tema que é muito importante para os povos originários, que é a ideia de território. Território com o sentido cultural profundo, onde não é só uma paisagem, tem implicações.” O diálogo entre o historiador juiz-forano, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Yussef Campos, e o líder indígena, ambientalista, escritor e professor honoris causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Ailton Krenak, resultou no livro “Lugares de origem”, lançado no fim de novembro, que questiona o conceito de patrimônio cultural e reflete sobre a vida do planeta.
Do Leste de Minas Gerais, onde fica a aldeia Krenak, a 600 metros do corpo do Rio Doce, devastado pela lama do rompimento da barragem da mineradora Samarco, que, há seis anos, impede o acesso ao rio, o líder indígena reflete sobre a expressão lugares de origem como uma forma de reconhecer a topografia e as características de um lugar como parte da sua identidade. “Para nós, os Krenak, esse rio não é só um corpo d’água, ele tem personalidade. Nós o chamamos de Watu. É um rio que para nós faz parte da nossa constelação de parentesco, ele é um avô.”
Yussef e Krenak se conheceram em 2013, quando o historiador desenvolvia sua tese de doutorado na Faculdade de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A pesquisa buscava analisar o patrimônio cultural como objeto da Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. Ao observar os atores sociais e políticos envolvidos, Yussef chegou no nome de Ailton Krenak, que era um dos representantes da União das Nações Indígenas.
Ailton Krenak e Yussef Campos autores do livro “Lugares de Origem”.
Tudo que não coube na tese encontrou espaço em “Lugares de origem”. A obra é uma espécie de bastidores da convivência entre os dois, que começa de forma profissional e acaba se tornando uma relação mais próxima. Composto por três capítulos, o livro apresenta a entrevista feita para a tese, uma palestra que Ailton realizou na UFG sobre direitos indígenas e um ensaio de Yussef contando como a relação pessoal deles afetou a sua perspectiva teórica acadêmica.
“Eu me lembro de dizer assim: ‘Ailton, eu tô no meio da minha tese, não faz isso comigo’. Então, esse livro não é um livro acadêmico, é um livro sobre um pensador, que é o Ailton Krenak, e um pesquisador como eu que está tentando entender primeiro a parte das perspectivas e conceitos não indígenas para ter que rever isso tudo, são sempre processos que eu parto de uma provocação não indígena para depois ouvi-lo”, afirma o historiador.
Rin’ta: ao mesmo tempo luto e luta
Uma cena presente no livro que marcou os debates da Constituição de 87 e 88 e transcendeu o tempo foi o gesto de Krenak, em seu discurso na tribuna, ao pintar o rosto com tinta preta de jenipapo em forma de protesto contra o retrocesso na luta pelos direitos indígenas. O ato, um costume tradicional chamado de “Rin’ta”, que na língua krenak significa ao mesmo tempo luto e luta, foi fundamental para a elaboração do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que garantiu aos povos originários o direito sobre seus territórios. “É um reconhecimento a priori que diz que esses povos já estavam aqui. De certa maneira, a gente volta à sua primeira pergunta: lugares de origem”, comenta Ailton.
O gesto tomou grandes proporções e ultrapassou fronteiras. Em 2019, Ailton recebeu um convite de Seul, na Coreia do Sul, para usar o vídeo desse momento em uma grande exposição de arte, que reproduziu a imagem animada, com cerca de dez minutos de duração, em um painel, onde os visitantes podiam escutar as frases do discursos em seis diferentes línguas. “A pessoa podia colocar um fone de ouvido, chegar diante do painel com minha imagem, acionar a fala e o Ailton aparecia falando do jeito que eu falei no Congresso brasileiro. Isso me surpreende no sentido de vitalidade daquele gesto, como ele durou no tempo”, conta.
‘O futuro é ancestral’
Em seus outros livros e no novo lançamento, Ailton recorre ao pensamento de que “o futuro é ancestral”, questionando a narrativa de uma linha do tempo linear, pois acredita que o tempo é cíclico e, dessa maneira, novas perspectivas para as relações entre passado, futuro e presente surgem, como explica Yussef. “Para ele, não existe um planeta B. Se o futuro é ancestral, se o tempo é cíclico, se a terra se regenera até um certo ponto e se nós passamos desse ponto, esse futuro ancestral de que essa terra é capaz de se regenerar pode vir a não existir mais.”
O historiador acredita que o livro possa ser uma ferramenta para auxiliar na desconstrução de um pensamento não indígena, no qual há uma separação entre natureza e ser humano, como se nós não fôssemos natureza. Segundo ele, essa relação de alteridade, como se a natureza fosse distante, fosse o outro, provoca uma onda de destruição cada vez mais implacável e maior. Com isso, Yussef argumenta: “o que podemos aprender com o passado que é esse futuro ancestral?”.
O principal, para Ailton Krenak, é entender que “a terra é nossa mãe, ela não é uma matéria plástica para a gente esticar, puxar, emendar, colar, ela é um organismo vivo” e questionar e romper com a ideia de que “a terra era uma plataforma extrativista, que levou a gente a esse desastre ambiental que estamos vivendo agora”.
“Em relação ao futuro, eu ponho em questão essa promessa futurista, porque na verdade ela pressupõe que a gente vai acabar de comer a terra, enquanto vamos inventando, cada vez mais, aparato tecnológico e justificativa econômica, o que é tudo mentira.” Por isso, ele insiste em viver o momento aqui e agora, refletir sobre o que é verdadeiro a cada instante e andar com calma. “Talvez a gente se reconcilie com esses lugares de origem, talvez reconciliar com esses lugares de origem seja o melhor caminho para vivermos bem, é isso que eu penso.”
Fonte: https://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/08-12-2021/lugares-de-origem-livro-de-ailton-krenak-e-yussef-campos-e-um-mergulho-ancestral.html
UnB concederá título de doutor honoris causa para líder indígena Ailton Krenak
Reconhecimento foi aprovado por aclamação pelo Conselho Universitário da instituição
Redação
Brasil de Fato | Brasília (DF) | 08 de Dezembro de 2021 às 14:12
Líder indígena e ambientalista Aílton Krenak receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB) - Manuel de Almeida/Agência Lusa
O Conselho Universitário da Universidade de Brasília (UnB) aprovou, por aclamação, a concessão do título de doutor honoris causa ao escritos, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak.
O reconhecimento é concedido a personalidades que tenham se destacado pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos. O título foi aprovado na última reunião do Conselho Universitário, ocorrida de forma online na sexta-feira (3).
“O Krenak é um filósofo imprescindível para este momento. Ele acrescenta novas ontologias que transcendem a divisão entre a natureza e o ser humano. Quando destruímos a natureza, destruímos o ser humano. E acrescenta novas epistemologias. A Universidade de Brasília se caracteriza pela abrangência epistemológica, em diversas áreas. Eu destaco as línguas e povos indígenas, o nosso Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas”, afirmou o vice-reitor Enrique Huelva.
A proposta de concessão da homenagem foi sugerida pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDH), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).
Os professores José Geraldo de Sousa Júnior, da Faculdade de Direito (FD), ex-reitos da UnB, e Vanessa Maria de Castro, da Faculdade UnB Gama, entregaram ao conselho todo o processo de concessão do título, que recebeu o endosso dos intelectuais Boaventura de Sousa Santos e Marilena Chauí, ambos também agraciados com o título de doutor honoris causa pela UnB.
Ailton Krenak é um dos mais proeminentes intelectuais brasileiros da atualidade e uma liderança histórica do movimento nacional indígena. Ele é integrante do povo indígena Krenak (ou Borun), e vive no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Nascido em 1953, em Itabirinha (MG), Krenak ganhou notoriedade nacional na década de 1980, no processo de luta pela redemocratização do país, que culminou com a aprovação de uma nova Constituição Federal, em 1988, que assegurou os direitos originários dos povos indígenas brasileiros.
Krenak também faz parte da Aliança dos Povos da Floresta, rede idealizada por Chico Mendes, figura histórica do movimento ambientalista brasileiro e internacional, assassinado em 1988.
“Com essa decisão, a Universidade de Brasília honrará a memória de seu fundador Darcy Ribeiro, antropólogo e aliado dos povos indígenas, e fortalecerá a orientação humanista e o espírito democrático desta instituição”, diz o parecer elaborado pela professora Mônica Nogueira, da Faculdade UnB Planaltina. A universidade ainda não informou a data em que o título será formalmente entregue a Krenak.
No final de 2020, Ailton Krenak foi entrevistado no programa Brasil de Fato Entrevista, transmitido pelas redes sociais do jornal, para analisar sobre o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco/Vale/BHP, que completou seis anos no mês passado.
Fonte: BdF Distrito Federal
Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2021/12/08/unb-concedera-titulo-de-doutor-honoris-causa-para-lider-indigena-ailton-krenak
Edição: Flávia Quirino
Plataforma online TePI dá visibilidade ao teatro de povos indígenas
Iniciativa idealizada por Andreia Duarte e Ailton Krenak disponibiliza peças, performances, podcast, textos críticos, encontros e vários outros materiais
10/12/2021 - 12:27
Por: Redação
Mergulhe no riquíssimo universo dos vários povos indígenas do mundo todo, que resistem bravamente para preservar suas terras, culturas e tradições, na plataforma digital TePI – Teatro e os Povos Indígenas (acesse aqui), com conteúdos lançados até março de 2022.
A iniciativa disponibiliza gratuitamente peças, leituras dramáticas, performances, podcasts, textos, conversas e vários outros conteúdos fantásticos, feitos por artistas indígenas e não-indígenas.
Idealizada pela diretora artística Andreia Duarte e pelo filósofo, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, a plataforma é uma forma de resistência em nosso país, que assiste passivamente ao “desfalecimento da cultura, do direito dos povos indígenas e da negação da vida ambiental e plural”, como diz o texto curatorial do projeto.
Além de valorizar o protagonismo indígena, a plataforma tem a missão de reconhecer nesses trabalhos estéticas e conexões que ampliem a percepção sobre a experiência de ser e estar no planeta Terra.
Ao entender o tetro como um espaço de potência criação e reinvenção da vida, a iniciativa reúne obras que tratam de temas urgentes, como a preservação da natureza; a luta dos povos pelo direito à terra e a moradia; as tradições, a cultura e as peculiaridades de cada etnia indígena; e a memória individual e coletiva dessas nações.
Ao que assistir?
Pensada inicialmente como um evento presencial, a TePI – Teatro dos Povos Indígenas reúne cerca de 71 conteúdos em vídeo e outros formatos. No entanto, depois desse período, a plataforma continua a será abastecida a longo prazo.
Os conteúdos são divididos em cinco eixos: mostra artística, com peças, performances e leituras dramáticas; encontros, com conversas, atos para a cura e práticas pedagógicas; internacionalização, com encontros entre programadores e artistas indígenas de vários países; paisagem crítica, com textos e vídeos sobre os trabalhos da plataforma; e publicações sobre o projeto.
Um dos espetáculos é o chileno “Trewa – Estado-Nação ou o espectro da traição”, da Cia Teatro KIMVN. Na mawida, em meio ao frio e à neve, pessoas próximas de Yudith Macarena Valdés Muñoz, que morreu em 2016, em Tranguil, no sul do Chile, pedem ao ngen mapu permissão para exumar o corpo dela.
Retirar a terra para ir em busca da verdade e da justiça. Em meio às sombras, a violência histórica exercida contra o povo Mapuche pelo Estado do Chile está presente em um nível íntimo e privado nesse espetáculo.
Outra atração é “Yepârio e Saberes”, de Sandra Nanayna, que retrata o cotidiano de quatro pessoas indígenas residentes no contexto urbano. Elas mantêm viva a oralidade e a memória antepassados ao transmitir saberes de geração a geração. A peça toda é falada na língua tukano.
Já a performance-manifesto “Lithipokoroda”, de Lilly Baniwa, foi produzida por por artistas indígenas da cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Uma mulher ancestral adormece, anda pela floresta e atravessa a cidade em direção à Maloca, a casa do conhecimento dos povos indígenas.
A floresta está destruída pelas mãos dos brancos. Mas, para os povos indígenas, os conhecimentos ancestrais estão vivos em seus corpos. O trabalho é uma forma de dizer chega para as invasões genocidas, para as violências perpetuadas por séculos pelos missionários, padres e pastores; por tanto sangue derramado, por tantas proibições, preconceitos e perseguições das culturas originárias.
A TePI – Teatro dos Povos Indígenas tem muitos outros conteúdos incríveis para você explorar sem pressa. Então, corre aqui e conheça um pouco melhor o universo e as lutas de vários povos indígenas.
FONTE: https://catracalivre.com.br/agenda/plataforma-tepi-teatro-e-os-povos-indigenas/
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Covid não veio para ensinar, mas para matar, afirma Ailton Krenak
Para Krenak, a pandemia do coronavírus mostra que não há fronteiras entre o corpo humano e os organismos que o rodeiam
Por FOLHAPRESS
05/12/21 - 20h45
A última mesa da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, de 2021, "Cartografias para Adiar o Fim do Mundo", fechou o evento com uma mensagem de esperança como contraponto à crítica atroz ao capitalismo –ou o chamado "capitaloceno", conceito a partir do qual a ação humana se manifesta sempre como resultado de relações econômicas de poder e desigualdade em um contexto global.
A "caretice ocidental" de certos intelectuais que buscam uma cadeira em lugares "abstratos" foi o ponto de partida para o debate entre o líder indígena, filósofo e escritor Ailton Krenak, 68 anos, e o sociólogo e tradutor Muniz Sodré, 79 anos.
"Os humanos estão encenando uma humilhante condição de consumir a terra. Estamos perdendo a mágica que nos faz seres transcendentes. Entristecer o mundo parece que é a vontade do capital. O capitalismo quer fazer um mundo triste, em que operamos como se fôssemos robôs. Por que nossos peixes têm de carregar microplásticos em suas estruturas?", questionou Krenak, autor de "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", de 2019, e "A Vida Não É Útil", de 2020.
A ideia de resistência a esse povo europeu que pensa seu modo de existir como único, segundo Sodré, estaria impregnada nas cartografias afetivas que dão nome à mesa –elas foram criadas a partir de oficinas promovidas pela Flip com povos indígenas para mapear futuros possíveis para o Brasil.
"Essas cartografias se realizam como uma nova forma de pensar. São instrumentos de uma política de agregação humana. O debate é muito necessário nesse momento de falta de esperança, de desinteresse", afirmou o autor de "Pensar Nagô", de 2017, e "A Sociedade Incivil", de 2021. Sodré evocou ainda o poeta Caio Fernando Abreu (1948-1996) para tratar da importância da discussão: "O impossível não é não dizer, mas não sentir".
Krenak foi além e afirmou que é necessário se rebelar contra a "metástase do que se chama de capitalismo" e que uma das soluções contra isso estaria justamente na prática do que ambos chamaram de "cartografias afetivas" produzidas pelas oficinas.
"Só a força dos ancestrais é que possibilita imaginar essas cartografias, que contêm camadas de mundo onde as narrativas não precisam conflitar umas com as outras. Não podemos nos render a essa narrativa do fim do mundo, que nos faz desistir dos sonhos, que estão na memória dos nossos ancestrais. Minha visão de cartografia é aquela visão fantástica do astronauta olhando para a Terra e dizendo que a Terra é azul."
"Sempre observei a cidade como um muro. É comum as prefeituras ficarem zangadas com árvores que arrebentam as calçadas. Eu gostaria de conclamar todas as árvores a quebrar mesmo as calçadas da cidade", provocou o líder indígena.
Para Krenak, a pandemia do coronavírus mostra que não há fronteiras entre o corpo humano e os organismos que o rodeiam. "Se o vírus fosse pior que o humano, a gente teria desaparecido. A epidemia não vem para ensinar, mas para matar. Não sei de onde vem essa mentalidade branca de que o sofrimento ensina alguma coisa."
Sodré, por fim, argumentou que o vírus é um efeito colateral da colonização da Terra. "A cidade é importante, mas é preciso ver um outro modo de inteligência, a inteligência da floresta. As lições a se tirar vêm da natureza, vem da mata."
FONTE: https://www.otempo.com.br/brasil/covid-nao-veio-para-ensinar-mas-para-matar-afirma-ailton-krenak-1.2579794
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