terça-feira, 15 de março de 2022
Pandemônio na arte
A partir das implicações políticas em seu entorno imediato e da amplificação do abismo social, artistas produzem a primeira leva da arte na pandemia
Juliana MonachesiPUBLICADO EM: 03/03/2022
Março de 2020. Todas as exposições estão fechadas para o público. Todas as exposições que se seguiriam às que estavam em cartaz são adiadas por tempo indeterminado. Abriel de 2020. Editoras disponibilizam livros na íntegra para download gratuito em seus sites. A n-1 Edições publica quase diariamente artigos e ensaios sobre o momento presente sob a rubrica Pandemia Crítica. Ailton Krenak lança O Amanhã Não Está à Venda, livro em que afirma: “Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromissos, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado. O futuro é aqui e agora, pode não haver o ano que vem”. O músico Travis Scott faz show no Fortnite, com público de 14 milhões, devidamente aferido pela Epic Games.
Maio de 2020. Exposições que se seguiriam às que deveriam ter entrado em cartaz são canceladas definitivamente. Explodem as viewing rooms para realização de mostras on-line. Surgem as primeiras críticas aos VRs e à compulsiva produção de visibilidade no mundo da arte. Brasil é capa do NYT com fotografia de cemitério de covas rasas feito às pressas na Amazônia. George Floyd é assassinado por um policial branco em Minneapolis.
Três meses depois da eclosão da pandemia, grande parte da população mundial tinha duas certezas: isso não vai terminar tão cedo e as catástrofes ambientais e cataclismos sociais anteriores à pandemia só vão piorar. Mais três meses de incertezas se seguiriam até umas poucas exposições reabrirem e os espaços de arte, operando segundo protocolos normalizados em tempo recorde, voltarem a funcionar de forma intermitente, abrindo e fechando de acordo com os índices de contaminação e número de mortes em cada estado. O mundo em alerta, a vida em suspensão, e o que os artistas fizeram nesse semestre “perdido”? O que fariam a seguir, ao menos aqueles que tinham condições de seguir trabalhando? Algumas pistas surgiam em plataformas menos assertivas do que as de VRs ou feiras on-line, focadas exclusivamente em vendas.
Assemblages pandêmicos
Jac Leirner começa a postar algumas esculturas bem-humoradas em sua conta de Instagram. Feitas com os materiais que a artista tinha à mão (o que, aliás, sempre fora seu modus operandi), as assemblages pandêmicas guardavam características antropomórficas, traço pouco comum em construções pregressas. Hoje, olhando com algum “recuo histórico”, Leirner afirma que, “no que concerne ao trabalho”, aquele primeiro semestre “foi um tempo de realização do que já estava encaminhado, na fila, 1a espera de vir a ser. Liberei o free style relativo às coisas todas e quaisquer em um fazer sem-fim. Também cuidei dos espaços onde o trabalho acontece, da fundação aos acabamentos”.
No perfil de Instagram de outro artista brasileiro, este radicado em Londres, também uma série de composições antropomórficas desponta: Alexandre da Cunha posta uma imagem de duas pequenas tigelas emborcadas em panelas, com uma pera entre elas fazendo as vezes de nariz, batatas formando o rosto e uma banana smiley arrematando o retrato cheio de humor e leveza. “Quarentena smiles”, alguém comenta. Outros arranjos se seguem até um post em que um coador com borra de café e dois cogumelos bastam para figurar o mood do momento. Um artista deixa nos comentários a observação: “O grito!” Pergunto também a ele sobre a experiência do início da pandemia: “O início da pandemia nos trouxe um material mágico e simbólico muito potente e, de certa forma, até estimulante, onde todo mundo, de repente, teve de se juntar ao mesmo tempo em torno da ideia da morte. As distrações que sempre nos nutriram e amortecem nossa relação mais essencial com a vida (e com a morte) pararam de forma abrupta, e isso gerou muito desequilíbrio”, pondera Alexandre da Cunha.
A fase seguinte – que, para Da Cunha, é a que estamos vivendo agora – “enfatiza as questões políticas, sociais e éticas e todas as suas discrepâncias no âmbito do coletivo. Individualmente, estamos meio perdidos, solitários, sem muitos acessos para nos conectar de fato com o mundo subjetivo. Mas, como artista, me sinto privilegiado, pois meu trabalho me permite esse acesso, e isso tem sido muito restaurador”. Para Jac Leirner, “o trabalho é fruto de todas as experiências. E, nesse sentido, sim, ele resultou também desse tempo estranho e impositivo”.
Reprodução da vida
Marepe, como Jac Leirner, trabalha sempre e por princípio estático com objetos mundanos, porém estreitou seus laços profundamente com o espaço doméstico durante a pandemia. Ventilaflores (2020) é um dos resultados da experiência do isolamento, assim como a maior parte das obras que o artista baiano apresentou na mostra-solo Aglomerado Mergulho (2021), na sua galeria em São Paulo, a Luisa Strina, no primeiro semestre.
Ao se voltar aos afazeres domésticos que não eram parte de suas preocupações, porque antes tinha ajuda em casa, o artista conta que conheceu um novo lugar. Como se o campo da “reprodução da vida”, para falar com Silvia Federici, das ações historicamente esperadas das mulheres (o oposto disso sendo a “produção”, o trabalho remunerado dos homens), invadindo o cotidiano, transmutasse a casa em sujeito histórico, que indaga a sensibilidade artística sobre um fazer invisível que sustenta o mundo.
Arapuca dos dias
Diego Rimaos também fez seu mergulho no ano e meio em que parte do mundo viveu em pausa. Afeito aos trabalhos de pequenas dimensões e extrema delicadeza, o artista mineiro radicado em São Paulo conta que, com o passar dos dias, viu-se interessado mais e mais em questões do seu mundo interior, como numa autoanálise silenciosa.
Seus projetos abstratos começaram a dar lugar a figurações de um mundo onírico, que espelham a interioridade e geram empatia por causa da experiência compartilhada, como o calendário de 2020 separado do pequeno refúgio feito de madeira, bambu, lã e papel por uma escada instransponível: refugiados em nossas bolhas, 2020 se esvaiu no ar.
A inteligência da natureza
Urs Fischer, conhecido pelas réplicas monumentais de esculturas clássicas em parafina que vão derretendo ao longo de suas exposições, voltou-se para dentro (de si, do ateliê, da casa) durante o isolamento. Lançou a série CHAOS, em abril de 2021, NFTs que consistem na animação de dois objetos mundanos escaneados digitalmente e acoplados um ao outro, num movimento contínuo que mostra a interação entre uma esponja e uma couve-flor, ou entre um hot-dog e um controle remoto, com destaque para a simbiose telúrica entre um abacate e uma pequena vela em forma de Vênus de Willendorf.
Apesar do conte do gritantemente advindo de um convívio cerrado com as coisas da casa, o artista suíço não estabelece uma relação direta entre a série e a pandemia: “O conceito original de usar uma abundância de itens de tipo ‘cotidiano’ em algum formato começou muito antes do lockdown, então eu não diria que foi excessivamente informado pela pandemia”, afirma em entrevista à seLecT por e-mail.
Dois meses depois do lançamento dos NFTs, Fischer realizou em sua galeria, em Londres, a Sadie Coles, uma exposição de pinturas que representam a vista do jardim de seu ateliê, de dentro para fora, mostrando um detalhe de poltrona, fiações, uma pia, uma cadeira. Resultado da pandemia, como são apresentadas no texto de divulgação da mostra, as obras expressam a solidão da casa e do jardim, uma observação dos fluxos e padrões da natureza, e refletem um aumento do tempo passado em casa. “Situados em três fases distintas, os fundos fotográficos dessas novas pinturas vêm de trás fontes diferentes: o exterior da casa e do jardim do artista em Los Angeles; os espaços interiores de casa e estúdio; e instantâneos de um rolo de filme descoberto recentemente
na casa da infância”, lemos na apresentação da expo The Intelligence of Nature.
O segundo ano
Natureza e interiores domésticos povoam a “arte da pandemia”, se é que já se pode falar nesses termos. Para o historiador Rafael Domingues, “talvez a gente precise de um pouco mais de futuro para poder ver em perspectiva”, afirma, em resposta à seLecT durante a última mesa do Seminário do 72o Salão de Abril, em setembro deste ano. Mais longevo e cobiçado evento do calendário de salões nacionais de arte, a mostra cearense deste ano recebeu um número considerável de inscrições que continham obras impregnadas de representações e reflexões sobre o impacto da Covid-19. A atualidade vem sendo marcada por uma suposta volta ao “normal”, com um calendário de exposições que se reorganizou, muitos eventos de arte previstos para 2020 podendo acontecer somente um ano depois.
“A pandemia, enquanto experiência social e individual, foi bastante evidenciada nos trabalhos dos artistas, tanto no conjunto dos inscritos quanto entre aqueles que a gente selecionou”, afirma Luciara Ribeiro, uma das curadoras do Salão de Abril deste ano, em entrevista à seLecT. O escopo de inscritos num evento desse porte funciona como uma amostragem importante para calibrar a percepção da arte atual, sobretudo de artistas mais jovens.
Entre os trabalhos expostos, são emblemáticos os desenhos de Diego de Santos, intitulados Fantasma Hereditário, da série Trilogia Fantasma (2021), feitos sobre as folhas da carteira de trabalho da mãe do artista. “Durante a pandemia, estávamos em casa e, mexendo em coisas guardadas há tempos, encontramos esse documento sem qualquer registro. Decidimos que guardar esse objeto era inútil; tratava-se apenas de papel velho juntando traça”, comentou o artista no seminário do salão. Sobre as folhas soltas da carteira de trabalho, Santos desenhou conchas, que carregam a simbologia da morada, mas também aludem ao termo em inglês shell company, que significa empresa fantasma. “O trabalho de arte em geral envolve um grande investimento com possibilidades muito remotas de retorno financeiro; não existe qualquer tipo de registro formal da atuação de um artista profissional, o que faz pensar em outras ausências, silenciamentos e apagamentos”, conclui.
Luciara Ribeiro relata que ficou bastante tocada pela escolha da carteira de trabalho como suporte para o desenho. “Diego traz uma reflexão sobre esse símbolo – ou você tem esse documento assinado ou não tem –, o que se estende a um aspecto de valorização da sua própria existência dentro da sociedade. Por outro lado, esse documento tem sido apagado, porque existe a carteira digital e também pelas próprias possibilidades de trabalho, cada vez menos aliadas a esse documento, como processo de perda de direitos, o que coloca também uma questão estrutural e histórica, do quanto ainda temos de reparar dentro das políticas públicas sociais e de equidade. Suas obras trazem politização para o campo das artes. A política do olhar e do fazer tem se sobressaído mais, porque não tem como vivenciar a política de retrocessos hoje no Brasil sem nos posicionar.”
Oxigênio (2021), obra da Fernanda Siebra exposta no Salão de Abril, é composta de imagens térmicas produzidas a partir do contato de álcool em concentração de 70% com papel de cupons fiscais. “Assim como o exercício respiratório, o oxigênio propõe pensar sobre o direito à vida que nos vem sendo negado e denunciar a crise sanitária e econômica que atravessa o país”, afirma a artista. Os desenhos surgiram por acaso, da experiência de receber uma compra entregue em casa durante o isolamento e, depois de higienizar as mãos, tocar no cupom fiscal e observar o efeito do contato. Siebra então desenhou bustos, covas, pulmões sobre a coleção de recibos. Para Luciara Ribeiro, a artista constrói “uma espécie de diário pandêmico, propondo uma reflexão sobre quem fica dentro de casa, recebendo aquilo de que precisa para sobreviver e quem está na rua, se arriscando, podendo se contaminar. Os recibos mostram aquilo que ela consumiu durante o período, por isso se torna também um diário, assim como a carteira de trabalho se torna um registro da história de alguém e pode ser usado como um controle. E a artista desenha com o álcool 70%, justamente esse elemento que se tornou de uso cotidiano por causa da pandemia”.
Apesar de tudo
Da mesma natureza de problemáticas que se acentuaram com a pandemia, mas sempre estiveram presentes, é a temática da exposição que a curadora Julia Lima realizou em julho e agosto deste ano na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo. A obra que estampa o convite de Ministério da Solidão, da artista Clarice Cunha, funciona como imagem-síntese da experiência pandêmica. Uma mala de viagem de couro, aparentando desgaste, cheia de tacos de madeira, que aludem ao passado desenvolvimentista e modernizador do Brasil dos anos 1950, encerra uma visão melancólica de uma viagem malsucedida, da qual restou a ruína do projeto da arquitetura brasileira do período. “Por sua gama de cores vivas e soluções alegres, os revestimentos foram elementos marcantes dessa arquitetura. Com o gesto de escolher malas como recipientes desses revestimentos, convido à reflexão sobre a importância do imaginário na preservação dos patrimônios no Brasil”, escreve Clarice Cunha sobre Presente #1 (2019) em post no Instagram divulgando a exposição, texto que termina com a frase: “Feliz em colaborar com este projeto e ser uma artista brasileira, apesar de tudo”.
A curadora conta à seLecT que o projeto da mostra é anterior à pandemia, mas que ganhou contornos de profecia autorrealizável, quando, depois de mudanças de local e também de data, finalmente abriu no espaço do Bom Retiro. “A obra relacional de Anna Costa Silva, por exemplo, em que a artista oferece companhia a quem necessite, começou em 2016 e reunia experiências tão diversas quanto o pedido de um participante para que Anna o acompanhasse na fila do Detran.” Com a eclosão da pandemia, o trabalho Ofereço Companhia (2016) seguiu sendo realizado de forma remota.
“Existe obra mais profética do que Protetor de Proximidade Humana (2018), de Renan Marcondes?”, pergunta Julia Lima. “São dispositivos para ações que o artista desenvolve de modo que dois performers possam dançar valsa juntos, mantendo exatamente 1 metro de distância entre eles.” “O Ministério da Solidão reúne artistas que lidam com esse domínio do afeto diante das ansiedades e melancolias que se impõem coletivamente”, escreve Lima no texto da mostra. “São afirmações da resistência, tanto quanto são defesas incondicionais do desejo de estar junto, do encontro, são respostas às tensões e aos colapsos que temos experimentado crescentemente nos últimos anos, agravadas cada vez mais por uma descida vertiginosa ao abismo. Ainda que muito diferentes entre si, os trabalhos se ancoram e se aterram tanto numa poderosa crença nos gestos íntimos de disrupção, assim como em movimentos coletivos de combate.”
Mães ocultas
A série que Daniela Torrente apresentou este ano no Museu da Imagem e do Som, dentro no programa Nova Fotografia 2020, tem como disparador uma prática de retratistas da era vitoriana que, para conseguir fotografar uma criança, precisavam que a mãe (coberta por um tecido) acalmasse a retratada, aguardando a longa exposição diante do obturador. O dispositivo da foto hidden mother (mãe oculta), deslocado para o século 21, ganha contornos políticos, chamando a atenção para o apagamento da mulher no processo (não remunerado) de reprodução da vida, cuidando da casa e dos filhos. Somando à recontextualização o fator, desconhecido pela artista no momento da produção dos retratos atuais, da vida pandêmica, em que justamente a esfera da vida foi doméstica tornou vítimas de volência muitas mulheres isoladas sob o mesmo teto de seus agressores, Sombra de Vitória (2020) torna-se um retrato pungente do mundo hoje. A expressão de tranquilidade e segurança das crianças no colo das mães faz pensar na fortaleza que são as mulheres, contra todas as adversidades, assim como no mistério arcaico desse amor indizível. Mas a série também alude, por outra infeliz coincidência dos tempos, às afegãs vivendo sob o jugo do Taleban.
Mapa relacional
A preocupação com a violência doméstica foi uma das razões que mobilizaram Gabriela Noujaim a criar, muito provavelmente, uma das imagens mais contundentes da pandemia: a máscara que leva o mapa da América Latina serigrafado em vermelho para o rosto de mulheres de diferentes locais do Brasil, que se engajaram na troca com a artista carioca. Gabriela enviava a serigrafia e recebia de volta selfies das participantes usando a máscara em seus locais de trabalho. O que não estava previsto é que, nas trocas, a artista receberia também testemunhos das mulheres sobre as dificuldades que estavam passando. “A maioria dos relatos mencionava ameaças e agressões, mas chegaram também histórias de superação durante a pandemia”, conta em entrevista à seLecT. As fotografias e as histórias tornaram-se um livro de artista, intitulado
Latinamerica 2020, exposto pela primeira vez este ano na Galeria Simone Cadinelli, no Rio de Janeiro. No segundo semestre, em mostra-solo no Museu Nacional da República, em Brasília, Noujaim distribuiu algumas serigrafias entre artistas da cidade, e o símbolo foi parar em manifestação em frente ao Ministério da Saúde. “O trabalho é relacional e vai ganhando seu fluxo."
FONTE: https://www.select.art.br/pandemonio-na-arte/
Resiliência climática e culturas tradicionais
Práticas culturais são fundamentais para essa travessia.
Ana Rita Albuquerque
16:49 - 4 De Março De 2022
As mudanças climáticas apresentam riscos para os ecossistemas terrestres e oceânicos, para os padrões de vida, saúde e segurança hídrica. A mitigação desses eventos tem que levar em conta desde a infraestrutura até as projeções de crescimento das cidades e as rupturas ocasionadas pelos eventos naturais, por guerras, pelo desflorestamento e tudo o mais que pode levar à busca de maior ou menor resiliência.
Nas cidades e nos campos, alagamentos e enchentes vêm se acentuando, tornando essencial adaptação e resiliência, com investimentos e planejamento, mas também com soluções baseadas nos conhecimentos científicos e tradicionais, ou seja, o aprendizado da natureza também é fundamental para a resiliência.
A inclusão no IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em 2019, do conhecimento das populações tradicionais locais e dos povos indígenas este já consagrado desde 2007 na Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas, une ciência e natureza e oferece grande contribuição para projetos socioecológicos resilientes. Essas comunidades detêm grande prática cultural, sabedoria, tradições e formas de conhecer o mundo podendo fornecer informações e soluções para as mudanças climáticas.
Importantes projetos de resiliência climática estão sendo desenvolvidos na África visando a redução da desertificação, também no Ártico, Finlândia, China e em locais mais vulneráveis ao aquecimento global, unindo os conhecimentos tradicionais e científicos.
Enquanto os conhecimentos tradicionais estão sendo incorporados aos estudos científicos para a sobrevivência do planeta e estratégias de adaptação, no Brasil, a série Maracá – Emergência indígena denuncia o genocídio indígena e questiona o preço que pagaremos por tal ato.
O pensador e líder indígena Ailton Krenak salienta que apesar de todas as evidências, as geleiras derretendo, os oceanos cheios de lixo, o grande número das espécies em extinção, estamos nos desconectando desse organismo vivo que é a Terra. Seu povo habita o denominado “Quadrilátero Ferrífero” em Minas Gerais, onde a lama da mineração de grandes corporações envenena a bacia do rio Doce.
Nesse cenário, Krenak aponta alguma esperança: “O tempo passou, as pessoas se concentraram em metrópoles, e o planeta virou um paliteiro. Mas, agora, de dentro do concreto, surge essa utopia de transformar o cemitério urbano em vida. A agrofloresta e a permacultura mostram aos povos da floresta que existem pessoas nas cidades viabilizando novas alianças, sem aquela ideia de campo de um lado e cidade do outro” (Krenak, Ailton. A vida não é útil, p.22).
Apesar de seu território estar devastado e sem caça, cumprindo as projeções de antigos pajés, Krenak sugere que ainda há tempo de um armistício e admitir que “o nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terão que se dar de outra maneira” (idem, p.44).
É essencial a contribuição de todos para atravessar esse deserto, e as práticas culturais são fundamentais para essa travessia, isto é, se realmente decidirmos sobreviver sem sermos devorados pelo desenvolvimento insustentável que ainda predomina sobre uma terra ainda tolerante, mas cansada.
FONTE: https://monitormercantil.com.br/resiliencia-climatica-e-culturas-tradicionais/
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
Documentário aborda as fontes de energia do Brasil e quanto são renováveis e limpas
Revolixonários parte II Energia do Amanhã apresenta a atual situação da matriz energética do país
Por
Página 3
18 de fevereiro de 2022
Ela está conosco diariamente, em casa, no trabalho, no lazer, e quando ela falta, ficamos desorientados. A energia elétrica move o mundo moderno. Mas quais os impactos que ela gera? Nosso País gera energia limpa? De que forma as mudanças climáticas afetam a produção energética?
Essa e outras perguntas motivaram o novo documentário do produtor e diretor paulistano Thiago Eduardo, radicado em Itajaí, a ligar as câmeras e embarcar no universo da matriz energética brasileira.
No seu segundo documentário Revolixonários Energia do Amanhã, Thiago percorre o Brasil p ara descobrir se há luz no fim do túnel, se o Brasil produz realmente energia limpa e como está se preparando para o futuro, para suprir as demandas do País. “Queremos com o documentário conscientizar as pessoas a tentar mudar o destino do mundo. O audiovisual é capaz de sensibilizar o público com os argumentos e imagens. Vamos lançá-lo em março no canal Futura e também iremos disponibilizá-lo no Youtube e nos canais de streaming gratuitos, contribuindo para o livre acesso às fontes da cultura e o pl eno exercício dos direitos culturais. Além disso, tem versões em libras e em áudio descrição e legendas”, explica Thiago.
De acordo com o Ministério das Minas e Energias, as fontes renováveis de energia, que incluem hidráulica, eólica, solar e bioenergia, chegaram a 46,1% de participação na Matriz Energética de 2019, aumentando 0,6 ponto percentual em relação ao indicador de 2018. O indicador brasileiro representa três vezes o mundial. Para apresentar a diversificação de fontes renováveis, a equipe do documentário viajou durante 30 dias, mais de 12 mil quilômetros, para conhecer a realidade do Bra sil. O itinerário começou por Florianópolis e passou pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Tocantins e Pará.
Nos 45 minutos de documentário, especialistas de todo o país falaram do assunto. “Buscamos entrevistar, sobre o sistema nacional de energia, especialista do governo, doutores, autoridades e também líderes comunitários e indígenas, que tiveram suas vidas afetadas pelas hidrelétricas”, comenta o diretor.
Entre os entrevistados estão Paulo Cesar Magalhães, Secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Philipp Hauser Pesquisador Agora Energiewende, Ricardo Ruther, Engenheiro Mertalúrgico PH.D – UFSC, Antônia Melo, líder movimento Xingu Vivo,
Judite Rocha, Líder Movimento atingidos pelas barragens MAB, Karin Rodrigues, ativista do movimento “Por favor menos lixo” e AILTON KRENAK, Líder indígena, entre outros.
Com patrocínio da Portonave e BRDE, através da Lei de Incentivo a Cultura, o documentário foi realizado pela Sou Filmes, com direção e coordenação de Thiago Eduardo da Silva, produtor executivo Leandro Romero, pesquisa e roteiro Diulie Tavares, autor de argumento Rafael Langella.
Ficha Técnica:
Thiago Eduardo da Silva – Coordenação geral, direção cinematográfica e de produção, Marcel Poliezelli – Assistente de produção, Leandro Romero – Produtor executivo, Diulie Tavares – Pesquisa e roteiro, Rafael Langella – Autor de Argumento e montagem, Thiago Eduardo da Silva – Direção de fotografia, Emerson Rangel – Assistente de câmera, Leandro Romero – Operador de drone, Thiago Eduardo da Silva – Finalizador e color grading, Cristian Moresco – Mixagem e narrador de audiodescrição, Thiago Eduardo da Silva – Legenda descritiva, Jean Carlos Barbosa – Intérprete de libras, Jandir Bruch – Autoraçã ;o DVD e cópias digitais, Luciana Haugg – Assessoria de imprensa, Marcel Polizeli – Captação de recursos e Natalia Gaya – Captação de recursos.
Texto: Luciana Haugg/Contacto Comunicação
FONTE: https://pagina3.com.br/variedades/documentario-aborda-as-fontes-de-energia-do-brasil-e-quanto-sao-renovaveis-e-limpas/
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
Festival Artes Vertentes comemora 10 anos com evento presencial
Publicado por Carol Braga
em 9 de fevereiro de 2022 às 11:36
Festival Artes Vertentes reúne diversas expressões artísticas artísticas em Tiradentes
Começa nesta quinta e vai até o dia 20 de fevereiro o Festival Artes Vertentes – Festival Internacional de Artes de Tiradentes. O evento nasceu e continua sendo multilinguagem. Em 2022 toda a programação se desenrola em torno do elemento água. A programação tem atrações nas áreas de música, literatura, cinema, artes visuais e artes cênicas.
Literatura
Entre os destaques da programação estão a participação do escritor e líder indígena Daniel Munduruku. Ele abre programação numa conversa sobre a “Água e sua percepção em diversas cosmovisões”. Será no dia 10, às 18h30. Tendo a água como fio condutor. O autor também participará da conversa “Um mergulho no rio da (minha) memória e outras histórias molhadas”, realizada no Centro Cultural Yves Alves, no sábado (12), às 16h.
Também parece imperdível a participação da jornalista e escritora Daniela Arbex. Ela lança o livro Arrastados, sobre os desastres causados pela mineração em Minas.
Já no dia 18, às 18h, o Ciclo Pororoca recebe a jornalista Eliane Brum para uma mesa-redonda com o tema “A água como ponto de conflito no Brasil contemporâneo”, com a participação de Ailton Krenak.
Música e Cinema
A soprano Eliane Coelho vai prestar uma homenagem ao repertório de Heitor Villa-Lobos executado durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Outro destaque na programação musical é a participação de André Mehmari, no dia 20 de fevereiro, ao lado da cantora Mônica Salmaso. Já no cinema, o destaque é a pré-estreia de Lavra, o ótimo documentário de Lucas Bambozzi, também sobre as consequências da mineração em Minas Gerais.
Os ingressos para as atrações musicais custam R$40,00 (inteira) e R$ 20 (meia) e podem ser adquiridos pelo site www.artesvertentes.com.
FONTE: https://culturadoria.com.br/agendacultural/festival-artes-vertentes-2022/
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Lugares de Origem: livro de Ailton Krenak e Yussef Campos é um mergulho ancestral
Obra questiona o conceito de patrimônio cultural, relembra a atuação de Krenak na constituinte de 1987 e 1988 e aborda perspectivas sobre a vida do planeta
Por Nayara Zanetti, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci
08/12/2021 às 09h07- Atualizada 08/12/2021 às 09h10
Quando Ailton Krenak perguntou sobre a escolha do nome “Lugares de origem”, Yussef Campos respondeu que a inspiração havia partido de uma fala dele. Quando perguntei o que seriam lugares de origem para Ailton, o termo foi para além de um ponto de partida. “Foi uma expressão que encontrei para um tema que é muito importante para os povos originários, que é a ideia de território. Território com o sentido cultural profundo, onde não é só uma paisagem, tem implicações.” O diálogo entre o historiador juiz-forano, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Yussef Campos, e o líder indígena, ambientalista, escritor e professor honoris causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Ailton Krenak, resultou no livro “Lugares de origem”, lançado no fim de novembro, que questiona o conceito de patrimônio cultural e reflete sobre a vida do planeta.
Do Leste de Minas Gerais, onde fica a aldeia Krenak, a 600 metros do corpo do Rio Doce, devastado pela lama do rompimento da barragem da mineradora Samarco, que, há seis anos, impede o acesso ao rio, o líder indígena reflete sobre a expressão lugares de origem como uma forma de reconhecer a topografia e as características de um lugar como parte da sua identidade. “Para nós, os Krenak, esse rio não é só um corpo d’água, ele tem personalidade. Nós o chamamos de Watu. É um rio que para nós faz parte da nossa constelação de parentesco, ele é um avô.”
Yussef e Krenak se conheceram em 2013, quando o historiador desenvolvia sua tese de doutorado na Faculdade de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A pesquisa buscava analisar o patrimônio cultural como objeto da Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. Ao observar os atores sociais e políticos envolvidos, Yussef chegou no nome de Ailton Krenak, que era um dos representantes da União das Nações Indígenas.
Ailton Krenak e Yussef Campos autores do livro “Lugares de Origem”.
Tudo que não coube na tese encontrou espaço em “Lugares de origem”. A obra é uma espécie de bastidores da convivência entre os dois, que começa de forma profissional e acaba se tornando uma relação mais próxima. Composto por três capítulos, o livro apresenta a entrevista feita para a tese, uma palestra que Ailton realizou na UFG sobre direitos indígenas e um ensaio de Yussef contando como a relação pessoal deles afetou a sua perspectiva teórica acadêmica.
“Eu me lembro de dizer assim: ‘Ailton, eu tô no meio da minha tese, não faz isso comigo’. Então, esse livro não é um livro acadêmico, é um livro sobre um pensador, que é o Ailton Krenak, e um pesquisador como eu que está tentando entender primeiro a parte das perspectivas e conceitos não indígenas para ter que rever isso tudo, são sempre processos que eu parto de uma provocação não indígena para depois ouvi-lo”, afirma o historiador.
Rin’ta: ao mesmo tempo luto e luta
Uma cena presente no livro que marcou os debates da Constituição de 87 e 88 e transcendeu o tempo foi o gesto de Krenak, em seu discurso na tribuna, ao pintar o rosto com tinta preta de jenipapo em forma de protesto contra o retrocesso na luta pelos direitos indígenas. O ato, um costume tradicional chamado de “Rin’ta”, que na língua krenak significa ao mesmo tempo luto e luta, foi fundamental para a elaboração do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que garantiu aos povos originários o direito sobre seus territórios. “É um reconhecimento a priori que diz que esses povos já estavam aqui. De certa maneira, a gente volta à sua primeira pergunta: lugares de origem”, comenta Ailton.
O gesto tomou grandes proporções e ultrapassou fronteiras. Em 2019, Ailton recebeu um convite de Seul, na Coreia do Sul, para usar o vídeo desse momento em uma grande exposição de arte, que reproduziu a imagem animada, com cerca de dez minutos de duração, em um painel, onde os visitantes podiam escutar as frases do discursos em seis diferentes línguas. “A pessoa podia colocar um fone de ouvido, chegar diante do painel com minha imagem, acionar a fala e o Ailton aparecia falando do jeito que eu falei no Congresso brasileiro. Isso me surpreende no sentido de vitalidade daquele gesto, como ele durou no tempo”, conta.
‘O futuro é ancestral’
Em seus outros livros e no novo lançamento, Ailton recorre ao pensamento de que “o futuro é ancestral”, questionando a narrativa de uma linha do tempo linear, pois acredita que o tempo é cíclico e, dessa maneira, novas perspectivas para as relações entre passado, futuro e presente surgem, como explica Yussef. “Para ele, não existe um planeta B. Se o futuro é ancestral, se o tempo é cíclico, se a terra se regenera até um certo ponto e se nós passamos desse ponto, esse futuro ancestral de que essa terra é capaz de se regenerar pode vir a não existir mais.”
O historiador acredita que o livro possa ser uma ferramenta para auxiliar na desconstrução de um pensamento não indígena, no qual há uma separação entre natureza e ser humano, como se nós não fôssemos natureza. Segundo ele, essa relação de alteridade, como se a natureza fosse distante, fosse o outro, provoca uma onda de destruição cada vez mais implacável e maior. Com isso, Yussef argumenta: “o que podemos aprender com o passado que é esse futuro ancestral?”.
O principal, para Ailton Krenak, é entender que “a terra é nossa mãe, ela não é uma matéria plástica para a gente esticar, puxar, emendar, colar, ela é um organismo vivo” e questionar e romper com a ideia de que “a terra era uma plataforma extrativista, que levou a gente a esse desastre ambiental que estamos vivendo agora”.
“Em relação ao futuro, eu ponho em questão essa promessa futurista, porque na verdade ela pressupõe que a gente vai acabar de comer a terra, enquanto vamos inventando, cada vez mais, aparato tecnológico e justificativa econômica, o que é tudo mentira.” Por isso, ele insiste em viver o momento aqui e agora, refletir sobre o que é verdadeiro a cada instante e andar com calma. “Talvez a gente se reconcilie com esses lugares de origem, talvez reconciliar com esses lugares de origem seja o melhor caminho para vivermos bem, é isso que eu penso.”
Fonte: https://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/08-12-2021/lugares-de-origem-livro-de-ailton-krenak-e-yussef-campos-e-um-mergulho-ancestral.html
UnB concederá título de doutor honoris causa para líder indígena Ailton Krenak
Reconhecimento foi aprovado por aclamação pelo Conselho Universitário da instituição
Redação
Brasil de Fato | Brasília (DF) | 08 de Dezembro de 2021 às 14:12
Líder indígena e ambientalista Aílton Krenak receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB) - Manuel de Almeida/Agência Lusa
O Conselho Universitário da Universidade de Brasília (UnB) aprovou, por aclamação, a concessão do título de doutor honoris causa ao escritos, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak.
O reconhecimento é concedido a personalidades que tenham se destacado pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos. O título foi aprovado na última reunião do Conselho Universitário, ocorrida de forma online na sexta-feira (3).
“O Krenak é um filósofo imprescindível para este momento. Ele acrescenta novas ontologias que transcendem a divisão entre a natureza e o ser humano. Quando destruímos a natureza, destruímos o ser humano. E acrescenta novas epistemologias. A Universidade de Brasília se caracteriza pela abrangência epistemológica, em diversas áreas. Eu destaco as línguas e povos indígenas, o nosso Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas”, afirmou o vice-reitor Enrique Huelva.
A proposta de concessão da homenagem foi sugerida pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDH), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).
Os professores José Geraldo de Sousa Júnior, da Faculdade de Direito (FD), ex-reitos da UnB, e Vanessa Maria de Castro, da Faculdade UnB Gama, entregaram ao conselho todo o processo de concessão do título, que recebeu o endosso dos intelectuais Boaventura de Sousa Santos e Marilena Chauí, ambos também agraciados com o título de doutor honoris causa pela UnB.
Ailton Krenak é um dos mais proeminentes intelectuais brasileiros da atualidade e uma liderança histórica do movimento nacional indígena. Ele é integrante do povo indígena Krenak (ou Borun), e vive no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Nascido em 1953, em Itabirinha (MG), Krenak ganhou notoriedade nacional na década de 1980, no processo de luta pela redemocratização do país, que culminou com a aprovação de uma nova Constituição Federal, em 1988, que assegurou os direitos originários dos povos indígenas brasileiros.
Krenak também faz parte da Aliança dos Povos da Floresta, rede idealizada por Chico Mendes, figura histórica do movimento ambientalista brasileiro e internacional, assassinado em 1988.
“Com essa decisão, a Universidade de Brasília honrará a memória de seu fundador Darcy Ribeiro, antropólogo e aliado dos povos indígenas, e fortalecerá a orientação humanista e o espírito democrático desta instituição”, diz o parecer elaborado pela professora Mônica Nogueira, da Faculdade UnB Planaltina. A universidade ainda não informou a data em que o título será formalmente entregue a Krenak.
No final de 2020, Ailton Krenak foi entrevistado no programa Brasil de Fato Entrevista, transmitido pelas redes sociais do jornal, para analisar sobre o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco/Vale/BHP, que completou seis anos no mês passado.
Fonte: BdF Distrito Federal
Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2021/12/08/unb-concedera-titulo-de-doutor-honoris-causa-para-lider-indigena-ailton-krenak
Edição: Flávia Quirino
Plataforma online TePI dá visibilidade ao teatro de povos indígenas
Iniciativa idealizada por Andreia Duarte e Ailton Krenak disponibiliza peças, performances, podcast, textos críticos, encontros e vários outros materiais
10/12/2021 - 12:27
Por: Redação
Mergulhe no riquíssimo universo dos vários povos indígenas do mundo todo, que resistem bravamente para preservar suas terras, culturas e tradições, na plataforma digital TePI – Teatro e os Povos Indígenas (acesse aqui), com conteúdos lançados até março de 2022.
A iniciativa disponibiliza gratuitamente peças, leituras dramáticas, performances, podcasts, textos, conversas e vários outros conteúdos fantásticos, feitos por artistas indígenas e não-indígenas.
Idealizada pela diretora artística Andreia Duarte e pelo filósofo, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, a plataforma é uma forma de resistência em nosso país, que assiste passivamente ao “desfalecimento da cultura, do direito dos povos indígenas e da negação da vida ambiental e plural”, como diz o texto curatorial do projeto.
Além de valorizar o protagonismo indígena, a plataforma tem a missão de reconhecer nesses trabalhos estéticas e conexões que ampliem a percepção sobre a experiência de ser e estar no planeta Terra.
Ao entender o tetro como um espaço de potência criação e reinvenção da vida, a iniciativa reúne obras que tratam de temas urgentes, como a preservação da natureza; a luta dos povos pelo direito à terra e a moradia; as tradições, a cultura e as peculiaridades de cada etnia indígena; e a memória individual e coletiva dessas nações.
Ao que assistir?
Pensada inicialmente como um evento presencial, a TePI – Teatro dos Povos Indígenas reúne cerca de 71 conteúdos em vídeo e outros formatos. No entanto, depois desse período, a plataforma continua a será abastecida a longo prazo.
Os conteúdos são divididos em cinco eixos: mostra artística, com peças, performances e leituras dramáticas; encontros, com conversas, atos para a cura e práticas pedagógicas; internacionalização, com encontros entre programadores e artistas indígenas de vários países; paisagem crítica, com textos e vídeos sobre os trabalhos da plataforma; e publicações sobre o projeto.
Um dos espetáculos é o chileno “Trewa – Estado-Nação ou o espectro da traição”, da Cia Teatro KIMVN. Na mawida, em meio ao frio e à neve, pessoas próximas de Yudith Macarena Valdés Muñoz, que morreu em 2016, em Tranguil, no sul do Chile, pedem ao ngen mapu permissão para exumar o corpo dela.
Retirar a terra para ir em busca da verdade e da justiça. Em meio às sombras, a violência histórica exercida contra o povo Mapuche pelo Estado do Chile está presente em um nível íntimo e privado nesse espetáculo.
Outra atração é “Yepârio e Saberes”, de Sandra Nanayna, que retrata o cotidiano de quatro pessoas indígenas residentes no contexto urbano. Elas mantêm viva a oralidade e a memória antepassados ao transmitir saberes de geração a geração. A peça toda é falada na língua tukano.
Já a performance-manifesto “Lithipokoroda”, de Lilly Baniwa, foi produzida por por artistas indígenas da cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Uma mulher ancestral adormece, anda pela floresta e atravessa a cidade em direção à Maloca, a casa do conhecimento dos povos indígenas.
A floresta está destruída pelas mãos dos brancos. Mas, para os povos indígenas, os conhecimentos ancestrais estão vivos em seus corpos. O trabalho é uma forma de dizer chega para as invasões genocidas, para as violências perpetuadas por séculos pelos missionários, padres e pastores; por tanto sangue derramado, por tantas proibições, preconceitos e perseguições das culturas originárias.
A TePI – Teatro dos Povos Indígenas tem muitos outros conteúdos incríveis para você explorar sem pressa. Então, corre aqui e conheça um pouco melhor o universo e as lutas de vários povos indígenas.
FONTE: https://catracalivre.com.br/agenda/plataforma-tepi-teatro-e-os-povos-indigenas/
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